Como corpos d'água no interior e na costa influenciam o clima, segundo esse estudo

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Em uma análise detalhada, equipe de pesquisadores da Bélgica, Estados Unidos e França descobriu que o contínuo aquático terra-oceano, LOAC na sigla em inglês (Land-to-ocean aquatic continuum), movimenta uma quantidade substancial de carbono de origem antropogênica

A maioria dos esforços globais para se reduzir as emissões de carbono pressupõe um fluxo linear de água da terra para o mar. Tal visão, porém, ignora a complexa interação que ocorre entre córregos, rios, lagos, águas subterrâneas, estuários, manguezais e outras dinâmicas afins. Um estudo co-liderado pela cientista do clima Laure Resplandy, professora assistente de geociências e do HMEI (High Meadows Environmental Institute) da Universidade de Princeton, detalha como o carbono é armazenado e transportado através dessas complexas vias navegáveis no interior e na costa. Publicado na edição atual da revista Nature, o trabalho tem implicações significativas para a aplicação dos cálculos de carbono que fazem parte dos acordos climáticos internacionais.

Os ecossistemas terrestres e marinhos têm uma poderosa influência sobre o clima, regulando o nível de dióxido de carbono atmosférico (CO2). Esses ecossistemas, no entanto, são muitas vezes vistos como desconectados uns dos outros, o que ignora a transferência de carbono da terra para o mar aberto através de uma complexa rede de corpos d'água, formada por córregos, rios, estuários e outros corpos que transportam água da terra para o oceano.

Em uma análise detalhada, a equipe de pesquisadores da Bélgica, Estados Unidos e França descobriu que esse contínuo aquático terra-oceano, LOAC na sigla em inglês (Land-to-ocean aquatic continuum), carrega uma quantidade substancial de carbono de origem antropogênica (proveniente de combustível fóssil, por exemplo). Assim, o carbono retirado da atmosfera pelos ecossistemas terrestres não é todo armazenado localmente, como comumente se supõe. Isso tem implicações para os acordos globais que exigem que os países relatem seus inventários de carbono.

Os ecossistemas terrestres e marinhos têm uma poderosa influência sobre o clima, regulando o nível de dióxido de carbono atmosférico (CO2). Esses ecossistemas, no entanto, são muitas vezes vistos como desconectados uns dos outros, o que ignora a transferência de carbono da terra para o mar aberto

Os pesquisadores também descobriram que a transferência natural de carbono da terra para o oceano era maior do que se pensava anteriormente, com implicações de longo alcance para a avaliação da absorção antropogênica de CO2 pelo oceano e pela terra. “A complexidade do LOAC, que inclui rios, águas subterrâneas, lagos, reservatórios, estuários, pântanos, manguezais, ervas marinhas e águas acima das plataformas continentais, tornou difícil avaliar sua influência no ciclo global do carbono”, diz Pierre Regnier, professor da Universidade de Bruxelas, que co-liderou o estudo com Laure Resplandy.

Por causa dessa complexidade, importantes esforços globais para a redução de emissões de carbono, como os do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e o Projeto Global de Carbono, normalmente pressupõem uma transferência direta de carbono da foz dos rios para o oceano aberto. Outra suposição comum é que todo o carbono transportado é natural, desprezando-se os impactos das perturbações antrópicas nesse contínuo aquático, como o represamento e a dizimação da vegetação costeira.

Na pesquisa, os pesquisadores sintetizaram mais de 100 estudos individuais dos vários componentes do continuum. A partir disso, os orçamentos de carbono do LOAC foram desenvolvidos para dois períodos de tempo: o período pré-industrial e os dias atuais. Seus resultados confirmam o conhecido “ciclo” pré-industrial, no qual o carbono é retirado da atmosfera pelos ecossistemas terrestres, transferido pelos rios para o oceano, e depois liberado de volta para a atmosfera.

“Descobrimos que a quantidade de carbono transportada por esse ciclo natural terra-oceano, 0,65 bilhão de toneladas por ano, é aproximadamente 50% maior do que se pensava anteriormente”, diz Resplandy.

Além disso, esse ciclo é composto por outros dois ciclos menores, um que transfere carbono dos ecossistemas terrestres para águas interiores, e outro da vegetação costeira (os chamados “ecossistemas de carbono azul”) para o oceano aberto.

De acordo com a pesquisadora da Universidade de Princeton, “um maior transporte de carbono terra-oceano pré-industrial implica que a absorção oceânica de CO2 antropogênico anteriormente inferida a partir de observações foi subestimada". O professor Regnier complementa: “O problema decorrente disso é que a absorção de CO2 antropogênico pela terra foi superestimada.”

O estudo demonstra ainda que o carbono antropogênico transportado pelos rios é liberado de volta para a atmosfera ou eventualmente armazenado em sedimentos aquáticos e no oceano aberto.

Philippe Ciais, diretor de pesquisa do Laboratoire des Sciences du Climat et de l'Environnement, na França, e coautor do estudo, diz que “essa nova visão trazida pelo estudo pode ter um lado positivo, porque os sedimentos e o oceano oferecem repositórios indiscutivelmente mais estáveis do que a biomassa terrestre e o carbono do solo, que são vulneráveis a secas, incêndios e mudanças no uso da terra”.

Os pesquisadores também mostraram que os seres humanos diminuíram a absorção de CO2 atmosférico dos ecossistemas de carbono azul em até 50%. “Se não for protegida do aumento do nível do mar, poluição e desenvolvimento costeiro, a absorção de carbono azul do CO2 atmosférico diminuirá ainda mais e contribuirá para o aquecimento climático adicional”, diz Raymond Najjar, professor da Universidade Estadual da Pensilvânia, coautor do estudo.

O artigo "The land-to-ocean loops of the global carbon cycle", de Pierre Regnier, Laure Resplandy, Raymond G. Najjar e Philippe Ciais, foi publicado na edição de 17 de março da revista Nature (DOI: 10.1038/s41586-021-04339- 9).

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