Como se dá a perda de aprendizagem durante a pandemia

Bruno Fiaschetti

Defasagem na assimilação de conhecimento e baixa eficiência do ensino remoto podem gerar uma perda considerável na renda de jovens durante sua vida profissional. Ações voltadas para a recuperação e aceleração do aprendizado são capazes de mitigar o problema

Os estudantes que concluíram a segunda série do ensino médio em 2020 iniciaram a terceira série com uma proficiência em matemática e língua portuguesa entre 9 a 10 pontos a menos do que seria esperado na escala do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) caso as aulas presenciais não tivessem sido suspensas em decorrência da pandemia de covid-19. O prejuízo poderá ser quase duas vezes maior caso o ensino remoto seja mantido e não haja um aumento no engajamento dos estudantes durante o ano letivo de 2021.

As conclusões são de um estudo realizado pelo Núcleo Ciência pela Gestão Educacional do Insper em parceria com o Instituto Unibanco. Intitulada “Perda de aprendizagem na pandemia”, a pesquisa teve como público alvo os estudantes da rede pública que concluirão o ensino médio em 2021. A professora do Insper Laura Muller, uma das autoras do trabalho, explicou ao Nexo Políticas Públicas que o foco nesse grupo de alunos deve-se a sua iminente saída do sistema educacional. “Como eles já estão indo para o mercado de trabalho, terão menos tempo para se beneficiar das políticas de recuperação dessa aprendizagem perdida”, comentou.

Através de um modelo de simulação, os pesquisadores estimam que, se a defasagem não for superada, cada estudante que conclua o ensino médio em 2021 terá uma perda de renda entre R$ 20 e R$ 40 mil ao longo de sua vida. A projeção para o conjunto dos estudantes no ensino médio e fundamental supera R$ 700 bilhões - caso não ocorra um rápido retorno ao ensino híbrido esse valor pode chegar a R$ 1,5 trilhão.

R$ 20 e R$ 40 mil

é o intervalo em que se insere a perda de renda de cada estudante ao longo da vida

R$ 700 bilhões

é a projeção da soma das perdas de todos os estudantes do ensino fundamental e médio

R$ 1,5 trilhão

é o valor total que pode ser perdido caso não ocorra um rápido retorno ao ensino híbrido

Outro autor do estudo, o economista e professor titular do Insper Ricardo Paes de Barros, disse em entrevista ao Nexo Políticas Públicas que um dos fatores motivadores da pesquisa foi a ausência de mensuração dos impactos da pandemia na educação, ao contrário do que acontecia, por exemplo, em relação aos níveis de desemprego. “Enquanto no mercado de trabalho temos 10, 15 milhões de trabalhadores que perderam o seu trabalho - o que é bastante preocupante -, na educação, todas as crianças que estão no sistema educacional estão perdendo seu aprendizado. Isso equivale de 30 a 40 milhões de crianças, afirmou o economista. Paes de Barros faz parte do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) um dos parceiros do Nexo Políticas Públicas.

Mensurar os impactos aos estudantes decorrentes da pandemia também pode ajudar os gestores públicos na estruturação de iniciativas capazes de compensar os prejuízos a seu ensino. Segundo Muller, saber quanto os alunos deixaram de aprender “é de extrema relevância para embasar as decisões que precisam ser tomadas no país a partir de agora, em especial sobre a política de recuperação dessa perda”.

Formas de mitigar o problema

Os pesquisadores identificaram a falta de acesso à internet e aos equipamentos necessários para acompanhamento das atividades remotas, a ausência de condições adequadas para estudo e a dificuldade dos sistemas educacionais de gerar um ensino remoto eficiente em pouco tempo como os principais gargalos do ensino durante a pandemia. A professora do Insper, Laura Muller, classificou esses fatores como os “grandes impeditivos para que esses jovens pudessem aprender”.

Segundo as estimativas da pesquisa, caso mantido o mesmo grau de engajamento e qualidade da educação remota e se o ensino híbrido não for adotado, as perdas do ano letivo de 2021 serão similares àquelas ocorridas em 2020.

Portanto, a simples tentativa de reprodução daquilo que se faz nas aulas presenciais no ambiente virtual não é suficiente para mitigar essas perdas. Sobre esse ponto, Muller comentou ao Nexo Políticas Públicas que “sendo o ensino remoto menos eficiente que o ensino presencial, parece que falta alguma coisa na transição do presencial para o remoto”.

Para atribuir uma maior eficiência ao ensino, os pesquisadores recomendam um maior engajamento dos estudantes com o ensino remoto, a promoção de ações voltadas para a recuperação e aceleração do aprendizado - acompanhadas de uma otimização do currículo -, e a adoção de alguma forma de ensino híbrido o mais rápido possível.

O estudo projeta que, caso essas medidas sejam tomadas no segundo semestre letivo de 2021, de 35% a 40% das perdas poderão ser evitadas. Na escala Saeb isso representa que, nesse caso, as perdas que poderiam chegar a 16 pontos em língua portuguesa e 20 pontos em matemática passariam a ser de 11 e 12, respectivamente.

Para que se tenha ideia da magnitude desses prejuízos, um aluno tipicamente aprende durante o ensino médio 20 pontos na escala Saeb em língua portuguesa. Logo, uma perda de 10 pontos equivale a perder metade de tudo o que é aprendido durante esse período. Do mesmo modo, uma perda de 20 pontos quer dizer, portanto, que o aluno perdeu tudo o que aprenderia no ensino médio.

"Levando em consideração que nós temos 6,5 milhões de jovens no ensino médio, essa perda equivale a 16 mil jovens por dia dando adeus ao seu sonho de concluir a educação média"

Ricardo Paes de Barros

economista e professor titular do Insper, em entrevista ao Nexo Políticas Públicas

Os pesquisadores estimam que, a menos que sejam compensadas, as perdas na educação durante o ano de 2020 reduzirão a renda das gerações que hoje estão em idade escolar a cifras muito superiores àquelas decorrentes do impacto da pandemia sobre o desemprego registrado no mesmo período. Enquanto a perda de renda por desemprego é calculada em R$ 200 bilhões, o valor da queda na remuneração futura decorrente da perda de 10 pontos em proficiência devido à pandemia em 2020 será de R$ 700 bilhões.

A situação do ensino médio

A baixa performance do ensino médio no Brasil vem aparecendo há anos em indicadores do ensino público. Essa etapa de formação, marcada por enormes desigualdades entre os estudantes, apresenta desafios históricos como a baixa qualidade, a ausência de professores qualificados e falta de interesse dos alunos nas atividades da escola.

23%

dos estudantes brasileiros alcançaram a proficiência mínima em leitura, matemática e ciências, segundo dados da OCDE. A média dos países-membros é de 64%

67%

dos brasileiros de 25 a 34 anos completaram pelo menos o ensino médio, segundo dados da OCDE. A média dos países-membros é de 85%

O levantamento mais recente do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) revela que, na última década, o Brasil ficou estagnado nas últimas posições em leitura, matemática e ciências, áreas de aprendizagem avaliadas pelo exame. As notas obtidas pelos estudantes brasileiros em 2018 - data do último levantamento - foram praticamente idênticas às de 2009.

Segundo os dados da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que realiza a avaliação, apenas 23% dos estudantes brasileiros alcançaram a proficiência mínima nas disciplinas, enquanto a média dos países membros é de 64%. Ainda segundo a organização, 67% dos brasileiros de 25 a 34 anos completaram pelo menos o ensino médio, contra a média de 85% dos demais países.

A próxima edição do Pisa ocorrerá em 2022. O estudo realizado pelo Núcleo Ciência pela Gestão Educacional do Insper em parceria com o Instituto Unibanco, bem como outros levantamentos, sugerem um prognóstico desfavorável para a educação brasileira nos próximos anos. O fechamento das escolas decorrente da pandemia do novo coronavírus, além do prejuízo aos alunos do ensino médio, acentuou as desigualdades entre os estudantes brasileiros, aumentando os desafios dos gestores públicos para promover uma educação mais eficiente e de melhor qualidade.

Veja também

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeGEMAADRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUTMacroAmb