Como restaurar fazendas abandonadas pode mitigar as mudanças climáticas

B. Rose Huber

Pesquisadores da Universidade de Princeton analisaram terras agrícolas abandonadas em 11 locais ao redor do mundo. O estudo recomenda a implementação de políticas de restauração do habitat nativo dessas áreas, o que aumentaria o sequestro de carbono e promoveria a biodiversidade

Próximo ao campus da Universidade de Princeton, o Instituto Woods compreende 238 hectares de trilhas tranquilas e uma passarela de madeira, locais muito apreciados por caminhantes, corredores e observadores de pássaros. Como muitas florestas em Nova Jersey, este local foi uma colcha de retalhos de campos agrícolas e pomares até cerca de 1940 – antes de se transformar na vista verdejante de hoje.

Mas Nova Jersey não é o único lugar a experimentar o abandono das terras agrícolas. Essa já é uma tendência mundial.

Em todo o planeta, centenas de milhões de acres de terra estão sendo abandonados devido ao que é conhecido como “emigração rural”, ou seja, pessoas que partem para os centros urbanos.

Algumas pessoas saem em busca de prosperidade econômica. Outros são forçados a sair devido a conflitos ou aos efeitos das mudanças climáticas. Somadas à globalização e a mecanização, essas mudanças populacionais estão alterando a economia da agricultura nessas áreas, causando o abandono de terras menos produtivas. Algumas dessas terras agrícolas eventualmente se regeneram em habitats naturais, ajudando tanto a aumentar a biodiversidade quanto a absorver o carbono atmosférico.

Porém, embora os ambientalistas estejam otimistas quanto a possibilidade desse processo ser capaz de oferecer oportunidades para restaurar habitats e sequestrar carbono, é improvável que isso aconteça sem intervenções políticas, como mostra o estudo “O abandono de terras rurais é muito efêmero para fornecer grandes benefícios para a biodiversidade e o clima”, publicado na revista Science Advances e apoiado pelo HMEI (High Meadows Environmental Institute) da Universidade de Princeton.

“À medida que as pessoas deixam as áreas rurais rumo às cidades, há uma chance de a vida selvagem e o clima ganharem terreno – literalmente – à medida que fazendas e pastagens abandonadas voltam a ser florestas e pastagens”, diz o coautor do estudo David Wilcove, professor de ecologia e biologia evolutiva e assuntos públicos e do High Meadows Environmental Institute. “Nosso trabalho mostra que isso não está acontecendo porque as terras ‘abandonadas’ estão sendo rapidamente recultivadas.”

“A menos que países e formuladores de políticas desenvolvam melhores regulamentações e incentivos para permitir que essas terras se recuperem, essa chance de restaurar ecossistemas não será totalmente realizada”, aponta o autor principal Christopher Crawford, estudante de Ph.D. orientado por Wilcove na Princeton School of Public and International Affairs, ex-aluno do programa Princeton Energy and Climate Scholars (PECS) do HMEI. “Continuará sendo uma oportunidade não aproveitada de combater as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade.”

A equipe de pesquisa estudou imagens de 11 locais em quatro continentes, incluindo Brasil, Estados Unidos, Bósnia e Herzegovina, China, Iraque, Cazaquistão, Bielorrússia e Rússia

O estudo – que foi apoiado pelo HMEI e é central na pesquisa de doutorado de Crawford – é o primeiro de uma série de artigos focados nas implicações do abandono de terras agrícolas sobre a biodiversidade e as emissões de carbono. Os coautores do estudo incluem He Yin da Kent State University e Volker C. Radeloff da University of Wisconsin-Madison.

Para verificar onde as terras agrícolas estavam sendo regeneradas – e quanto tempo durou o processo –, os pesquisadores usaram mapas anuais de cobertura de terra, desenvolvidos a partir de imagens de satélite cobrindo 1987 a 2017. O abandono e o recultivo foram estimados rastreando parcelas individuais de terras agrícolas ao longo do tempo.

A equipe de pesquisa estudou imagens de 11 locais em quatro continentes, incluindo Brasil, Estados Unidos, Bósnia e Herzegovina, China, Iraque, Cazaquistão, Bielorrússia e Rússia. Nessas regiões, as terras agrícolas foram abandonadas por motivos que vão desde guerras e conflitos até fatores socioeconômicos e ambientais.

Alguns dos locais estão localizados na antiga União Soviética e foram abandonados após o colapso da união. Enquanto isso, a China tem programas ativos de reflorestamento que incentivam o crescimento de florestas em terras agrícolas marginais e está experimentando quantidades crescentes de emigração rural, como outros países incluídos no estudo.

O grau em que o abandono de terras agrícolas oferece oportunidades ambientais depende da extensão abandonada e por quanto tempo permanece assim. Depois de rastrearem o abandono ano a ano, os pesquisadores descobriram que uma quantidade substancial de terra que estudaram acabou sendo recultivada.

Embora com variações entre os locais, as terras na antiga União Soviética tiveram os mais altos níveis de recultivo. Enquanto isso, nas províncias chinesas de Shaanxi e Shanxi, as terras ficaram abandonadas por mais tempo, talvez graças ao “Grain for Green Program” do governo chinês, que fornece incentivos financeiros para reflorestar terras agrícolas.

No geral, a maior parte das terras agrícolas analisadas no estudo foi abandonada por cerca de apenas 14 anos, em média, o que não é tempo suficiente para compensar quantidades substanciais de carbono ou se tornar habitat de alta qualidade para a vida selvagem, segundo os pesquisadores. Os modelos que eles produziram mostram que cerca de 50% das terras agrícolas abandonadas serão recultivadas dentro de 30 anos. Nesse processo, benefícios ambientais significativos serão perdidos. O recultivo de terras agrícolas abandonadas nesses locais resultou em um número superior a 30% de menos áreas abandonadas e 35% menos carbono sequestrado até 2017.

“Sem incentivos para restauração, o abandono de terras agrícolas raramente dura o suficiente para produzir benefícios para a biodiversidade ou sequestro de carbono”, diz Crawford. “Para que as terras agrícolas abandonadas atinjam níveis de estoques de carbono e biodiversidade comparáveis a ecossistemas naturais mais intactos, elas normalmente precisam de pelo menos 50 anos de regeneração.”

Os exemplos das províncias de Shaanxi e Shanxi, na China, no entanto, fornecem evidências de que os programas de incentivo podem ter sucesso. Os pesquisadores propuseram que campos abandonados, especialmente em áreas de cultivo não necessárias para a produção de alimentos, fossem transformados em áreas protegidas. Os programas de serviços ecossistêmicos poderiam fornecer pagamentos aos proprietários de terras para abandonem suas áreas de cultivo. Medidas também podem ser tomadas para apoiar a produção sustentável a longo prazo para que haja menos rotatividade entre os campos.

O artigo “O abandono de terras rurais é muito efêmero para fornecer grandes benefícios para a biodiversidade e o clima” foi publicado on-line em 25 de maio pela Science Advances. O estudo foi possível graças ao financiamento do HMEI (High Meadows Environmental Institute) da Universidade de Princeton e do Programa de Mudança de Uso e Cobertura da Terra da Nasa. Tanto Crawford quanto Wilcove são afiliados ao Center for Policy Research on Energy and the Environment na Princeton School of Public and International Affairs.

Brittany Murray, da Princeton School of Public and International Affairs, contribuiu com esse artigo.

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