Como um projeto investiga o legado da escravidão em uma universidade americana

Ana Beatriz Miraglia
Desde o final de 2019, Harvard vem conduzindo iniciativa que pesquisa o tema em diferentes contextos da comunidade universitária

Nos últimos anos no Brasil, o debate sobre a questão racial tem ampliado as práticas de ações afirmativas e de reparação. Ações nesse sentido vem sendo implementadas em campos como na educação superior, com a instituição de cotas raciais, na saúde e mais recentemente, no âmbito eleitoral, com as novas regras para candidatos negros e negras.

Há também movimentos antirracistas no Brasil que, assim como em outras partes do mundo, questionam diferentes dimensões do debate racial. Como, por exemplo, com a pressão pela retirada de monumentos históricos de figuras ligadas ao passado escravocrata.

Tendo como contexto esse dabate, foi lançado em novembro de 2019, o projeto “Harvard and the Legacy of Slavery” (“Harvard e o legado da escravidão” em tradução livre), uma iniciativa que vem investigando a história e o legado da escravidão na vida universitária de Harvard.

“O compromisso da nossa universidade com a verdade está no cerne deste trabalho (...) Como já disse muitas vezes, não podemos desconstruir o que não entendemos, e não podemos entender a desigualdade e a injustiça contemporâneas, a menos que consideremos honestamente nossa história.”

Tomiko Brown-Nagin

Professora de direito e de história em Harvard e presidente do comitê do projeto, em seminário sobre a iniciativa, ocorrido em 9 de março de 2021

Uma das pesquisadoras envolvidas na iniciativa é a historiadora haitiana Martine Jean. Para além do projeto em Harvard, seu trabalho acadêmico aborda também o Brasil do século 19. Olhando para temas como a escravidão e as noções de raça e pobreza no país, sua pesquisa analisa as implicações desses temas para o contexto contemporâneo como, por exemplo, o encarceramento em massa no Brasil.

O Nexo Políticas Públicas conversou com a pesquisadora por e-mail em junho de 2021, com intermediação do Centro de Estudos da América Latina David Rockefeller da Universidade de Harvard, parceiro da plataforma. A historiadora conta quais são os principais objetivos da iniciativa e como ela pode inspirar ações similares em outras áreas e países, incluindo o Brasil.

Como e por que o projeto “Harvard e o legado da escravidão” surgiu no final de 2019? Qual é a previsão de sua duração? E qual a sua atuação nele?

MARTINE JEAN A iniciativa em Harvard sobre o legado da escravidão foi anunciada pelo presidente da universidade, Larry Bacow, em novembro de 2019 e está ancorada no Harvard Radcliffe Institute. É uma tentativa de entender e abordar o legado persistente da escravidão dentro da nossa comunidade universitária, guiada por um comitê presidencial que inclui docentes de todos os departamentos e faculdades de Harvard. Nossos professores estão engajados em diversas áreas de estudo:

  • campus e comunidade;
  • currículo acadêmico;
  • as conexões históricas entre Harvard e a escravidão em Antígua e no Caribe; e
  • a influência do conceito de raça na educação e na prática médica.

O projeto se desenvolve com base em anos de trabalhos relevantes, incluindo várias ações desenvolvidas sob a liderança da presidente emérita de Harvard Drew Gilpin Faust, cujos esforços neste contexto levaram a diversas iniciativas:

  • o fim da utilização do emblema da Faculdade de Direito de Harvard, que continha elementos do brasão da família escravagista Royall, aderindo à recomendação de um comitê docente que foi estabelecido pela reitora Martha Minow em resposta a reivindicações de ativistas do corpo estudantil;
  • o estabelecimento de um comitê docente convocado pela presidente Faust, que iniciou as pesquisas sobre as conexões históricas da universidade com a escravidão através da investigação dos Harvard Archives (Arquivos de Harvard, em tradução livre) e outras coleções da universidade, e a consequente criação de um memorial na Wadsworth House em reconhecimento e homenagem às quatro pessoas escravizadas que lá viviam – Titus, Venus, Juba e Bilhah; e
  • uma série de aulas, seminários, exibições, performances e discussões foram realizados em nosso campus.

A iniciativa é seriamente compromissada em se basear em pesquisas históricas rigorosas; e com um foco em conexões, impacto e contribuições que são específicas à nossa comunidade de Harvard; e ao investimento em oportunidades de reunir a nossa ampla comunidade universitária para analisar o impacto e o legado da escravidão no presente e além. Nós estamos engajados neste trabalho a partir de vários esforços, mas atualmente nos ocupamos na elaboração de um relatório histórico, com conclusão e lançamento previstos para o final de 2021 - início de 2022, focado na análise de casos individuais que ilustram bem a questão.

O relatório histórico também vai incluir possíveis recomendações que abordem o registro da memória histórica sobre o impacto da escravidão na universidade; a compreensão e resposta ao legado da escravidão no campus; e o emprego das lideranças intelectuais de Harvard para trazer reparações a essa questão. Como membra pesquisadora, sou parte de uma equipe que supervisiona a investigação de indivíduos centrais, incluindo professores e doadores de fundos à faculdade, que estiveram direta ou indiretamente conectados à escravidão como senhores de escravos, traficantes de escravos, ou investidores no comércio escravagista. Nossa pesquisa também examina o papel de professores proeminentes de Harvard, como Louis Agassiz, e o seu papel na produção e disseminação de ideias racistas para justificar a escravização de pessoas de descendência africana durante e após o período escravagista. A iniciativa consiste em vários esforços atualmente em progresso para abordar a história do século 20 e os legados contemporâneos. O foco do relatório histórico é mais específico. Isto é apenas o começo, e nós convidamos outros pesquisadores a pensar conosco sobre o que deve vir a seguir e a continuar conduzindo relevantes estudos relacionados à nossa missão.

Quais são as principais áreas que o projeto tem investigado o legado da escravidão em Harvard?

MARTINE JEAN É um tópico vasto, claro. A escravidão durou aproximadamente quatro séculos nas Américas e uma universidade tão antiga quanto Harvard é necessariamente moldada por essa história. Nossa tarefa é selecionar eventos centrais e pessoas que esclareçam o impacto da escravidão em Harvard. Nós optamos por focar na presença da escravidão no campus antes da Revolução Americana; na maneira que Harvard se beneficiou pela escravidão economicamente; e por fim, o papel das lideranças intelectuais de Harvard na promoção da escravidão e de ideologias racistas. O relatório histórico vai também abordar eugenia, segregação, e o movimento por direitos civis no começo do século 20.

A escravidão acabou, mas nós ainda estamos vivendo seus legados em termos de policiamento, desigualdade no acesso à saúde, disparidades educacionais, etc.

Martine Jean

Historiadora, em entrevista ao Nexo Políticas Públicas

Já há alguma definição sobre medidas concretas que a Universidade pretende adotar a partir de lições aprendidas com essa investigação histórica?

MARTINE JEAN Há várias iniciativas concretas em andamento, incluindo o relatório histórico. Os professores Bill Wilson e Anthony Jack estão envolvidos em uma enquete junto aos estudantes atuais de Harvard, focando principalmente em estudantes negros que nasceram nos Estados Unidos, incluindo não somente aqueles que são descendentes de pessoas escravizadas nos EUA, mas também aqueles que são filhos de imigrantes. A meta é trazer à luz como os estudantes de graduação em Harvard estão lidando com a confluência da prestação de contas na questão racial, da crise de saúde pública, e do desgaste econômico. Esperamos poder compartilhar nossas descobertas preliminares no final do ano.

Outras iniciativas concretas incluem a elaboração de campanhas públicas que abordem amplamente questões relacionadas ao legado da escravidão, estabelecendo parcerias com organizações comunitárias – como a Royall House and Slave Quarters 1 e o Museu da História Afro-Americana em Boston 2 – para realizar eventos e disponibilizar recursos que tragam elucidações sobre essas questões. Também estamos desenvolvendo recursos educacionais para a comunidade de Harvard e além, incluindo, mas não se limitando a, orientações em formato de vídeo que introduzam esta história à comunidade universitária; recursos curriculares que apoiem seu ensino e debate em nossas faculdades; e a criação de um tour virtual que se volte às vidas das pessoas escravizadas no campus e em suas imediações durante o século 18.

De que maneira essa pesquisa é relevante para o debate mais amplo sobre reparação das desigualdades raciais e sobre o enfrentamento do racismo estrutural em outros países?

MARTINE JEAN Esta pesquisa é muito crucial para o debate sobre o fim da discriminação racial e do racismo estrutural nos Estados Unidos e também no Brasil, claro, bem como as reparações a serem feitas nesse mérito. A escravidão acabou, mas nós ainda estamos vivendo seus legados em termos de policiamento, desigualdade no acesso à saúde, disparidades educacionais, etc. Quando a maioria das pessoas pensa sobre escravidão, elas imaginam uma plantação. Elas não pensam sobre cidades e símbolos do progresso tal como uma instituição de ensino e pesquisa como Harvard. Contudo, o trabalho escravo moveu virtualmente todos os aspectos do desenvolvimento do mundo moderno como o conhecemos, a instituições como Harvard, hospitais, prisões, e dinheiro proveniente da escravidão pagaram pela urbanização das Américas. Acadêmicos em faculdades como Harvard estiveram nas linhas de frente da ciência racial que deu voz a ideias racistas que fomentaram violência policial, políticas educacionais com base racial e discriminação na saúde pública. A pesquisa sobre o legado da escravidão em Harvard vai trazer informação às discussões sobre reparações de várias formas. Primeiro, ela deve corrigir os registros históricos ao mostrar como a universidade concretamente se beneficiou da escravidão e do dinheiro oriundo do trabalho escravo. Ela deve servir como um apelo para que outras instituições investiguem suas ligações com a escravidão. E por fim, deve também fomentar e orientar reparações a serem feitas, como um dos tópicos centrais de justiça social do nosso tempo.

A senhora é uma especialista na questão racial no Brasil. O seu livro “Policing Freedom: Confinement, Labor, Race and Citizenship in Nineteenth-Century Brazil” (“Policiamento da liberdade: confinamento, trabalho, raça e cidadania no Brasil do século 19”, em tradução livre) será publicado pela Editora da Universidade do Texas. Você vê possibilidades de instituições brasileiras adotarem medidas de reparação racial semelhantes a este projeto de Harvard? Como isso poderia contribuir para o debate sobre a questão racial no Brasil?

MARTINE JEAN Acredito que as instituições no Brasil, não apenas as universidades, podem se beneficiar desta iniciativa em Harvard, e elas deveriam emular isso. É claro que Harvard não é a primeira a investigar suas ligações com a escravidão. A Universidade de Brown tomou a vanguarda nessa prestação de contas e outras universidades seguiram o mesmo caminho desde então. A escravidão durou até 1888 no Brasil e muitas instituições brasileiras se beneficiaram do trabalho escravo, como a penitenciária que eu discuto no meu livro. O Brasil ainda enfrenta o legado da escravidão em questão de brutalidade policial, saúde, e acesso desigual à moradia em metrópoles como Rio, Salvador e São Paulo. Só é preciso olhar para as estatísticas de crime e policiamento para entender o quão arraigado é o racismo estrutural no Brasil. Reparação é uma questão complexa que não pode ser restringida à compensação monetária, e também deve envolver a conservação da memória histórica sobre pessoas escravizadas e a afirmação da representação afrodescendente na mídia e em todos os níveis da sociedade. Por exemplo, a televisão brasileira também não reflete a população, à medida que a maioria das novelas na Globo exibe famílias brancas de classe alta, com espaço para poucos atores de origem negra ou indígena. As instituições brasileiras – igrejas, conventos, universidades, a polícia – deveriam investigar e reconhecer suas relações com a escravidão. Felizmente, historiadores do Brasil já conduziram muito do trabalho que está em progresso. Seria necessário apenas que essas instituições documentem sua participação com consideração à literatura sobre a escravidão e o colonialismo no Brasil, reconheçam os erros do passado, e adotem políticas concretas para reparar esses erros.

Essa entrevista foi respondida originalmente em inglês e foi traduzida por João Abdalla.

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