COP26: especialistas de Princeton identificam prioridades e apontam ações globais para o futuro

Liz Fuller-Wright

Centenas de líderes e milhares de estudiosos do clima estão reunidos em Glasgow, Escócia, para a COP26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Cientistas da Universidade de Princeton analisam os principais desafios que o evento deve enfrentar

A maioria dos especialistas acredita que a Conferência deste ano das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26) – a maior cúpula do clima desde que o Acordo de Paris foi assinado, em 2015 – tem uma urgência única: é o prazo final para que os países apresentem seus planos para redução das emissões de gases do efeito estufa , o que tornaria possível limitar o aquecimento do planeta a apenas 1,5°C.

Princeton tem estado na vanguarda da pesquisa sobre mudanças climáticas há mais de meio século. Por isso, enquanto o mundo se preparava para a cúpula, alguns dos muitos especialistas ambientais da Universidade – cientistas e acadêmicos que têm dedicado suas carreiras a encontrar soluções para o aquecimento global – dão suas opiniões sobre esse momento histórico.

“Este é um encontro muito, muito importante para a humanidade”, diz Venkatachalam ‘Ram’ Ramaswamy, que desenvolveu alguns dos modelos climáticos mais importantes do mundo e foi um dos muitos estudiosos de Princeton que compartilharam o Prêmio Nobel da Paz concedido a Al Gore e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas em 2007.

“Já são quase 30 anos desde a Rio-92 [a importante reunião da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que ocorreu no Rio de Janeiro em 1992]”, disse Ramaswamy. “E a cada década que passa, a crise climática é mais e mais uma séria preocupação para a sociedade, e mais e mais difícil de lidar.”

O Reino Unido, país anfitrião da COP26 em Glasgow, publicou quatro metas para a conferência de duas semanas. Além de Ramaswamy, conversamos também com o visionário do clima Michael Oppenheimer, com o ganhador do Prêmio Nobel de 2021 Syukuro “Suki” Manabe e outros especialistas de Princeton sobre: o que esperar, por que as metas são importantes agora, e o que eles consideram que será realizado. Nenhum deles voará para Glasgow para participar da cúpula, mas todos estão profundamente interessados em seus resultados.

Meta 1: garantir que as emissões sejam zeradas em meados do século e manter 1,5ºC ao alcance

Especialistas: Emily Carter, Jesse Jenkins, Venkatachalam “Ram” Ramaswamy

“O motivo pelo qual estamos tentando limitar o aquecimento a 1,5° é que ele já atinge um ponto em que as mudanças climáticas e seus impactos relacionados – incêndios, tempestades intensas, secas – causam danos generalizados a vidas e propriedades. Se as temperaturas subirem para 2 graus, a gravidade das perdas devido a eventos extremos será ainda maior”, diz Ramaswamy, diretor do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos da NOAA e membro do corpo docente em geociências e ciências atmosféricas e oceânicas. “Zerar emissões nas próximas décadas é plausível, embora represente um grande desafio.”

“A atual rede de energia levou 150 anos para ser construída. Agora, para chegarmos a zerar as emissões até 2050, temos que construir esse volume de transmissão novamente nos próximos 15 anos e construir muito mais nos 15 anos seguintes. É uma grande mudança”, diz Jesse Jenkins, professor assistente de engenharia mecânica e aeroespacial e do Centro Andlinger para Energia e Meio Ambiente, e cientista líder do projeto Net Zero America.

“Se não começarmos a progredir na primeira meta, tudo vai ficar muito pior”, disse Emily Carter, professora titular em energia e meio ambiente e professora de engenharia mecânica e aeroespacial no Centro Andlinger para Energia e Meio Ambiente. “Temos que ser mais rápidos em eliminar o uso do carvão como energia no mundo todo. Precisamos eletrificar tudo o que pudermos e obter eletricidade de fontes renováveis, ou pelo menos de fontes livres de carbono, como a nuclear. O poder de fissão agora e, eventualmente, o poder de fusão, serão fundamentais.”

Ela continua: “a razão pela qual eu digo ‘eletrificar tudo’ é porque a energia que vem na forma de eletricidade é muito mais eficiente do que a que podemos obter com a queima de combustíveis fósseis. A queima de combustíveis fósseis perde muita energia útil como calor residual, além de produzir dióxido de carbono. Além disso, a extração de petróleo e gás natural também emite metano, que é 20 vezes pior como gás de efeito estufa do que o dióxido de carbono.”

Carter diz que seu crescente senso de urgência vem dos incêndios florestais que assolam a Califórnia, Sibéria e Austrália, inundações na Alemanha, furacões e tufões mais severos, e inúmeros outros desastres relacionados ao clima. “Todo mundo sabia que eles viriam, mas ninguém pensou que viriam tão cedo”, diz ela. “Não é suficiente nos preocuparmos com a transição para eliminar o uso de combustíveis fósseis, temos que fazer algo sobre o fato de que já existe muito dióxido de carbono e metano na atmosfera.”

Ela propõe coletar dióxido de carbono da atmosfera e dos oceanos, convertê-lo em produtos lucrativos, que vão de combustíveis líquidos para aviões e navios de carga a minerais semelhantes ao calcário e fibras de carbono usadas em carros e aviões.

“A probabilidade de aceitação da extração de dióxido de carbono da atmosfera ou de usinas de energia é muito maior se houver um incentivo econômico para elas. E o fato é que existem maneiras de produzir formas de carbono de alto valor.” Ela quer impulsionar este trabalho usando energia renovável em excesso. “A palavra excesso é importante.” Em dias de sol na Califórnia e no sudoeste dos EUA, ou em noites de vento no meio-oeste daquele país, as usinas solares e eólicas produzem mais eletricidade do que a área ao seu redor necessita. “Podemos montar fábricas para aproveitar esse excesso de eletricidade renovável, em vez de desperdiçá-la, que é o que está acontecendo hoje”, diz Carter.

O mundo precisa que essa meta seja adotada, disse Ramaswamy. “A comunhão de interesses no bem-estar de todos os cidadãos do mundo deve guiar os líderes do mundo a formular caminhos realistas, equitativos e definitivos para reduzir as emissões de carbono e as concentrações atmosféricas.”

Meta 2: Adaptar para proteger comunidades e habitats

Especialistas: Emily Carter, Jesse Jenkins, Venkatachalam “Ram” Ramaswamy

“Não há máquina que capture carbono com tanta eficácia – e com tantos benefícios colaterais – quanto uma árvore”, diz David Wilcove, professor de ecologia e biologia evolutiva e do Instituto Ambiental High Meadows. “E um recife de coral intacto e saudável pode fazer um excelente trabalho protegendo as comunidades costeiras das tempestades ao mesmo tempo que sustenta uma pescaria produtiva para essas pessoas. Portanto, não destruir ecossistemas naturais e reparar ou restaurar aqueles que danificamos deve estar no topo da lista de soluções climáticas.”

Ele continua: “Os legisladores precisam ser mais agressivos na proteção e restauração da natureza. É a parte de restauração, em particular, onde as coisas ficam complicadas. Por exemplo, é possível sequestrar carbono em uma monocultura de árvores não nativas, o que fará pouco para sustentar a vida selvagem nativa. Os cientistas conservacionistas podem contribuir para resolver a crise climática destacando as maneiras pelas quais o bem-estar humano depende do bem-estar da natureza e fornecendo conselhos sobre como restaurar os ecossistemas naturais de maneiras que também contribuam para resolver uma crise igualmente urgente, que é o da perda de biodiversidade. Qualquer crise, se não for controlada, vai acabar conosco.”

Os especialistas não têm ilusões sobre o tamanho do desafio que enfrentam. “Este não é um problema fácil de resolver”, diz Elie Bou-Zeid, professor de engenharia civil e ambiental. “Envolve uma gama extremamente grande de agentes e partes interessadas, bem como uma miríade de sistemas naturais e humanos. Herdamos uma infraestrutura rígida que é incapaz de lidar com o novo clima e os extremos que ele irá gerar.

Ele diz ver sinais de progresso. “A última década viu um aumento significativo em grandes projetos interdisciplinares com foco na compreensão e melhoria da resiliência. No nível de governo local, a maioria das cidades e estados estão desenvolvendo planos de resiliência, especialmente para enfrentar as ameaças de furacões, inundações e calor extremo. No nível federal, o progresso tem sido instável. Mas a grande questão é: ‘Este progresso é suficiente?’ Enquanto a cidade de Nova York está na vanguarda do planejamento para extremos climáticos, o furacão Ida ainda causou danos maciços na cidade e em nosso estado.”

“As cidades estão progredindo onde as nações estão travando”, concorda Anu Ramaswami, professora titular de estudos da Índia e professora de engenharia civil e ambiental do PIIRS (Instituto de Estudos Regionais e Internacionais de Princeton) e do Instituto Ambiental High Meadows. Ela também dirige o Centro Chadha para a Índia Global. “Há muita colaboração por meio de redes de cidades que transcendem as fronteiras nacionais.”

Ela destaca o C40 Cities, rede de 97 megacidades que abrigam mais de 700 milhões de pessoas, e o ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade, aliança global de mais de 2.500 governos locais e regionais comprometidos com o desenvolvimento urbano sustentável. Ela observa que algumas cidades são maiores do que muitos países. Tóquio, por exemplo, tem 14 milhões de cidadãos nos limites da cidade e quase 30 milhões na área circundante. “As cidades estão forjando colaboração sem se prender a algumas das coisas em que as nações se prendem”, disse ela.

“De certa forma, as cidades estão mais ansiosas para enfrentar a mudança climática do que os governos federais, porque são elas que são chamadas quando há tempestades catastróficas ou pessoas colapsando por causa do calor”, diz Ramaswami.

Meta 3: Mobilizar financiamento

Especialistas: Nicolas Choquette-Levy, Chris Greig, Michael Oppenheimer

“Um mundo com zero emissões é um mundo com capital mais intensivo do que o que estamos acostumados”, diz Chris Greig, cientista sênior no Centro Andlinger para Energia e Meio Ambiente. “Basicamente, estamos fazendo a transição para um sistema que se caracteriza por um capital inicial mais alto, com combustível e custos operacionais mais baixos. Portanto, para mim, as conversas sobre o desafio do financiamento estão negligenciando uma questão crítica.

“Há uma tendência de crescimento para os chamados investimentos ESG – investir em empresas que estão fazendo escolhas responsáveis em relação ao meio ambiente, questões sociais e governança corporativa –, o que descreve o processo de gestores de fundos e credores fazendo a transição de suas carteiras de investimento para diminuir sua pegada de carbono”, diz Greig. “Isso é ótimo a princípio, mas a maioria desses fundos está procurando adquirir pequenas posições em diversos portfólios de empresas cujos ativos operacionais já têm uma intensidade de carbono menor. Isso não está fornecendo as dezenas de trilhões de dólares de fundos de risco para desenvolver e construir esses ativos.”

Greig sugere que a ajuda pode vir de uma direção surpreendente: empresas de combustíveis fósseis. “As empresas tradicionais de petróleo e gás (e outras) são um recurso amplamente inexplorado para a transição”, diz ele. “Seus balanços, sua disciplina de alocação de capital e, o mais importante, suas dezenas de milhares de engenheiros e gerentes de projeto de primeira linha não estão sendo mobilizados. Em sua maior parte, eles permaneceram à margem, envolvidos de maneira apenas superficial. A transição terá uma chance melhor quando essa situação mudar.”

Os governos precisam assumir um papel mais amplo, diz Greig. “Olhando para o futuro, acho que precisamos ver os governos adotando uma abordagem muito mais prática para reduzir os riscos e incertezas em torno da transição, de maneira que possamos ver uma grande aceleração da alocação de capital de risco pelo setor privado.”

Mobilizar financiamento também requer remediar os danos existentes, bem como se preparar para o futuro, diz Nicolas Choquette-Levy, estudante de Ph.D. no Programa de Ciência, Tecnologia e Política Ambiental do PIIRS (Instituto de Estudos Regionais e Internacionais de Princeton).

“Enquanto grande parte do financiamento internacional do clima ajuda os países a reduzirem as emissões de gases de efeito estufa, há uma necessidade significativa de aumentar o financiamento para a adaptação aos efeitos da mudança climática”, diz Choquette-Levy.

“Nos últimos anos, cada canto do mundo já teve que enfrentar os efeitos devastadores de inundações, secas e outros eventos climáticos mais frequentes e severos e que podemos esperar que se tornem ainda piores com o aquecimento do planeta. O financiamento climático começou a fornecer aos países os meios para se preparar para esses riscos”, diz ele. “Mas o valor atual do financiamento não chega nem perto do necessário. Os países industrializados até agora não conseguiram cumprir a meta anterior de 100 bilhões de dólares em financiamento; de acordo com o Programa Ambiental da ONU eles realmente precisam dobrar ou triplicar esse valor na COP26 (a cúpula de Glasgow). Este será um elemento crucial para ajudar as sociedades a enfrentar os custos crescentes das mudanças climáticas nesta década.”

Quando se trata de financiamento, o diabo normalmente está nos detalhes, diz Michael Oppenheimer, que por três décadas atuou em todas as grandes conferências sobre o clima e escreveu ou editou partes de todos os relatórios do IPCC desde o primeiro, em 1991.

“Isso depende da contabilidade de quem você acredita”, diz Oppenheimer, professor titular de geociências e assuntos internacionais, do Instituto Ambiental High Meadows, e diretor do Centro de Pesquisas em Política de Energia e Meio Ambiente de Princeton. “Segundo alguns cálculos, os fundos públicos alavancaram capital privado suficiente, de modo que o compromisso de 100 bilhões anuais chegou perto de ser cumprido recentemente. No entanto, há controvérsias sobre a contabilidade, e sou um tanto cético. É sempre o mesmo problema: o que teria realmente acontecido? O que não é dinheiro novo, tendo sido apenas reprogramado? O que é simplesmente falso?"

Ele segue: "A verdade é que esse financiamento é importante para os países em desenvolvimento, e eles sabem que não é tudo isso que foi anunciado, mas ambos os lados precisam alegar que saíram com algo das negociações. Em geral, isso é o mais importante para os países em desenvolvimento, uma vez que eles em grande medida receberam promessas vazias dos países desenvolvidos sobre o quanto estes reduziriam as emissões. O que é realmente importante é o financiamento para a adaptação dos países mais pobres, e quanto dinheiro está realmente fluindo para eles realizarem essa adaptação e, então, aplicarem onde for mais importante.”

Meta 4: trabalhar em conjunto para entregar resultados

Especialistas: Elie Bou-Zeid, Syukuro “Suki” Manabe, Michael Oppenheimer

“Às vezes parece que alcançar qualquer um dos quatro objetivos permanece muito, muito longe em sentido significativo, para além do simbólico”, diz Oppenheimer. “Por causa dessa dificuldade, as cúpulas do clima agora têm mais valor simbólico do que qualquer efeito em realmente implementar reduções de emissões e estratégias de adaptação que irão ‘salvar o planeta’.”

Manabe, que compartilhou com Al Gore e o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) o Prêmio Nobel da Paz de 2007, ganhou o Prêmio Nobel de Física de 2021 por seu trabalho no desenvolvimento da ciência da modelagem climática. Os modelos climáticos que ele criou na década de 1960 continuam sendo a espinha dorsal de todo o trabalho de modelagem climática feito em todo o mundo.

“Uma coisa é prever as mudanças climáticas; outra coisa é decidir, com base nessa previsão, o que fazer”, diz Manabe. “A mudança climática se baseia nas leis da física. É muito mais fácil entender como o clima vai mudar e o porquê disso, que é o assunto da minha pesquisa. Contudo, a política de mudanças climáticas envolve não apenas energia, mas agricultura, economia, política – então você pode facilmente imaginar que tomar uma decisão é mil vezes mais difícil. Logo, não tenho intenção de recomendar ações específicas, mas acho que as pessoas devem entender essa complexidade antes de realizar uma ação ou outra.”

“Se um tratado ambicioso sair, e se todas as partes fizerem um esforço de boa-fé para cumpri-lo, isso pode acelerar muito a transição energética e a adaptação”, diz Bou-Zeid. Lembre-se que as pessoas sofrem muito com as variações e os extremos climáticos antes que qualquer mudança climática se manifeste de fato. Portanto, investimentos e esforços para aumentar a resiliência seriam bem-vindos, mesmo se conseguirmos contornar a pior perspectiva de extremos futuros.

B. Rose Huber, da SPIA (Princeton School of Public and International Affairs), contribuiu para o relato deste material.

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