Como o castigo corporal pode afetar o desenvolvimento cerebral infantil

Manisha Aggarwal-Schifellite
Pesquisadores encontram similaridades nas respostas neurais com relação a outras formas graves de abuso

Palmadas podem afetar o desenvolvimento cerebral de uma criança de maneira similar a certos tipos de violência mais severos, de acordo com um novo estudo conduzido por pesquisadores de Harvard.

A pesquisa se baseia em estudos prévios que mostram atividade cerebral elevada em certas regiões do cérebro de crianças que viveram abusos em um contexto de advertência e punição.

O grupo descobriu que crianças que levaram palmadas na infância tinham uma resposta orgânica mais acentuada em múltiplas regiões do córtex pré-frontal, incluindo em regiões que são parte da rede de saliência neural. Essas áreas do cérebro respondem a estímulos do ambiente que tendem a ser consequenciais, como uma ameaça, e podem afetar a tomada de decisão e o processamento de situações.

“Sabemos que essas crianças cujas famílias usam punições físicas são mais propensas a desenvolver ansiedade, depressão, problemas comportamentais e outros tipos de problemas de saúde mental, mas muitas pessoas não veem as palmadas como uma forma de violência”, disse Katie A. McLaughlin, professora de ciências sociais e diretora do Laboratório de Estresse e Desenvolvimento do Departamento de Psicologia em Harvard. McLaughlin foi a pesquisadora sênior envolvida no estudo, que foi publicado em abril de 2021 no periódico Child Development. “Neste estudo, quisemos examinar se havia ou não um impacto direto das palmadas a um nível neurobiológico, em termos de como o cérebro infantil se desenvolve.”

De acordo com os autores da pesquisa, a punição física tem sido conectada ao desenvolvimento de problemas de saúde mental, depressão, distúrbios comportamentais e consumo de drogas. Pesquisas recentes mostram que aproximadamente metade das famílias nos Estados Unidos disseram ter dado palmadas em suas crianças no último ano, e um terço delas o fizeram somente na última semana. Contudo, a relação entre punições por meio de palmadas na infância e atividade cerebral não havia sido estudada anteriormente.

McLaughlin e seus colegas – incluindo Jorge Cuartas, principal autor da pesquisa e estudante de PhD em educação, e David Weissman, pesquisador de pós-doutorado no Laboratório de Estresse e Desenvolvimento – analisaram dados de um grande estudo anterior, contemplando crianças entre as idades de 3 e 11 anos. Eles focaram nas 147 crianças com idades entre 10 e 11 anos que levaram palmadas na infância, excluindo aquelas que haviam sofrido formas mais graves de violência.

“Muitas pessoas não veem as palmadas como uma forma de violência”

Katie A. McLaughlin

Diretora do Laboratório de Estresse e Desenvolvimento em Harvard

Cada uma dessas crianças foi submetida a um exame de ressonância magnética e concomitantemente colocada para observar um monitor de computador que mostrava diferentes imagens de pessoas com feições amedrontadoras e neutras. Um scanner capturou a atividade neural da criança em resposta às feições projetadas pelo monitor, e essas imagens foram depois analisadas para determinar se havia uma diferença nos padrões de atividade neural nas crianças que haviam recebido punições como palmadas, em comparação às que não haviam passado por isso.

“Em média, ao longo de todas as amostras, feições amedrontadoras suscitaram maior ativação neural que feições neutras em várias regiões espalhadas pelo cérebro [...] e as crianças que levaram palmadas na infância demonstraram maior ativação em múltiplas regiões do córtex pré-frontal em reatividade à aparição de feições amedrontadoras, em comparação às demais crianças que nunca receberam esse tipo de punição", escreveram os pesquisadores.

As descobertas se alinham com pesquisas semelhantes conduzidas com crianças que sofreram violência severa, sugerindo que “ainda que não se considere a punição física como uma forma de violência, ela não é nem um pouco diferente de outros tipos de abuso no que diz respeito à resposta do cérebro infantil”, disse a professora McLaughlin. “É uma diferença mais em grau do que em tipo.”

Os pesquisadores disseram que o estudo é o primeiro passo em direção a uma análise mais interdisciplinar dos potenciais efeitos que as palmadas podem ter no desenvolvimento cerebral e na vivência infantil.

“Esses resultados se alinham às previsões feitas sob outras perspectivas sobre as potenciais consequências da punição física” estudadas em áreas como psicologia do desenvolvimento e assistência social, disse Cuartas. “Ao identificar certos padrões neurais que explicam as consequências da punição física no cérebro, nós podemos chegar a sugerir que esse tipo de punição pode ser prejudicial às crianças e que há outras formas de proceder.”

Entretanto, os pesquisadores notaram que suas conclusões podem não ser aplicáveis ao dia a dia de todas as crianças.

“É importante considerar que a punição física não impacta todas as crianças da mesma forma, e que as crianças podem ser resilientes quando expostas a potenciais adversidades”, disse Cuartas. “Mas a mensagem importante é que a punição física é um risco que pode amplificar potenciais problemas no desenvolvimento infantil, e tanto os pais quanto os legisladores deveriam adotar uma postura de precaução para reduzir sua ocorrência.”

Em última análise, acrescentou McLaughlin, “ficamos esperançosos de que essas evidências possam encorajar famílias a não adotar essa estratégia, e que essa pesquisa possa abrir os olhos das pessoas para as potenciais consequências negativas da punição física.”

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