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PONTO DE VISTA

Quem são as mulheres pan-africanistas e como podem reescrever as relações internacionais?

Blenda Santos 28 de Junho de 2021 (Atualizado 22/03/2024 às 10h03)

FOTO: DOMÍNIO PÚBLICO. IMAGEM DE ANNA JULIA COOPER (1858-1964)

Apesar da intensa participação de pesquisadoras e ativistas, a contribuição feminina para o movimento se tornou tão invisibilizada, que seus nomes nos estudos nesta área correm o risco de serem esquecidos

Este ensaio faz parte da série de textos publicados ao longo de 2021, no Nexo Políticas Públicas , pelos vencedores da primeira edição do Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política.

O pan-africanismo é um movimento teórico-político que surge na diáspora do Atlântico Negro (Américas e Europa), no final do século 19 e início do século 20, como uma alternativa de luta contra a exploração e opressão de africanos e seus descendentes, e sua emancipação e autoafirmação em todo o mundo. É, portanto, um movimento de grande importância para compreender as relações internacionais como condutoras da política internacional. Enquanto disciplina, as RI (relações internacionais) também podem se beneficiar dos estudos sobre pan-africanismo pois ambos analisam e mobilizam categorias como raça e nacionalidade, e conceitos como libertação, integração, solidariedade e personalidade.

Comumente se afirma que a primeira cátedra de RI foi fundada em 1919, em Aberystwyth, no Reino Unido. No entanto, não há consenso sobre quando, onde e em que condições fora fundada. Por outro lado, internacionalistas e cientistas políticos defendem que os primeiros objetos de estudo das RI foram aqueles relacionados às dinâmicas imperialistas, colonialistas e raciais , que ultrapassaram as fronteiras nacionais e ainda hoje estruturam o sistema internacional e a ordem mundial. Nesse contexto, desde o princípio, o movimento pan-africanista tem sido crucial para os estudos das relações internacionais. Isto porque os pan-africanistas foram responsáveis por desenvolver diferentes visões do movimento e, por criar táticas e estratégias capazes de “ler, traduzir e reescrever” a política internacional a partir de perspectivas afrodiaspóricas e antirracistas.

Apesar de sua evidente importância para as relações internacionais, o pan-africanismo permanece à margem das RI. Orientado pelo racismo científico dos séculos passados, as RI têm silenciado debates e intelectuais que desafiam o status quo e tensionam a pluralidade de abordagens do campo de estudos, tais quais raça e gênero. Debates de gênero, em particular, têm encontrado resistência enquanto tópico científico nas RI e na ciência política, e enquanto pauta política em movimentos internacionais como o pan-africanismo.

Resgatar a história das ativistas negras enriquece o movimento pan-africanista e, especialmente, os princípios pan-africanistas da libertação, integração, solidariedade e personalidade, conceitos recorrentes na política internacional e nasrelações internacionais

Já na primeira conferência pan-africana, realizada em Londres, em 1900, é possível observar a marginalização das mulheres. Apenas uma mulher, Anna Julia Cooper, foi autorizada a participar do comitê executivo da conferência. Desde então, questões que impulsionavam o debate sobre gênero foram desarticuladas e minimizadas sob a justificativa de que tais questões não se relacionavam ao pan-africanismo ou não eram tão urgentes para a emancipação e autoafirmação dos povos negros.

“A questão da mulher”, como foi denominada por estudiosos e políticos da época, só foi inserida de forma contundente no movimento durante o congresso pan-africano de 1945, por Amy Ashwood Garvey e Alma La Badie. Foram as ativistas que garantiram a inclusão de cláusulas relevantes para as mulheres nas ações políticas do movimento, a exemplo de remoção de obstáculos que afetam a contratação de mulheres e salário igual para trabalho igual. A realização de muitos eventos pan-africanistas também só foi possível porque as mulheres se organizaram e arrecadaram fundos. Apesar de sua ativa participação, a história das mulheres pan-africanistas e a sua contribuição para o movimento se tornou tão invisibilizada que, segundo a Unesco, nomes femininos nos estudos pan-africanistas correm o risco de serem totalmente esquecidos .

A previsão feita pela Unesco, além da ausência de pesquisas sobre o tema nas RI, levaram ao desenvolvimento da dissertação de mestrado intitulada “Entre ativismos e pan-africanismos: ‘travessias’ internacionais de mulheres negras” . Nessa pesquisa, analiso em que medida o pan-africanismo dialoga com o ativismo de mulheres negras na diáspora do Atlântico Negro, como Claudia Jones (Trinidad), Lélia Gonzalez (Brasil) e May Ayim (Alemanha). Analiso de forma mais detida o século 20 pois foi nesse período em que o pan-africanismo se firmou enquanto movimento, e que mulheres, negros e outros grupos marginalizados começam a adquirir direitos internacionalmente reconhecidos. Ideologias como capitalismo, socialismo e comunismo também ganham força nesse período, entre outros acontecimentos essenciais para as relações internacionais, tais quais a fundação da cátedra de RI.

Um dos resultados da pesquisa mostra que resgatar a história das ativistas negras enriquece o movimento pan-africanista e, especialmente, os princípios pan-africanistas da libertação, integração, solidariedade e personalidade, conceitos recorrentes na política internacional e nas RI. Isto porque, tais mulheres desenvolveram táticas pioneiras de um pensar-fazer (teórico-político) pan-africanista. Táticas que dialogavam com raça, gênero e classe numa perspectiva internacionalista e revolucionária.

De modo geral, as mulheres pan-africanistas foram responsáveis por reescrever as relações internacionais no século 20 a partir de demandas pessoais e subjetivas, identitárias e territoriais – e, ainda assim, internacionais –. Em outras palavras, compreender como ativistas negras dialogam com o pan-africanismo na diáspora do Atlântico Negro é crucial ainda hoje para pensar alternativas para a proteção e promoção dos direitos de populações historicamente exploradas e oprimidas como a população negra.

Bibliografia

Jesus, Blenda Santos de. Espaço social e simbólico do negro na produção acadêmica brasileira das Relações Internacionais no século 21. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, Dourados, v. 8, n. 15, p. 397-423, jun. 2019. ISSN 2316-8323.

Reddock, Rhoda. The first Mrs. Garvey and others: Pan-Africanism and feminism in the early 20th Century British colonial Caribbean. Feminist Africa, n. 19, p. 58-77, sep. 2014.

Silva, Karine de Souza...


Blenda Santos é bacharel em direito, mestranda em relações internacionais na UFBA (Universidade Federal da Bahia) e pesquisadora no InternetLab. Recebeu, em 2021, o Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política na categoria “mestranda”.


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