Por que o surto de covid-19 no Brasil virou uma crise humanitária

Liz Mineo
A professora Marcia Castro, da Escola de Saúde Pública de Harvard, diz que há vários fatores por trás disso, mas os mais relevantes podem ser ausência de liderança e negacionismo científico

A pandemia de covid-19 está devastando o Brasil, onde o número de mortes ultrapassou 400 mil pessoas. Recentemente, os Médicos Sem Fronteiras descreveram a crise de saúde pública na maior e mais populosa nação da América do Sul como uma catástrofe humanitária, culpando os líderes governamentais pela “resposta falha à covid-19”.

Nesta entrevista, a professora de demografia e chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública de Harvard, Marcia Castro, fala sobre as lições que o mundo pode tirar da atual situação brasileira. Castro nasceu no Brasil e é responsável por um extenso trabalho de pesquisa na Amazônia.

Quais são os fatores por trás da crise de covid-19 no Brasil neste momento?

Marcia Castro Eu gostaria que houvesse apenas um, mas há vários fatores que explicam o surto da doença atualmente no Brasil, que é um país grande, desigual e complexo. Há o problema da desigualdade, não somente no sentido de renda, mas também no nível local que reflete um acesso desigual tanto aos serviços de saúde quanto aos leitos de UTI, e também a presença de comorbidades que afetam desproporcionalmente as pessoas mais vulneráveis. Tudo isso importa porque a desigualdade é um verdadeiro desafio para qualquer país no que toca à resposta para uma pandemia.

Contudo, um fator importante foi a ausência de uma resposta unificada a nível federal. O Brasil tem um sistema de saúde universal que opera a nível federal, estadual e municipal. Os municípios ficam a cargo de implementar medidas, mas eles fazem isso seguindo orientações e protocolos federais e estaduais. Mas o que pudemos perceber nessa pandemia foi uma completa ruptura dessa estrutura. Nós não tivemos orientação coordenada ou um plano efetivo para lidar com a pandemia a nível federal. Não existia um comitê científico de consulta para guiar o governo federal rumo ao melhor plano de ação. Em vez disso, o presidente [Jair] Bolsonaro negou a ciência, minimizou a seriedade do vírus e promoveu tratamentos sem comprovação científica como a hidroxicloroquina, uma medicação usada originalmente contra a malária. Por vários meses ele não usou uma máscara e se encontrou com multidões de apoiadores, por sinal, até hoje ele não foi vacinado.

Pelo Brasil, prefeitos e governadores fizeram tudo que estava a seu alcance para responder à pandemia. Aqueles que apoiavam o presidente não adotaram nenhuma ação, e os opositores políticos que remaram contra a maré agora estão envolvidos em disputas com o governo federal. É triste, mas a história da covid no Brasil é a história de como o fracasso de liderança colocou o país em uma situação completamente caótica. Neste momento, o Brasil está vivendo uma verdadeira crise humanitária.

Alguns especialistas de saúde estão dizendo que essa catástrofe no Brasil poderia ter sido evitada. Qual é a sua opinião sobre isso?

Marcia Castro Eu concordo completamente. Essa crise poderia ter sido evitada. Isso não significa que nós não teríamos nenhuma morte, mas certamente que nós não teríamos o nível de mortalidade atual. Na vida não há um botão de rebobinar, mas usando dados para modelar cenários alternativos nós podemos ver o quão diferentes as coisas poderiam ter se desenrolado no Brasil se o governo impusesse um lockdown e tivesse dado recursos para que a população pudesse se manter segura em casa. O governo ofereceu assistência financeira, mas durante os piores meses da pandemia, entre janeiro e março de 2021, nada foi provido.

Considerando o seu histórico com as epidemias passadas de HIV/Aids e Zika, o Brasil poderia ter sido um exemplo mundial em questão de como lidar com a atual pandemia. O país tem um sistema de saúde universal e um dos maiores programas de cuidados primários do mundo. Há mais de 300 mil agentes de saúde comunitários pelo país que ajudam a população mais vulnerável. Eles vão às casas das pessoas para monitorar diabetes, pressão sanguínea e acompanhar a gravidez das mulheres. Eles poderiam ter sido a base para a resposta do país à covid-19, sendo empregados na tarefa de levar informações corretas sobre medidas preventivas. E fazendo isso, teria sido possível alcançar a população mais vulnerável que vive em residências superlotadas sem ventilação adequada – aqueles que estão em maior risco. Contudo, nós perdemos a oportunidade de empregar os agentes de saúde comunitária dessa forma, o que poderia ter nos dado alguma vantagem na resposta inicial.

“É triste, mas a história da covid no Brasil é a história de como o fracasso de liderança colocou o país em uma situação completamente caótica. Neste momento, o Brasil está vivendo uma verdadeira crise humanitária”

Você disse que a crise de saúde pública no Brasil é um aviso para o mundo. Poderia nos explicar isso?

Marcia Castro O mundo precisa ver o que acontece quando você deixa a pandemia correr solta e aprender com isso. O que estamos vendo é uma altíssima mortalidade e o surgimento de novas variantes, já que variantes naturalmente emergem de lugares que têm uma alta transmissão. Temos a variante P.1., além de outras duas cepas que já apareceram e ainda não sabemos o quão preocupantes são. Devido à pandemia, o Brasil perdeu dois anos nas estatísticas de expectativa de vida. Nos Estados Unidos, os especialistas dizem que a perda na expectativa de vida é de 1,13 anos.

Como a condução da pandemia pelo presidente Bolsonaro se compara a de outros países no continente?

Marcia Castro Há três governos que lidaram com os estados iniciais da pandemia de maneira semelhante. Brasil, México, e o governo de Donald Trump nos Estados Unidos se assemelham no negacionismo à seriedade do vírus e à ciência em geral. Não é por acaso que esses três países estão dentre os mais afetados pelo vírus. Os Estados Unidos tiveram a chance de mudar o jogo depois da eleição de Joe Biden, e ainda bem que conseguiram fazer isso. Eu duvido que os EUA estivessem vacinando mais de 4 milhões de pessoas por dia se não houvesse uma mudança de presidentes. Entretanto, no México e no Brasil nada mudou. O que mudou é o fato de que os presidentes do México e do Brasil não podem mais dizer que estão fazendo o que o Trump está fazendo. Agora eles estão sozinhos, e o presidente Bolsonaro está sofrendo uma certa pressão. Recentemente, o Senado brasileiro iniciou uma investigação sobre a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia, e espero que assim haja uma verdadeira prestação de contas sobre o que ele fez e deixou de fazer.

Como os outros países da América do Sul conduziram suas respostas à pandemia?

Marcia Castro Eu não sei os detalhes de como cada país na América do Sul respondeu, mas posso te contar o que eu sei. O Uruguai se antecipou, expandindo o número de leitos de UTI nos hospitais antes do surto do vírus. O Uruguai e a Argentina promoveram políticas de distanciamento social logo no começo da pandemia. O Peru instituiu um lockdown com bastante antecedência, mas como outros países latino-mericanos é bastante desigual. Muitas pessoas não têm uma geladeira em casa, o que levou à disseminação do vírus em supermercados aglomerados. Esse é um exemplo do que acontece quando você tenta fazer a coisa certa, mas ignora as desigualdades locais – suas medidas não vão funcionar. O Chile está vacinando uma grande parte da sua população, mas o país recentemente detectou a presença da variante P.1 e os casos aumentaram novamente. Em toda a América do Sul, podemos ver uma diferença em termos de agilidade e características da resposta à pandemia. Infelizmente, algumas das medidas implementadas não foram efetivas porque elas negligenciaram as desigualdades locais. A América Latina é uma das regiões mais desiguais do mundo. Não podemos cegamente aplicar medidas inspiradas na Europa e em outros países desenvolvidos e esperar que elas funcionem perfeitamente na região.

Como vai a campanha de vacinação no Brasil?

“Pelo que eu sei, os vírus não respeitam fronteiras. [...] os países ricos, que têm os recursos e a tecnologia para produzir vacinas, deveriam estar pensando nisso tudo em uma perspectiva global, e não em uma perspectiva de ‘não está no meu quintal’. ”

Marcia Castro Até agora, 12% da população brasileira recebeu ao menos uma dose da vacina, mas somente 7% das pessoas receberam duas doses. A tragédia é que o Brasil tem um programa nacional de imunização que é visto como bem-sucedido – o país pode vacinar 10 milhões de crianças em um dia contra a poliomielite. Não sei se nenhum outro país é capaz de fazer isso. Quando estávamos sob a ameaça do H1N1 em 2010, o Brasil vacinou 80 milhões de pessoas em três meses. O Brasil sabe como fazer campanhas de vacinação, mas nós simplesmente não temos vacina o suficiente para aplicar nas pessoas. Tivemos a chance de garantir vacinas da Pfizer ano passado, mas Bolsonaro não as quis. Ele recusou a vacina Sputnik porque Trump não queria uma vacina russa, e rejeitou as vacinas chinesas da mesma forma. Tivemos quatro ministros da saúde desde que a pandemia começou, e recentemente Bolsonaro disse que ele pretendia obter vacinas junto à Pfizer e Johnson & Johnson, mas não temos ideia de quando elas vão chegar. Estamos muito atrasados no cronograma . Perdemos a oportunidade de garantir mais doses ano passado e isso foi um grande erro.

Mas o sul global inteiro está ficando para trás no quesito de vacinas. Essa é a geopolítica das vacinas, e eu acredito que é necessária uma grande discussão para abordar isso. Não acho que qualquer país rico possa negar o fato de que há um grande problema geopolítico envolvido. Todos querem vacinar sua população primeiro e só então olhar para o Sul global. Eu diria para os países ricos que eles deviam olhar para o que está acontecendo no Brasil. Podemos ainda testemunhar o surgimento de variantes que são mais transmissíveis e muito mais letais. Pelo que eu sei, os vírus não respeitam fronteiras. A pandemia é uma emergência de saúde global e uma crise humanitária, e os países ricos, que têm os recursos e a tecnologia para produzir vacinas, deveriam estar pensando nisso tudo em uma perspectiva global, e não em uma perspectiva de “não está no meu quintal”.

O Brasil é o seu país natal. Como essa crise está te afetando?

Marcia Castro Eu acabei de escrever um artigo sobre os efeitos da pandemia para expectativa de vida no Brasil, e nunca havia me sentido dessa forma. Já trabalhei com malária, dengue e Zika, mas essa foi a primeira vez que senti raiva – nunca me senti assim antes. É enfurecedor porque eu sei que estou escrevendo sobre algo que poderia ter sido uma história completamente diferente. Os especialistas estão tentando avançar a ciência e obter conhecimento para resolver problemas reais, mas a pessoa no Brasil que poderia usar isso tudo para responder à pandemia se recusa a fazê-lo e não quer dar ouvidos à ciência.

Tenho família no Brasil. Perdi meu pai ano passado – não por covid-19, mas por outro motivo – e viajei para lá porque precisava estar ao lado da minha mãe. Quando eu cheguei, tive que ficar quarentenada. Queria poder abraçá-la, mas não podia. Me preocupo o tempo todo. Meu círculo de pessoas mais próximas foi vacinado, mas minha afilhada, que é como uma filha para mim, está grávida e me deixa muito preocupada. Mas todas essas preocupações poderiam ter sido evitadas. O Brasil deu uma lição para o mundo no enfrentamento da epidemia de HIV/Aids nos anos 1990, e poderíamos estar fazendo o mesmo agora. Eu vou continuar usando minha voz para pressionar por uma resposta baseada na ciência.

Se você fosse uma grande autoridade de saúde no governo brasileiro, assim como o Dr. Fauci nos Estados Unidos (diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas), o que você sugeriria que o governo fizesse?

Marcia Castro O que precisa ser feito? Primeiro, o Brasil precisa impor um lockdown, mas isso precisa ser acompanhado por um auxílio emergencial para as famílias mais vulneráveis. Ao mesmo tempo que fazemos isso, precisamos nos planejar quanto ao que fazer quando os casos diminuírem. Ano passado, quando os casos começaram a cair, o governo não fez nada. O que eles precisam fazer é colocar os nossos agentes de saúde comunitária em ação e treiná-los para conduzir testagem em massa, de forma que eles possam identificar aqueles que estão doentes e isolá-los. Se eles fizessem essas duas coisas, teríamos uma boa chance de evitar outra onda de infecção. Esses agentes podem trazer até informação sobre como prevenir a disseminação de covid-19. É isso que eu faria.

Mas na ausência de uma resposta do governo federal, uma coalizão de governadores e prefeitos está se juntando para tomar o problema sob sua responsabilidade. Juntos, eles governam mais de 60% da população brasileira. Eu apoio seus esforços porque honestamente não podemos ficar sentados e esperar que o governo federal faça algo. Estamos vendo os resultados de cidades que implementaram lockdowns e tiveram vários dias sem registrar uma morte sequer. A investigação no Senado é uma iniciativa para prestar contas, e eles estão dispostos a ouvir a ciência. Acredito que temos esperança no horizonte. Porém, uma coisa que ainda me preocupa é que o Brasil é um país de mais de 200 milhões de pessoas com 5.570 municípios. Há municípios que não fazem parte dessa coalizão e eles podem ficar para trás. Vamos ver o que essa coalizão consegue fazer. É melhor do que a alternativa, ou seja, melhor que nada.

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