A plataforma que reúne dados sobre a população jovem no Brasil

Bruno Fiaschetti

Objetivando propor caminhos para os principais desafios enfrentados por esse grupo, o ‘Atlas das juventudes’ pretende qualificar o entendimento e a ação de gestores públicos para assegurar os direitos dos jovens brasileiros

Quase um quarto da população brasileira é composta por pessoas de 15 a 29 anos. Embora o contingente de mais de 50 milhões - a maior geração de jovens da história brasileira - apresente enorme potencial para o desenvolvimento social e econômico do país, os jovens enfrentam um contexto excludente, violento e desafiador.

Com o objetivo de realizar o potencial e propor caminhos possíveis para os principais desafios enfrentados por jovens no Brasil, as redes de organizações “Em movimento” e “Pacto das juventudes pelos ODS” lançaram em junho de 2021 o “Atlas das juventudes”, uma plataforma que pretende auxiliar na formulação, implementação, monitoramento e avaliação de políticas públicas e iniciativas para as juventudes brasileiras.

A plataforma foi construída em três etapas:

  • Na primeira, desenvolvida em parceria com o FGV Social (Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas), as principais bases de microdados do Brasil - e, em alguns casos, do mundo - foram processadas, atualizadas e sistematizadas. Com isso, foram construídos panoramas, simuladores, mapas e projeções populacionais com dados de cidades de todas as regiões brasileiras;
  • Na fase qualitativa do projeto, realizada com a Talk Inc, jovens de todas as regiões do país foram entrevistados virtualmente;
  • Na terceira etapa, coordenada pelo Instituto Veredas, foram avaliadas e sistematizadas as evidências encontradas nas fases anteriores objetivando indicar caminhos para os principais desafios enfrentados pelos jovens brasileiros e construir uma repositório online com conteúdos sobre essa população.

O “Atlas das juventudes” também visa suprir a dificuldade de acesso a dados e conhecimento sistematizado sobre essa população, algo que fragiliza o entendimento dos gestores públicos sobre as melhores estratégias para assegurar os direitos dos jovens.

“Sem os dados, os formuladores não entendem aprofundadamente as diferentes realidades que vivem as juventudes e não conseguem propor políticas públicas que atendam de fato às suas necessidades”, afirmou ao Nexo Políticas Públicas Mariana Resegue, uma das coordenadoras da plataforma e secretária executiva do Em Movimento.

Resegue destacou que, para que seja possível acompanhar a evolução dos indicadores e os impactos dos investimentos nos jovens, o “Atlas das juventudes” será atualizado a cada dois anos. “Assim, preenchemos uma necessidade da sociedade de pesquisas que olhavam especificamente para as juventudes de forma transversal, e atualizamos algumas análises que estão defasadas por conta do longo tempo desde a última edição do Censo, em 2010”, disse.

O potencial das juventudes

Os mais de 50 milhões de jovens brasileiros fazem com que o país se encontre na situação conhecida como “bônus demográfico” - que ocorre quando há, proporcionalmente, um maior número de pessoas em idade ativa aptas a trabalhar. Havendo um excedente de pessoas para produzir, esse quadro representa uma enorme janela de oportunidades para a economia e desenvolvimento social desde que os direitos das juventude sejam protegidos.

No Brasil, inúmeros são os desafios para que o potencial dos jovens floresça e se transforme em prosperidade para o país. Imersas em um cenário de vulnerabilidades e exclusão, as juventudes deparam-se constantemente com barreiras que dificultam seu desenvolvimento e impactam diretamente na sua participação ativa na economia e na sociedade.

Resegue destacou que não se pode perder de vista a pluralidade de realidades das juventudes no Brasil. “Quando olhamos para os dados de quem perdeu mais em renda entre os anos de 2014 e 2019, percebemos que o jovem sem instrução perdeu mais de 50% da sua renda, quando a média das juventudes é de 14,66%”, afirmou ao Nexo Políticas Públicas. “Dependendo do seu gênero, etnia, classe social, território ou idade os desafios se agravam e muito”, frisou.

Com a pandemia do novo coronavírus, os desafios tornam-se ainda maiores. Houve, segundo dados do “Atlas das juventudes” um agravamento das desigualdades durante a emergência sanitária, que no caso dos jovens se reflete em maiores índices de desemprego e em uma maior defasagem no processo educacional, além de um menor acesso aos serviços essenciais - o que, por exemplo, pode afetar a saúde mental dessa população e sua segurança alimentar.

“Quando olhamos para a educação e inclusão produtiva, dois dos direitos básicos das juventudes, vemos o tamanho do problema que estamos vivendo. Temos a maior população de juventudes da história do Brasil, com 47,8 milhões de jovens, que representam quase 1/3 da população economicamente ativa. No entanto, apesar de sua capacidade produtiva, 54% destes jovens, ou 27,1 milhões, estão desocupados. Os dados alarmantes revelam que 1⁄4 dessa população vive sem estudo e sem trabalho”

Mariana Resegue

coordenadora do ‘Atlas das Juventudes’ e secretária executiva do Em Movimento

Ainda segundo os dados do “Atlas das juventudes”, caso esses desafios não sejam superados, o Brasil pode desperdiçar uma oportunidade única de ter seu crescimento alavancado pela maior população de jovens de toda sua história.

Como enfrentar os desafios

Os atores envolvidos na elaboração do “Atlas das juventudes” identificaram um gargalo no acesso aos dados e ao conhecimento sistematizado sobre os jovens no Brasil. Potencializado pelas indefinições sobre a realização do Censo Demográfico, o diagnóstico foi que a lacuna de informações fragiliza os instrumentos para a formulação de políticas públicas e iniciativas voltadas às juventudes brasileiras.

O primeiro passo para que os enormes desafios concernentes aos jovens no Brasil sejam superados é, portanto, a construção de uma base de dados confiável - o mote da plataforma. A ideia é que ela auxilie os gestores públicos e a sociedade a formularem estratégias consistentes e sustentáveis para enfrentar esses obstáculos.

54%

dos jovens estão desocupados, segundo dados do ‘Atlas das juventudes’

43%

dos jovens já pensaram em desistir dos estudos, segundo dados da segunda edição da pesquisa ‘Juventudes e a Pandemia’

20,2%

dos jovens não completaram alguma das etapas da educação básica, segundo dados do ‘Atlas das juventudes'

5

a cada 10 jovens sentem exaustão ou cansaço constante, segundo dados do ‘Atlas das juventudes'

Marcus Barão, coordenador Geral do Pacto das Juventudes pelos ODS e Presidente do Conselho Nacional da Juventude, um dos coordenadores do “Atlas das juventudes”, frisou ao Nexo Políticas Públicas a importância de proteger os direitos dos jovens. Para isso, segundo ele, “é fundamental promover o pleno desenvolvimento de jovens em seus territórios e, dessa maneira, garantir que possam concretizar sonhos, aprender, inovar e participar ativamente da economia e da sociedade, como protagonistas, em todas as suas esferas''.

Caso nenhuma estratégia seja adotada, Barão alerta que o Brasil, ao desperdiçar uma oportunidade histórica de alavancar seu crescimento usando a população jovem, conviverá com o risco de ter uma geração perdida. “Em uma perspectiva temporal, o Brasil verá sua população jovem diminuir a partir de 2021. O contingente pode chegar ao fim do século reduzido quase à metade de sua magnitude atual, diminuindo as possibilidades da prosperidade da nação”, disse.

“Em 2060, um em cada quatro brasileiros terão 60 anos ou mais. Isso significa que temos agora uma janela única e urgente de oportunidades de ação para as juventudes brasileiras e, consequentemente, para as gerações futuras”, destacou.

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