Defendendo a ciência em uma era de pós-fatos

Jill Radsken
Livro da professora de Harvard Naomi Oreskes explica por que vale a pena confiar no método científico

Acabando de voltar de um período sabático, Naomi Oreskes publicou “Why Trust Science?” (“Por que confiar na ciência?”, em tradução livre), um livro oportuno ao momento, que examina o valor do processo científico de provar e verificar fatos em uma era na qual ambos estão sob ataque.

Embora a especialização da geóloga que se tornou professora de história da ciência seja em fatores climáticos, ela analisou criticamente pesquisas que tratam desde filtros solares até pílulas anticoncepcionais. Oreskes, que foi coautora ou editora de sete livros e prepara o lançamento de mais um, sobre a oceanografia da Guerra Fria, falou nesta entrevista sobre os cinco pilares necessários para que a ciência seja considerada confiável, o valor evidencial do autorrelato e o seu “red state pledge”.

“Why Trust Science?” é continuação de uma palestra que você deu na Universidade de Princeton há três anos. Por que você buscou trazer esse conteúdo para uma audiência maior?

NAOMI ORESKES Dei mais de 100 palestras sobre as mudanças climáticas ao longo dos anos. No passado, muito do meu trabalho era sobre a história da ciência climática, contando como os cientistas ficaram interessados em saber se os gases de efeito estufa iriam ou não mudar o clima na Terra. Parte da razão para contar essa história era mostrar que nossa preocupação não era um modismo ou simplesmente ansiedade. Era algo que os cientistas vinham acompanhando por um longo tempo. Muitos desses cientistas não eram nem especialistas em meio ambiente, eles eram simplesmente cientistas interessados em entender como o mundo funciona, mas perceberam que aquilo [a mudança climática] poderia ser um potencial problema. Isso tudo aconteceu em um contexto de crescente ceticismo geral quanto à mudança climática, com a população confusa e muitas vezes em negação sobre essa questão.

Como palestrante e professora, sempre tentei levar essas questões a sério, mas, dada a natureza desse tópico, pude perceber que as pessoas reagiam com beligerância e hostilidade. Eu posso quase adivinhar quando uma pergunta beligerante está por vir. E devo dizer que, na minha experiência empírica, quem faz esse tipo de pergunta é sempre homem, tipicamente acima dos 50 anos de idade, e eles se levantam com uma linguagem corporal agressiva. Uma vez, um homem se levantou de uma maneira agressiva, com um tom de voz agressivo, e perguntou: “Tá certo, entendi, mas por que nós deveríamos confiar em você ou na ciência mesmo?”.

Fui para casa naquela noite e pensei: “Pois é, é uma pergunta justa”. Existe uma premissa implícita de que a ciência é confiável, então a minha história cai por terra aos ouvidos de alguém que não confia na ciência. Há mais ou menos cinco anos eu comecei a ter uma discussão mental sobre isso. Logo depois, me convidaram para falar em um TED Talk. Fez bastante sucesso, ainda mais considerando que é um tópico sério e intelectualizado. O público gostou, mas eu senti que um total de 18 minutos, francamente, não era o suficiente para um assunto tão grave. Além disso, o título que o pessoal do TED atribuiu à minha palestra foi “Why Trust Scientists?” (“por que confiar nos cientistas?”). Certo tempo depois, percebi que aquele título não era correto. Não é uma questão de confiar nos cientistas, é sobre confiar na ciência como um processo, um empreendimento, ou uma atividade. Então, quando fui abordada pelos organizadores das Palestras Tanner sobre Valores Humanos [da Universidade de Princeton], já tinha em mente o que dizer.

Você pode falar um pouco sobre como você pensava que sua carreira acadêmica estava te levando num rumo distante de coisas como os TED Talks e as Palestras Tanner?

NAOMI ORESKES Há muitos fatores positivos e importantes no ato de sustentar o empreendimento intelectual e não o deixar guiar por considerações de curto prazo, mas [nesses casos] a vida acadêmica também pode se tornar muito encravada, restrita e preocupada em alcançar as “pessoas certas”. O que isso geralmente significa em um lugar como Harvard é que, se somos convidados para dar uma palestra em Princeton, geralmente dizemos sim. Porém, quando se está trabalhando em um tópico como a mudança climática, Princeton não é o lugar onde você é mais necessário. Precisa-se de você na Universidade Estadual da Dakota do Sul. As pessoas de lá frequentemente terão coisas diferentes para dizer, exatamente porque elas vivem na Dakota do Sul e veem o mundo por uma perspectiva diferente. Você se torna um pesquisador melhor e um ser humano melhor quando se envolve com pessoas que veem o mundo de forma diferente. Desse modo, eu abraço a oportunidade de ir a lugares que outras pessoas podem não abraçar, e assumi para mim algo que chamo de “red state pledge” (compromisso com os estados vermelhos). Isso significa que, se eu for convidada para um estado republicano — popularmente conhecido como um estado vermelho, devido à cor do partido —, farei tudo ao meu alcance para aceitar o convite.

Quando o livro “Merchants of Doubt” foi publicado, nós tínhamos uma editora fantástica, mas, quando chegou a hora de planejar um tour de divulgação do livro, eles só queriam nos mandar para as grandes cidades no litoral americano, onde as pessoas compram e leem muitos livros. Isso é compreensível do ponto de vista financeiro; é um planejamento que faz sentido se seu objetivo é simplesmente vender livros e conseguir que o New York Times escreva uma boa resenha sobre a publicação. No entanto, se a sua meta é alcançar pessoas com uma mensagem que você acredita que elas precisam ouvir, esse é um planejamento incompleto.

Tivemos sorte de as pessoas quererem disseminar o conhecimento de “Merchants of Doubt” quando o livro saiu. Do nada, recebi uma ligação de um repórter de Manhattan chamado Kan. Ele disse: “sim, com certeza [vamos divulgar]”. Kan me arranjou um itinerário de três cidades para fazer um tour de divulgação do livro, passando por Lawrence (Kansas), Manhattan (Nova York) e Hays (Kansas). Hays é aquele típico lugar no interior onde se planta trigo. Depois de dar a palestra ali, eu estava autografando alguns livros e uma mulher me abordou para dizer “que Deus te abençoe por ter vindo a Hays”. Aquele momento resume tudo que eu precisava saber sobre as minhas escolhas. Não vou ganhar um prêmio literário por ir até Hays, no Kansas, mas pude receber outro tipo de prêmio.

No livro você define cinco pilares para pensar sobre como a ciência pode inspirar confiança. Como você chegou a esses pilares?

NAOMI ORESKES Sou uma empirista, não uma teórica. Todo o meu trabalho é baseado em estudar o mundo como ele é, com toda a sua complexidade histórica. Quando eu era cientista, pensava da mesma forma. A transição da ciência para a história foi fácil para mim, porque não envolveu quase nenhum ajuste metodológico ou intelectual. Eu era uma geóloga empírica, e o mundo dentro do campo da geologia é realmente complicado. A teoria tem o seu papel, no sentido de que os conhecimentos teóricos da física, química ou biologia limitam as possibilidades do que pode estar acontecendo na Terra, mas não se pode deduzir processos geológicos puramente a partir das leis da física ou da química. Há um limite do quão longe a teoria pode te levar no campo da geologia. No fim das contas, para entender a Terra você precisa sair mundo afora, observá-la e estudá-la. Minha perspectiva sobre história é a mesma.

Sou bem empírica: não assumo que sei a estrutura de algo antes de estudar. Ao longo de 100 a 150 anos, muitas pessoas inteligentes refletiram muito sobre o que faz da ciência a ciência. Tentaram buscar uma única resposta. Essencialmente, meu argumento é: não há uma única resposta. Deixar de lado a noção de que há tão somente uma resposta pode ser difícil em uma cultura derivada do eurocentrismo. Diferentemente da política ou de relacionamentos humanos, a ciência é uma história de sucesso, então precisamos de uma narrativa que ao mesmo tempo aborda sua aparente complexidade e explica sua eficácia. Não comecei com a ideia de que haveria cinco elementos, mas foi aí que cheguei: consenso, diversidade, método, evidência e valores.

Você critica um autor por taxar o autorrelato como uma prática de ciência “duvidosa”. Você poderia falar sobre isso?

NAOMI ORESKES A rejeição do autorrelato é um grande problema na medicina. É uma das razões por que as queixas das mulheres não têm sido levadas a sério. Mas elas deveriam. Se uma paciente vai a um médico e diz: “eu estou deprimida e tenho me sentido assim desde que comecei a usar esse remédio”, isso é evidência. Pode não ser um ensaio de controle randomizado, mas ainda assim é evidência. O autor em questão recapitulou o caso [do remédio] e reafirmou esse equívoco, dizendo que estudos passados estavam certos em rejeitar autorrelatos por os considerarem ciência duvidosa. Acredito que isso está errado.

É aí também que se torna um assunto pessoal para mim, porque comecei a sentir sintomas depressivos ao tomar pílulas anticoncepcionais. Sou bem direta e honesta em relação a isso. Tive muita sorte, porque meu médico não rejeitou meu autorrelato. Parei de usar as pílulas e tive uma melhora quase imediata. Contudo, imagine só a trajetória terrível que alguém pode seguir, até tendo que usar medicações antidepressivas, por causa de hormônios contraceptivos.

Depois de escrever “Why Trust Science?”, li as memórias de Hilary Mantel no livro “Giving Up the Ghost” (“Abandonando o fantasma”). Ela passou 20 anos de sua vida sofrendo, ouvindo que sua dor era psicossomática, sendo medicada com drogas antidepressivas que a faziam engordar e trouxeram uma vasta série de outros efeitos colaterais. Acontece que ela teve endometriose sistêmica, que pode se espalhar para além dos órgãos reprodutivos. Ela passou uma grande parte do seu tempo sofrendo de dores físicas que seus médicos estavam negligenciando e tratando erroneamente. É muito assustador. Faz com que nós pensemos em quantas pessoas mundo afora estão sofrendo por conta de diagnósticos incorretos, porque os médicos não levaram a sério seus autorrelatos, porque autorrelatos “não são evidência de verdade”. Uma coisa que a história nos ensina é que as pessoas por vezes rejeitam evidências porque elas não se encaixam em alguma noção delas do que realmente conta como evidência, e muitas vezes esse julgamento está incorreto.

Em um capítulo sobre casos em que a ciência é feita de maneira incorreta, você cita pesquisas provocativas sobre fio dental e filtro solar que tiveram grande repercussão na mídia. Qual é o papel da mídia em definir o que é ciência confiável?

NAOMI ORESKES Uma coisa que acontece na mídia é o desejo de ser diferente, de noticiar algo surpreendente e inesperado. Um artigo na revista Outside que alegava que filtro solar faz mal para nós tinha um tom contrariante, de “está vendo agora?”, que até sugeria satisfação em noticiar algo ruim. O texto também seguia aquele clichê do cientista renegado que no final estava certo. Bem, às vezes os renegados estão certos, mas na maioria dos casos eles são só renegados.

Os editores da Outside acreditam que estar ao ar livre é bom para você, e eu também. Estar ao ar livre é bom para a sua saúde em geral, mas isso não significa que é bom sofrer uma queimadura de sol, especialmente se você é uma pessoa muito pálida vivendo em um lugar bem ensolarado. Se você pensar sobre as pessoas que vivem originalmente nesse tipo de clima, elas tipicamente têm pele negra ou algum tipo de adaptação que as protege desse tipo de dano à saúde. De certa forma, o filtro solar serve como uma adaptação às pessoas de pele mais pálida. Além disso, existe um grande volume de dados que dizem que usar filtro solar é benéfico. Entretanto, a reportagem da revista foi publicada com uma alegação baseada em um estudo muito pequeno e outro estudo maior que ainda não havia sido publicado. Isso tudo foi um jornalismo muito irresponsável.

Essa ideia de se satisfazer ao noticiar algo negativo certamente estava em jogo na publicação sobre fio dental. O artigo alegava que havia pouca evidência “sólida” para suportar a ideia de que usar fio dental é bom para sua saúde. O jornalista que o escreveu estava certamente muito contente com seu trabalho, como se ele tivesse desmascarado uma grande conspiração do fio dental.

Se você sabe alguma coisa sobre ciência, você consegue entender por que nós não temos nenhum estudo decente sobre o uso de fio dental. Em um estudo sobre esse tema, é impossível evitar que ambos os pesquisadores e os participantes tenham conhecimento do grupo amostral ao qual um participante pertence (placebo ou tratamento, em um esquema “double-blind”). Na maioria dos casos, é até mesmo difícil fazer com que as pessoas usem fio dental. Este é o ponto: ninguém gosta de ter que usar fio. Assim, pode ser muito satisfatório concluir que ele não faz bem. O fato é que dentistas não são idiotas; eles tratam de dentes todos os dias e percebem que as pessoas que passam fio dental têm gengivas mais saudáveis que aquelas que não passam. Isso é evidência. Como poderíamos descartá-la?

Como a ciência pode ser isenta de valores?

NAOMI ORESKES Ela não é! Todas as pessoas têm valores, e nós sempre teremos valores. Fazemos o que fazemos porque nos importamos com algo. E isso é positivo. Se você tivesse cientistas sem valores, seria assustador. Este é o mito do Frankenstein: o argumento da autora Mary Shelley’s de que, se você deixar a ciência seguir descontrolada, sem pensar nas consequências morais de suas ações, você obtém um monstro. O que as pessoas às vezes se esquecem é que o Frankenstein é um médico, um cientista. O monstro que ele cria é chamado de Monstro, mas o ponto do livro é que a própria ciência é o monstro da história. Nós não chegamos nem perto de abordar esse tópico o suficiente nas salas de aula ou em nossas pesquisas. Como uma questão séria na prática da ciência, quais são os valores orientando a ciência? Eles são bons ou ruins? Acredito que é uma conversa que precisamos ter.

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