Concreto líquido contra uma vida líquida? O real e o ideal na Marquise do Ibirapuera

Vanessa Grossman
Fechada ao público por falta de manutenção e reparo desde 2019, a grande laje é espécie de ágora paulistana

É possível dizer que, dentre as grandes obras da arquitetura moderna, poucos espaços públicos são mais intensa e espontaneamente apropriados pelas massas do que a Marquise do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Essa promenade coberta que agracia o parque urbano é o elo de um complexo projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e por sua equipe (arquitetos Zenon Lotufo, Hélio Uchôa e Eduardo Kneese de Mello, com a colaboração dos arquitetos Gauss Estelita e Carlos Lemos), e paisagismo de Otávio Augusto Teixeira Mendes.

Essa grande laje de concreto de 600 metros de comprimento foi inicialmente concebida para conectar um conjunto arquitetônico maior, inaugurado no Quarto Centenário de São Paulo, em 1954. O projeto original consistia em três grandes pavilhões de exposições temáticas. Seu principal acesso seria por uma monumental praça de entrada, ladeada por um museu de arte e um auditório. Embora a laje tenha sido concebida como um percurso coberto, ela tem dimensões suficientemente generosas para permitir, por si, a realização de atividades coletivas, com vãos horizontais que variam de seis metros, nas extremidades, a 75 metros nas partes centrais.

A “Marquise”, como é conhecida, faz parte de um dos maiores parques urbanos da América do Sul, localizado em um dos bairros mais ricos e centrais da maior metrópole desta parte do continente, mas de difícil acesso para a população menos privilegiada, que mora bem longe dali. Na verdade, a sexagenária Marquise não é a única atração no parque para as massas das chamadas “periferias”, que cruzam a cidade de ponta a ponta em busca de lazer, cultura, esporte e bem-estar. O Parque Ibirapuera é um dos poucos espaços verdes coletivos de São Paulo. No entanto, a Marquise é a verdadeira ágora do parque e, potencialmente, da cidade como um todo. Sob a laje, reúnem-se os mais diversos representantes de uma das mais ricas culturas urbanas nacionais: pessoas de diferentes classes, gêneros, etnias, credos e faixas etárias, entre as quais uma forte presença jovem.

Porém, não é apenas do ponto de vista quantitativo – no que diz respeito ao número de usuários – que a Marquise se destaca, mas, sobretudo, do ponto de vista qualitativo. A Marquise cria uma espécie de atmosfera praiana carioca, intimista, mas ao mesmo tempo coletiva, mas potencializada pela singularidade da urbanidade paulistana. Isso acontece principalmente nos finais de semana, quando esse espaço sob a Marquise se torna palco e auditório para as mais variadas manifestações que emanam dos paulistanos, à vontade: não portando sunga e biquíni, como em uma praia de verdade, mas trazendo os mais diversos aparatos comerciais, culturais e esportivos urbanos. A Marquise é o lar de vendedores ambulantes; patinadores; skatistas e ciclistas, tanto iniciantes quanto profissionais; idosos; jogos infantis; shows não programados de hip hop, funk, capoeira, zouk e outras danças e apresentações artísticas; congregações de jovens adolescentes do “metal”, gente da cena queer e outros movimentos urbanos, bem como não humanos, incluindo animais de estimação e um incontável número de pombos. Lá, a cultura popular urbana encontra aquela que é supostamente considerada erudita ou oficial, quando seus frequentadores mais comuns esbarram em um público especializado que ali comparece para as inúmeras exposições realizadas nos pavilhões ligados pela Marquise. Todos os fins de semana e feriados, a Marquise se transforma em uma grande sala de estar.

Esta sua capacidade de abrigar um lazer altamente inclusivo e diverso compensa, no conjunto da obra de Niemeyer, o alegado fracasso de alguns dos espaços públicos concebidos pelo arquiteto, que foram muitas vezes alvo de críticas. Dos edifícios que projetou para compor as esplanadas de Brasília, idealizadas por Lucio Costa, ao Memorial da América Latina, em São Paulo, muitos desses espaços foram duramente julgados pela crítica em função do escasso número de frequentadores, tendo assim seus usos, ou mesmo funções cívicas, supostamente comprometidos. Fruto do destino histórico, a “estrutura” dos espaços públicos de Brasília ainda hoje é interpretada como tendo sido projetada pelo arquiteto com o objetivo de “facilitar” a ação dos militares e, assim, frustrar a assembleia de massas.

A lógica por trás dessa apoderação irrestrita e justaposta da Marquise – como se o espaço sob sua sombra pertencesse legitimamente a cada indivíduo que ali se encontra – pode ser atribuída à combinação de duas instâncias que parecem estar em uma relação simbiótica: o parque e a laje de concreto. A primeira, um programa; a segunda, um elemento arquitetônico a ser programado. Um é raro, enquanto o outro é comum em São Paulo. Enquanto os bairros chamados “Jardins”, urbanizados em São Paulo pela empresa inglesa Companhia City fundada em 1911, são privilégio de poucos, as margens de seus rios, com sua fauna e flora que outrora se prestaram ao lazer e esportes, foram transformados há quase um século em rodovias. Em São Paulo, devido à falta de espaços ao ar livre para o lazer e à prática de esportes – como praias, florestas, parques e outras áreas verdes naturais ou edificadas – esse papel é muitas vezes desempenhado por lajes de concreto. Se os shoppings são o principal destino coberto, fechado e “seguro” para muitos paulistanos, a laje de concreto armado é talvez o dispositivo de lazer mais marcante, pontuando o horizonte das infinitas periferias da cidade. A laje plana, incorporando um dos Cinco pontos da arquitetura moderna de Le Corbusier – o “toit-terrasse ou “toit-jardin” (terraço-jardim) –, é a forma mais barata de cobertura para a habitação nas periferias. Programadas à vontade, essas lajes costumam abrigar varais de secar roupa, piscinas infláveis e churrasqueiras improvisadas. Nelas, festas costumam ser organizadas e, principalmente em São Paulo, valorizando seus poucos metros quadrados, grupos de crianças, jovens ou mesmo adultos se reúnem para empinar pipas, em verdadeiras batalhas de laje contra laje.

Espalhando-se pelo parque como concreto líquido, essa extensa laje sinuosa cumpriria, no projeto de Niemeyer para o Parque Ibirapuera, o “papel ordenador” que na Pampulha é personificado pelo lago, tornando a Marquise uma espécie de “espelho d'água de concreto”. No Parque Ibirapuera, porém, ela assumiu o protagonismo no projeto de Niemeyer. Apesar da expressividade formal atribuída a cada um dos pavilhões do Ibirapuera, a Marquise viria a tornar-se mais do que mera infraestrutura: tornou-se uma superestrutura. Com a praça e o auditório retirados do projeto original em fase de construção pelo poder público, durante anos a “entrada” da Marquise ficou incompleta, o que levou Niemeyer a considerar que a “Marquise parece algo inacabado (e, na verdade, é), ou mal começado: sai de algum ponto aleatório, perdido”. Esse efeito inacabado também foi enfatizado pelos estandes que foram erguidos sob a marquise, o que comprometeu a “amplitude panorâmica” e a “leveza” desejadas pelo arquiteto. Pela mesma lógica, o que começou em 1959 como um pavilhão de exposições temporárias projetado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi acabaria se tornando, desde 1968, a sede permanente do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo). Quando Lina Bo Bardi redesenhou o MAM na década de 1980, a amplitude seguia comprometida, “ao invés de liberar a Marquise para reconstituir o projeto original de Niemeyer”. Apesar do mea culpa da arquiteta, o vão da laje nunca seria totalmente livre.

Talvez tenha sido a persistência deste efeito “inacabado”, produzindo uma tensão constante entre um “papel ordenador” ideal e uma função real desordenada, o que condenou o modernismo prístino da Marquise como um espaço de informalidade, onde tudo parece ser possível para os seus frequentadores. Houve até um último gesto polêmico de Niemeyer para reordenar o projeto arquitetônico do Ibirapuera. Quando ele foi contratado para retomar o projeto do auditório, Niemeyer propôs que uma parte da Marquise fosse demolida (incluindo as colunas em forma de V) para criar a praça anteriormente suprimida no entorno da nova construção, concluída em 2002. Apesar da intenção do arquiteto, a demolição foi interrompida graças à intervenção dos órgãos de proteção do patrimônio cultural da cidade.

Em 2015, um ano antes de o projeto arquitetônico do Parque Ibirapuera ser oficializado como patrimônio nacional, o desenho da praça foi assumido pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, o último brasileiro a vencer em 2006 o Pritzker, considerado o prêmio Nobel da Arquitetura (antes dele apenas o próprio Niemeyer havia sido laureado com a honraria em 1988), que faleceu em maio de 2021. Juntamente com o escritório paulista MMBB, Paulo Mendes da Rocha pretendia implementar a praça no local atualmente ocupado pelo estacionamento, que se tornaria assim a principal porta de entrada do parque, privilegiando a caminhada ou o transporte público. A intenção era acima de tudo garantir a acessibilidade para visitantes e frequentadores. Porém, nem mesmo o fato de a presença da praça seguir pendente parece ter comprometido a acessibilidade da Marquise, que agora é tangível até mesmo via internet. Ela havia se tornado o principal destino dos rolezinhos, encontros da juventude pobre e negra das periferias da Grande São Paulo que, organizados nas redes sociais, foram proibidos nos shoppings através de medidas discriminatórias, novas formas instituídas de segregação social e racial. Sob a Marquise, emoldurados pelo branco da laje tortuosa, com o fundo verde do parque, os organizadores dos eventos – os chamados “influenciadores” – materializam momentos de fama reunindo milhares de seguidores que ali se aglomeravam, apesar das dificuldades materiais. Alguns desses encontros chegaram a culminar em tumulto e violência alardeados pela mídia, mas outros em uma mera busca por fotos e estrelato no Instagram, práticas de solidariedade e manifestações de afeto.

Partindo do conceito de “modernidade líquida”, elaborado em 2000 pelo filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é possível argumentar que a Marquise se tornou uma ágora para aqueles que buscam abrigo da vigilância e exclusão, duas características que estão ligadas à condição presente que Bauman teoriza como “vida líquida”. Distinta da modernidade sólida de outrora, que foi construída, administrada e gerenciada, a modernidade liquefeita é, segundo Bauman, uma espécie de modernidade difusa, que tudo permeia, tudo satura, uma nova condição caracterizada pelo fluxo de informações transmitidas eletronicamente (software), em vez de estarem impregnadas em mercadorias pesadas (hardware). Através desse conceito Bauman aborda a fluidez que resulta da vida social contemporânea: desregulamentação, flexibilização, desengajamento dos “agentes livres” e a desvinculação das escolhas individuais de projetos e ações coletivas. Para ele, essa é uma “liberdade” que está ligada a uma nova “estratégia de poder pós-panótica”. Em suas próprias palavras:

“A nossa é, como resultado, uma versão individualizada e privatizada da modernidade, e o peso da trama dos padrões e a responsabilidade pelo fracasso caem principalmente sobre os ombros dos indivíduos. Chegou a vez da liquefação dos padrões de dependência e interação. Eles são agora maleáveis a um ponto que as gerações passadas não experimentaram e nem poderiam imaginar; mas, como todos os fluidos, eles não mantêm a forma por muito tempo. Dar-lhes forma é mais fácil que mantê-los nela.” 1

A obra de Bauman convoca uma reformulação do espaço público/privado (a ágora) como uma tentativa de revitalizar as formas sociais e políticas coletivas. Enquanto a maioria dos espaços públicos da cidade ainda estão sendo esvaziados –o que aqueles que o fazem justificam através do medo da violência urbana – a Marquise passou a servir como antípoda, na medida do possível, da proliferação de arquiteturas de segurança e intimidação que arraigam a “vida líquida” em São Paulo. Entretanto, nem sempre a batalha do concreto líquido contra a vida líquida consegue chegar muito longe. Após sucessivos episódios de bloqueio parcial devido a “infiltrações, trincas e fissuras, rompimento das cabeças de diversos pilares por cisalhamento (que comprometem a estabilidade da estrutura em diversos pontos isolados)”, a Marquise, um dos espaços públicos mais vibrantes e inclusivos da cidade, está, como se poderia esperar, totalmente interditada e fechada ao público, sem previsão de reabertura, não temporariamente ou em razão da pandemia, mas desde 2019 devido à falta de cuidado e reparo.

Um “rolezinho oficial” organizado pela prefeitura já havia chegado a ser cancelado em 2014 devido à queda de parte da Marquise. Até hoje a Marquise segue embargada, como resultado de um embate liquefeito entre o município e a concessionária responsável pela sua gestão. Para o arquiteto, urbanista e historiador Renato Anelli, “a Marquise pode entrar em colapso antes mesmo que a divergência entre as duas seja resolvida”. De fato, infelizmente é preciso lembrar que, apesar de maleável atingindo solidez, como todos os fluidos, tal qual diria Bauman, o concreto não mantém sua forma por muito tempo...

As imagens que acompanham esse texto foram capturadas por Ciro Miguel, e encomendadas pelo Museu de Arquitetura da Universidade Técnica de Munique (Architekturmuseum der TU München) para a exposição “Access for All: São Paulo's Architectural Infrastructures” (2019).

Vanessa Grossman é arquiteta e historiadora, e assistant professor na faculdade de arquitetura e do ambiente construído da Universidade de Tecnologia de Delft, na Holanda. Ela foi co-curadora, dentre outras exposições, da 12ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (2019) intitulada “Todo dia”, e é co-curadora da grande exposição retrospectiva que será dedicada à obra de Paulo Mendes da Rocha em 2023 na Casa da Arquitectura, em Matosinhos, Portugal, instituição para a qual o arquiteto doou em vida seus arquivos. Dentre seus mais recentes livros estão “Oscar Niemeyer en France. Un exil créatif” (Éditions du patrimoine, 2021) do qual é co-autora, e “Everyday Matters: Contemporary Approaches to Architecture” (Ruby Press, 2021) do qual é co-organizadora. Seu próximo livro com a Yale University Press, intitulado “A Concrete Alliance: Communism and Modern Architecture in Postwar France”, examinando obras como a sede do Partido comunista francês projetada por Niemeyer em Paris, baseia-se na sua tese de doutorado na Universidade de Princeton. A pesquisa de doutorado, e em seguida o futuro livro, receberam dois subsídios da Graham Foundation for Advanced Studies in the Fine Arts: os prestigiosos Carter Manny Award e o Grant to Individuals.

Ciro Miguel é arquiteto, fotógrafo, e doutorando do Instituto de História e Teoria da Arquitetura na ETH Zurique, Suíça. Sua obra foi exposta nas bienais de Veneza e São Paulo, e em museus como Architekturmuseum der TUM, S AM Basel, Center for Architecture Nova York, MAM e Het Nieuwe Instituut. Ele foi co-curador da 12ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (2019) e co-organizador do livro “Everyday Matters: Contemporary Approaches to Architecture” (Ruby Press, 2021).

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