Polarização política: novos achados e perspectivas

Assim como um ecossistema superexplorado, o cada vez mais polarizado cenário político nos Estados Unidos – e em grande parte do mundo – passa por uma perda catastrófica de diversidade, o que ameaça não apenas a democracia, mas a sociedade como um todo. Isso é o que mostra uma série de novos estudos que examinam a polarização política como uma coleção de sistemas complexos em constante evolução

Quinze equipes interdisciplinares, formadas por cientistas políticos e teóricos de sistemas complexos nas ciências naturais e engenharia, investigaram como a polarização é produzida e influenciada ao longo do tempo pelas ações e interações de eleitores individuais, pessoas no poder e várias redes sociais.

Os estudos mostraram que à medida que as interações sociais e as decisões individuais isolam as pessoas em apenas alguns campos intratáveis, o sistema político se torna incapaz de abordar a gama de questões – ou formular a variedade de soluções – necessárias para que o governo funcione e forneça os serviços essenciais para a sociedade.

Resultado de uma colaboração entre a Universidade de Princeton e a Universidade Estadual do Arizona, os resultados das pesquisas foram publicados no início de dezembro em edição especial da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Os sistemas complexos mostram que, associada à polarização, a perda de diversidade mina a cooperação e a capacidade das pessoas de fornecerem bens públicos que contribuam para uma sociedade saudável”, apontam os editores Simon Levin, professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva, e Helen Milner, professora de política e relações internacionais, da Universidade de Princeton, e Charles Perrings, professor de economia ambiental na Universidade Estadual do Arizona.

Segundo eles, “a polarização é um processo dinâmico que a teoria da complexidade pode nos ajudar a entender melhor. Como os cientistas ambientais e de complexidade já demostraram em outros contextos, a manutenção da diversidade é fundamental para que muitos sistemas prosperem e, muitas vezes, sobrevivam.”

“A atual polarização, tanto dentro quanto entre as nações, prejudica os esforços para lidar com questões críticas como as relacionadas com o meio ambiente, ou mesmo com o surgimento de vírus pandêmicos como a covid-19”, aponta Levin, o diretor do Centro para BioComplexidade, do High Meadows Environmental Institute de Princeton.

Sistemas adaptativos complexos – que são amplamente difundidos em campos que vão da física a sistemas financeiros até aos sistemas naturais guiados pela evolução e sistemas socioeconômicos e políticos – permitem que os cientistas entendam as interações multiescala que resultam em estruturas e resultados específicos. Nesse ponto, os esforços para mitigar os resultados negativos podem ser implementados de forma mais eficaz.

“Esses sistemas são compostos por agentes individuais, nos quais há uma interação, e talvez uma coevolução, entre as atitudes e ações dos agentes individuais e as propriedades emergentes dos sistemas aos quais pertencem”, diz Levin. Desafios semelhantes existem nessas aplicações, envolvendo a necessidade de uma mecânica estatística para escalonar de indivíduos a coletivos, até o surgimento de padrões e processos, como normas sociais.

Para Helen Milner, apesar do aumento do partidarismo, do populismo e da polarização, tais fenômenos não foram ainda completamente estudados como sistemas dinâmicos que consistem em vários componentes de interação e recursos em grande escala.

“James Madison (ex-presidente americano) esperava que o sistema concebido na Constituição evitasse os tipos de polarização que os partidos políticos podem produzir e que podem prejudicar o funcionamento do governo”, diz Milner.

“Infelizmente, hoje estamos vendo a polarização e uma subsequente perda de diversidade na gama de posições na sociedade nos Estados Unidos e globalmente”, complementa ela. “A partir de uma perspectiva de sistemas, os artigos nesta edição demonstram as forças que levam à polarização – e algumas das consequências dela – com a esperança de que compreendê-las poderá nos levar a uma melhor governança.”

Resumidos abaixo, os estudos dos pesquisadores de Princeton exploraram questões que vão desde a maneira como as pessoas se isolam involuntariamente em redes partidárias por meio da mídia social, como assegurar reformas eleitorais bem sucedidas a partir de modelagem, até como a opinião pública alimenta o extremismo entre as elites políticas, bem como os benefícios potenciais da polarização sob as circunstâncias certas.

As pessoas se polarizam involuntariamente nas redes sociais ao abandonarem seguidores considerados não confiáveis

Um modelo computacional testado com dados do Twitter mostrou que usuários de redes sociais podem inadvertidamente se isolar em redes polarizadas ao deixarem de “seguir” usuários que consideram fontes de notícias não confiáveis. Os pesquisadores de Princeton Andy Guess, professor assistente de política e relações públicas, Corina Tarnita, professora de ecologia e biologia evolutiva, e o primeiro autor, Christopher Tokita, que recebeu seu doutorado em Princeton em 2021, descobriram que, quando as pessoas são menos reativas às notícias, seu ambiente online permanece politicamente misto.

Quando os usuários reagem constantemente e compartilham artigos de suas fontes de notícias preferidas, no entanto, eles estão mais propensos a desenvolver redes politicamente isoladas, ou o que os pesquisadores chamaram de “bolhas epistêmicas”. Uma vez que os usuários estão nessas bolhas, eles perdem mais artigos de notícias, incluindo aqueles de seus meios de comunicação preferidos.

“Não é difícil encontrar evidências de discursos polarizados nas mídias sociais, mas sabemos menos sobre os mecanismos de como a mídia social pode separar as pessoas”, diz Guess. “Nossa contribuição é mostrar que a polarização das redes sociais surge naturalmente à medida que as pessoas fazem a curadoria de seus feeds. Contraintuitivamente, isso pode ocorrer mesmo sem conhecer as identidades partidárias de outros usuários.”

Mudanças conservadoras na opinião pública aumentam o extremismo do legislador

Embora esteja bem documentado que os americanos não são tão polarizados quanto os políticos que elegem, ainda assim é possível responsabilizá-los pelo extremismo de seus governantes, como mostra um estudo conduzido por Naomi Ehrich Leonard, professora titular do Departamento de Engenharia Mecânica e Aeroespacial de Princeton, Keena Lipsitz, professora associada de ciência política no Queens College da City Universidade de Nova York, e a doutoranda em Princeton Anastasia Bizyaeva.

As pesquisadoras descobriram que, ao longo do tempo, as oscilações conservadoras na opinião pública – que normalmente são um pouco maiores e mais prolongadas que as ondas progressistas – exacerbam os processos de autoreforço para legisladores republicanos. Com isso, os legisladores do Partido Republicano (que tendem a ser mais conservadores) respondem à opinião pública reforçando ainda mais suas próprias posições. Elas também identificaram um ponto de inflexão para além do qual o processo de polarização acelera à medida em que as forças que o constituem são agravadas e as forças que o atenuam ficam sobrecarregadas. Elas relatam que os republicanos podem ter ultrapassado esse limite crítico, enquanto os democratas estão se aproximando dele rapidamente.

“Ao combinar nossa experiência em processos políticos com nossa experiência em feedback e não-linearidade em processos complexos com variação no tempo, fomos capazes de fazer novas descobertas sobre os mecanismos que podem explicar e até mesmo potencialmente mitigar a polarização política”, diz Ehrich Leonard.

Segundo a pesquisadora, “até agora, as formas como a opinião pública muda ao longo do tempo não haviam sido relacionadas com a polarização política dos legisladores. Ainda assim, levando em consideração a não-linearidade na forma como os legisladores respondem à opinião pública, mostramos que essas diferenças são importantes e que pequenas diferenças nas oscilações da opinião pública podem de fato levar a grandes mudanças na polarização. Tenho esperança que as ferramentas analíticas que desenvolvemos para esse estudo ajudem a encontrar maneiras de desacelerar a tendência.”

Tributação progressiva pode reduzir as dificuldades econômicas enquanto as tensões sociais alimentam a polarização

Conflitos entre grupos, quando desencadeados por dificuldades econômicas, podem reduzir as interações sociais e econômicas; esta redução, por sua vez, exacerba ainda mais o declínio econômico e a polarização política. Isso é o que mostra o artigo de Nolan McCarty, professor titular de política e relações públicas em Princeton, Joshua Plotkin, que recebeu seu Ph.D. em Princeton e hoje é professor de ciências naturais na Universidade da Pensilvânia, e Alexander J. Stewart, professor de biologia matemática na Universidade de St. Andrews, na Escócia. Os resultados sugerem que a tributação progressiva destinada a garantir uma rede de segurança social adequada poderia ajudar a prevenir as ansiedades econômicas que alimentam os conflitos étnicos e raciais.

“Durante os últimos 20 anos, os Estados Unidos e muitos outros países passaram por profundas agitações econômicas, sociais e políticas – incluindo crises econômicas, aumento da desigualdade, exacerbação de conflitos raciais e étnicos e aprofundamento da polarização política”, diz McCarty. “Nosso artigo é uma tentativa de compreender a dinâmica complexa que liga esses desenvolvimentos e explorar maneiras de quebrar o ciclo negativo.”

Diversidade nas redes sociais pode intensificar ou moderar atitudes pessoais

Ao longo do tempo, as redes sociais às quais as pessoas pertencem podem “reconectar” suas atitudes pessoais para refletir opiniões das pessoas às quais estão vinculadas. É o que mostra o estudo conduzido por Fernando Santos, ex-pesquisador de pós-doutorado em Princeton e atualmente professor assistente na Universidade de Amsterdã, Simon Levin, professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva de Princeton, e Yphtach Lelkes, professor associado de comunicação na Universidade da Pensilvânia.

Os pesquisadores descobriram que quando as pessoas se conectam preferencialmente a pessoas com opiniões semelhantes às delas, criam uma câmara de eco que polariza cada vez mais as opiniões de todos na rede. Por outro lado, as pessoas que fazem parte de uma rede que consiste em uma variedade de pontos de vista tendem a moderar umas às outras. Entender que as redes sociais influenciam a polarização – em vez de apenas refleti-la – pode ser crucial no desenvolvimento de intervenções para conter a polarização online e a disseminação do extremismo político, relatam os pesquisadores.

“Este é um fenômeno relativamente novo e, assim como outros mecanismos de internet e de mídia, provavelmente acelerou e reforçou a segmentação de nossas sociedades”, diz Levin.

A polarização pode beneficiar a sociedade quando os lados opostos consistem em grupos com populações diversificadas

A polarização pode realmente beneficiar a sociedade quando pontos de vista opostos representam, cada um, uma variedade de pessoas e comunidades com valores compartilhados, aponta a pesquisa liderada por Vitor Vasconcelos, que foi pesquisador associado de pós-doutorado em Princeton e hoje é professor assistente da Universidade de Amsterdã, Elke Weber, professor titular no Centro Andlinger para Energia e Meio Ambiente e professor de psicologia na Escola de Relações Públicas e Internacionais, Sara Constantino, pesquisadora associada em Princeton, Simon Levin, professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva, e o professor Astrid Dannenberg e o pesquisador Marcel Lumkowsky, ambos da Universidade de Kassel, na Alemanha.

A polarização torna-se prejudicial quando segrega redes sociais e exclui informações sobre as preferências de outras pessoas que não vizinhos próximos. A cooperação torna-se menos provável quando essas redes distorcem ou minam o valor de trabalhar com os oponentes, o que pode resultar em uma série de efeitos, incluindo o enfraquecimento dos processos democráticos.

“As sociedades pluralistas prosperam quando membros com diferentes valores e crenças conseguem discutir essas diferenças e alavancá-las para gerar soluções em que todos ganham”, diz Weber. “Nosso artigo mostra que os benefícios coletivos são reduzidos pela polarização das redes sociais que restringem a comunicação e a negociação entre linhas partidárias, não pelo fato de discordarmos de valores.”

Contrários: como fortes atitudes locais podem gerar oposição

Variações locais nas atitudes políticas podem levar à polarização, especialmente após agitação política, segundo mostra a pesquisa liderada por Olivia Chu, doutoranda em biologia quantitativa e computacional em Princeton, com os coautores Grigore Pop-Eleches, professor de política e assuntos internacionais, e Jonathan Donges, do Instituto Postdam para Pesquisas de Impacto Climático, na Alemanha, e pesquisador visitante colaborador no Instituto Ambiental High Meadows, em Princeton. Eles implantaram um modelo de eleitor adaptável – metodologia usada para se estudar a dinâmica de opinião entre grupos sociais – em toda a Ucrânia para determinar como as percepções sobre a União Europeia diferiam com base em como as pessoas em suas comunidades e círculos sociais discutiam revoluções, protestos em massa e outros choques políticos.

“Nossa pesquisa mostra que, em vez de envolver a todos, o efeito de recentes protestos em massa sobre como as pessoas pensam a respeito da política depende em parte das atitudes das pessoas com quem falam sobre política”, diz Pop-Eleches. “Aqueles que falam principalmente com os apoiadores da revolução tendem a mudar suas opiniões na direção oposta daqueles que falam com os oponentes. Isso pode levar a bolsões de polarização crescente, mesmo em países onde a maioria das pessoas apoia os objetivos dos protestos.”

Partidarismo extremo pode enfraquecer a democracia

Um estudo liderado pela professora de ecologia e biologia evolutiva Corina Tarnita em parceria com a estudante de doutorado Mari Kawakatsu, do Programa de Matemática Aplicada e Computacional de Princeton, examinou como as interações partidárias podem enfraquecer processos que os criadores da Constituição dos Estados Unidos viam como salvaguardas contra facções e polarização. Kawakatsu e Tarnita são coautoras do estudo com Simon Levin, professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva de Princeton, e Yphtach Lelkes, professor associado de comunicação da Universidade da Pensilvânia.

Elas se inspiraram no ensaio Federalista n. 10, escrito pelo ex-presidente americano James Madison, no qual ele argumenta que uma república mitiga os perigos das facções ao promover uma diversidade de interesses políticos. Mas se os americanos hoje se preocupam com um número maior de questões políticas do que há 230 anos, a polarização é ainda pior atualmente. Os autores desenvolveram um modelo teórico de evolução cultural para investigar o possível papel que as interações entre cidadãos ligados a um partido político desempenham nesse quebra-cabeça.

O estudo confirmou que a intuição de Madison estava correta: a coesão social aumenta quando os indivíduos se preocupam com uma diversidade maior de questões. Mas há uma reviravolta – sob o partidarismo extremo, os indivíduos estão menos abertos a aprender com seus pares que possuem uma ideologia política diferente. Isso leva a uma maior segmentação, que diminui drasticamente a diversidade de interesses, levando a uma alta camaradagem dentro da própria ideologia e a uma polarização intensificada.

Mas os pesquisadores também encontraram um lado positivo: os efeitos prejudiciais do partidarismo extremo só são consideráveis quando os indivíduos ficam limitados em suas explorações independentes, contando principalmente com seus pares sociais para moldar opiniões e estratégias. “Nosso modelo sugere que buscar aprender ativamente, para além da rede social, é crucial para manter uma sociedade coesa”, diz Tarnita.

“Embora a formação de opinião e a cooperação sejam tópicos bem explorados, nós ainda entendemos relativamente pouco sobre a dinâmica conjunta de cooperação e polarização”, diz Kawakatsu. “As interações inesperadas que encontramos entre o partidarismo, a cooperação e a exploração independente destacam a necessidade de estudar a polarização em um contexto complexo de vários níveis.”

A teoria dos sistemas complexos pode levar a um entendimento mais profundo de reformas democráticas

As implicações das reformas democráticas, como votação por ranqueamento e alterações distritais dos eleitores, podem ser melhor compreendidas a partir do uso da teoria de sistemas dinâmicos baseada em engenharia e biologia, segundo aponta pesquisa conduzida por Sam Wang, professor do Instituto de Neurociência e diretor do Laboratório de Inovação Eleitoral de Princeton, com os cientistas políticos Keena Lipsitz, da City University de Nova York, Jonathan Cervas, da Universidade Carnegie Mellon, e Bernard Grofman, da Universidade da Califórnia em Irvine.

Wang e a equipe multi-institucional de cientistas políticos relatam que a teoria baseada em sistemas normalmente usada nas ciências pode ajudar a compreender a miríade de interações que levam às fraquezas atuais da democracia americana, como instituições polarizadas, representantes indiferentes e a capacidade de uma facção de eleitores ganhar poder às custas da maioria. Conceitos como não-linearidades e amplificação, feedback positivo e negativo, e integração ao longo do tempo podem ajudar a identificar problemas de representação e poder institucional.

Da mesma maneira, a eficácia de qualquer reforma proposta é difícil de prever diante de um cenário de interações de rede complexas. Uma descrição matematicamente rica de como os mecanismos eleitorais interagem pode maximizar os impactos das reformas no contexto das políticas e procedimentos de cada estado.

“Nosso objetivo principal foi traduzir o sistema político americano em uma estrutura de sistemas matemáticos complexos que promovesse a participação de estudiosos das ciências naturais”, diz Wang.

“Queremos encorajar os pesquisadores das ciências naturais a construir modelos que reproduzam fenômenos políticos, criar simulações para explorar cenários alternativos e projetar intervenções que possam melhorar a função da democracia”, diz ele. “São metas análogas às dos engenheiros: entender bem o suficiente um sistema de muitas peças para fazer reparos ou melhorias.”

A edição especial “The Dynamics of Political Polarization” foi publicada em 6 de dezembro pela Proceedings of the National Academy of Sciences.

B. Rose Huber, da Escola de Relações Públicas e Internationais, Molly Seltzer, do Centro Andlinger de Energia e Meio Ambiente, e Molly Sharlach, da Engenharia de Comunicações contribuíram para este artigo.

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