Como cientistas brasileiras se organizam em defesa da vida das mulheres e da ciência na pandemia

Ana Beatriz Miraglia
Rede Brasileira de Mulheres Cientistas se mobiliza pela questão de gênero nas políticas públicas e pela produção científica nacional

A pandemia do novo coronavírus agravou desigualdades históricas em diversos contextos e grupos, causando, entre outros problemas, o aumento das disparidades de gênero.

Diante desse cenário, pesquisadoras de todo país lançaram em abril a Rede Brasileira de Mulheres Cientistas. A iniciativa tem como objetivo pautar o debate público sobre a importância das políticas para as mulheres, e visa oferecer propostas e alternativas voltadas a melhorar a condição de vida e o bem-estar desse grupo em meio a crise sanitária.

A Rede conta com um comitê executivo e já agrega mais de 3.500 pesquisadoras de diversas áreas do conhecimento e de diferentes regiões do país. Entre as propostas da articulação estão a produção de cartilhas, protocolos e suporte técnico que subsidiem políticas públicas com foco nas demandas das mulheres.

O Nexo Políticas Públicas conversou por e-mail, no final de abril de 2021, com as professoras de ciência política Luciana Tatagiba da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Vanessa Elias de Oliveira da UFABC (Universidade Federal do ABC). As pesquisadoras, que fazem parte do comitê executivo da Rede, contam como surgiu a iniciativa, seus objetivos e desafios.

Qual foi a principal motivação para criar a Rede nesse momento?

Oliveira e Tatagiba A criação da Rede surge a partir de uma profunda angústia com o agravamento da crise sanitária e a resposta negligente e criminosa do Executivo federal. Como afirmamos na nossa carta, ao afrontar a ciência e desprezar a vida da população brasileira, o governo coloca em risco a vida daqueles que têm por dever proteger. Não precisamos aqui enumerar os crimes cometidos pelo governo no trato à pandemia. Há um ano os jornais os noticiam e em breve, assim esperamos, a CPI da covid-19 vai esmiuçá-los. E aqui nos referimos não só ao trágico número de mortes decorrentes da covid-19 e que poderiam ter sido evitadas, mas também das mortes e sofrimento resultantes do agravamento das condições econômicas e sociais, diante da completa ausência de políticas públicas.

Como mulheres cientistas, definimos como nosso foco de intervenção a condição de vida das mulheres na pandemia. Sabemos que são elas, muitas vezes na condição de chefes de família, as mais afetadas por essa crise humanitária já que tradicionalmente a elas cabe o cuidado com as crianças, idosos e enfermos. Para conseguir cumprir esse papel, nesse contexto tão adversos, muitas tiveram que se retirar do mercado de trabalho e não encontram qualquer apoio governamental para proteger e cuidar de suas famílias. Além disso, como se tem dito, a violência doméstica contra as mulheres é uma pandemia dentro da pandemia. Os números são alarmantes. Essa situação é ainda mais grave no caso das mulheres que vivem em uma condição de vulnerabilidade socioeconômica. Por exemplo, mulheres negras, moradoras de periferia, indígenas, quilombolas, LGBTQIA+, dentre outras.

Nossa Rede foi criada para exigir que o Estado assuma o seu papel e que o faça a partir de uma perspectiva de gênero. Mas, não só isso. Queremos principalmente oferecer propostas e alternativas voltadas a melhorar a condição de vida das mulheres na pandemia.

A gente não pretende produzir conhecimento novo. Esse conhecimento já existe. Temos um vasto conjunto de mulheres que dedicaram suas vidas à pesquisa, em diferentes campos do conhecimento. Queremos articular essas respostas e mostrar que esse conhecimento pode ser útil na construção de alternativas para lidar com essa crise sanitária e seus efeitos.

Quais serão as principais ações da Rede?

Oliveira e Tatagiba A Rede tem por objetivo principal colocar a importância das políticas públicas para as mulheres no centro do debate público. Gestores públicos, políticos e atores do sistema de justiça devem reconhecer a importância desse olhar específico para as necessidades das mulheres, que são as que mais sofrem com a falta de empregos, com a insegurança alimentar, com o fechamento das escolas e tudo o que isso significa para as mães trabalhadoras e assim por diante. Pautar o debate público sobre a importância das políticas para as mulheres é nosso objetivo principal.

Além disso, contamos na rede com pesquisadoras das diversas áreas do conhecimento. Buscaremos articular a expertise das cientistas para a produção de relatórios, protocolos e suporte técnico que subsidiem as políticas públicas que são necessárias para atender as demandas das mulheres. Essas políticas se concentram nos 6 eixos que apresentamos em nossa carta: saúde, violência, educação, assistência social e segurança alimentar, trabalho e emprego, moradia e mobilidade.

Nosso objetivo é que nossas ações também contribuam para os grupos da sociedade civil que estão desde o começo da pandemia mobilizando seus recursos nos seus territórios para garantir as condições de vida da população. Nos colocamos como apoio a essas redes e movimentos, a partir do conhecimento que temos produzido na academia.

Cientistas mulheres sofrem discriminação no ambiente acadêmico? Como essa discriminação se manifesta?

Oliveira e Tatagiba Recentemente organizamos, junto com as colegas Carla Almeida (Universidade Estadual de Maringá), Cristina Buarque (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e Flávia Biroli (Universidade de Brasília), o livro “Mulheres, Poder e Ciência Política. Debates e Trajetórias” que discutiu esse tema da sub-representação das mulheres na política e na ciência, a partir de um olhar específico da ciência política. Os textos mostram muito claramente que existe não só sub-representação, na política e na ciência, mas também muita discriminação e misoginia. Infelizmente, esse quadro está longe de ser uma especificidade da área de ciência política.

As mulheres são a minoria nos cargos de chefia nas universidades públicas e privadas do país, são as que menos detém recursos de financiamento à pesquisa e, em algumas áreas, são a minoria em termos de autoria de artigos científicos. E isso acontece no Brasil, apesar do fato de mais de 70% da produção científica ser feminina, segundo dados da Organização dos Estados Ibero-Americanos.

Nossas colegas também têm sido perseguidas em razão dos seus temas de pesquisa. Esse é o caso, principalmente, das pesquisadoras da área de gênero e sexualidade, mas atinge também mulheres que estudam populações rurais, indígenas e quilombolas e temas sensíveis envolvendo conflitos ambientais. Muitas tiveram que se exilar por ameaças de mortes sofridas, enquanto outras tiveram que reduzir sua participação no debate público, para protegerem a si e suas famílias.

A pandemia agravou essa situação? De quais maneiras?

Oliveira e Tatagiba A pandemia piorou a condição das mulheres em geral, e por isso a criação da Rede. E com as mulheres cientistas não é diferente. Elas assumem mais as tarefas domésticas e de cuidados (filhos, idosos e pessoas com deficiência), o que afeta diretamente seu envolvimento com o trabalho científico, que demanda tempo e concentração. O trabalho em casa, pelo modo virtual, é frequentemente interrompido pelas demandas da casa e da família. Em pesquisa que sairá publicada em breve (autoras: Márcia Rangel, Danusa Marques, Vanessa Elias de Oliveira e Flávia Biroli), demonstramos como as cientistas sociais brasileiras foram mais afetadas em sua rotina de trabalho do que os pesquisadores homens, e as mulheres negras ainda mais; elas usam mais do seu tempo em trabalhos domésticos, produziram menos durante os primeiros meses da pandemia e tiveram seu trabalho prejudicado em função das questões de cuidado. Pesquisas do Parent in Science também demonstram os problemas enfrentados pelas cientistas de diferentes áreas durante a pandemia.

Essa é uma rede que reúne pesquisadoras de diversas áreas. Qual a importância da colaboração entre as diferentes disciplinas?

Oliveira e Tatagiba Não só de diversas áreas, mas também de diferentes regiões do país, o que consideramos também muito positivo, diante da concentração da produção científica na região sudeste.

Mas, especificamente sobre sua pergunta, a pandemia tem efeitos múltiplos e complexos sobre a sociedade em geral e sobre a vida das mulheres em particular. Não é apenas uma questão de saúde pública. Considerando a complexidade do fenômeno, que envolve questões sociais, econômicas e de saúde, apenas um olhar interdisciplinar é capaz de apresentar as respostas necessárias aos problemas gerados pela covid-19.

A Rede busca articular os diversos conhecimentos produzidos pela ciência brasileira, que é uma ciência de ponta, apesar dos cortes constantes de suas fontes de financiamento. Produzimos conhecimentos relevantes nas três grandes áreas do conhecimento (exatas, humanas e biológicas), com potencial para gerar impacto social, mas eles precisam ser articulados para o enfrentamento dos efeitos da pandemia – e, na verdade, para o enfrentamento da maioria dos problemas sociais complexos.

Nesse sentido, consideramos o surgimento dessa Rede como um momento importante para a ciência brasileira. Nela estão reunidas mulheres das áreas de exatas, ciências da vida e ciências humanas e sociais que se juntaram com um mesmo objetivo, e que estão aprendendo a articular seus saberes e expertises. Esse já é um resultado muito auspicioso da Rede.

Mas, é como dissemos, é um aprendizado que traz também importantes desafios para a gestão da Rede. O comitê executivo da Rede está agora com esse desafio, dar conta dessa pluralidade em um modelo de gestão que seja territorialmente descentralizado e orientado para transformar toda essa potência, que só a pluralidade traz, em propostas concretas para a melhoria da vida das mulheres na pandemia.

Por fim, temos a esperança de que a Rede contribua para um processo que já está em curso que é pensar a atividade acadêmica sob bases mais solidárias. Esperamos que essa congregação de áreas e saberes diversos, voltados para um único objetivo, inspire as cientistas em formação.

Quais são as consequências dos cortes de financiamento impostos às universidades e à pesquisa científica? E quais as consequências para as mulheres em particular?

Oliveira e Tatagiba Sabemos que o anti-intelectualismo e o corte de recursos para ciência e tecnologia andam de mãos dadas. O desprezo desse governo pelo conhecimento científico em geral, e os ataques às humanidades em particular, é não apenas aviltante, mas coloca em risco o desenvolvimento nacional. Sem investimentos na ciência e na tecnologia seremos condenados a uma condição de subalternidade. Em diversos setores da economia o prejuízo já é evidente, e o preço a pagar será ainda maior no médio e longo prazo.

Temos hoje uma situação de desmonte do sistema nacional de ciência e tecnologia, que se evidencia, dentre outros fatores, no corte de bolsas de estudos, da iniciação científica ao pós-doutorado. Jovens cientistas em formação vivem uma situação de profunda incerteza. Os que podem estão saindo do país, para desenvolverem suas pesquisas em centros de pesquisa no exterior. Essa evasão de cérebros impacta diretamente o desenvolvimento de agendas de pesquisa em curso nas universidades brasileiras. Os que não têm essa oportunidade, estão aos trancos e barrancos buscando compatibilizar a pesquisa com algum tipo de trabalho remunerado, enquanto outros simplesmente desistem de seguir nos estudos. Para os alunos de baixa renda, muitos deles os primeiros de suas famílias a ingressarem na universidade, essa situação tem gerado muita frustração. Todos nós, docentes, temos acompanhado isso. Sem contar nos doutores que formamos, e que hoje não encontram colocação no mercado de trabalho.

No caso das mulheres, em particular, essa situação significa um retrocesso ainda mais forte. Nas últimas duas décadas, as mulheres têm ocupado mais espaço na academia, em diferentes áreas do conhecimento, mesmo que ainda em condições desiguais. Esse aumento da presença das mulheres trouxe para a discussão questões que impactam diretamente a trajetória das mulheres cientistas – por exemplo, o desafio de compatibilizar o cuidado com a família, que ainda recai sobre os seus ombros, com o tempo a ser dedicado à pesquisa; ou mesmo o assédio sexual no ambiente acadêmico, hoje muito mais visível e debatido. Esse aumento da participação das mulheres veio acompanhado de políticas específicas, como por exemplo, a extensão do prazo das bolsas de estudos no caso das mulheres grávidas; e as políticas específicas voltados a estimular a presença das mulheres nas áreas de ciências exatas.

O corte de recursos públicos para a ciência representa um duro golpe nesse processo. Sem apoio fica ainda mais difícil para as mulheres seguirem sua formação na academia. Este projeto de destruição da ciência nacional, somado aos impactos da pandemia, certamente irá repercutir na queda da participação das mulheres na produção intelectual qualificada nacional e na diminuição de sua presença nos cursos de mestrado e doutorado.

Apesar de tudo isso, como pesquisadoras e docentes temos o enorme desafio de seguir estimulando nossas jovens e promissoras pesquisadoras a seguirem adiante no seu sonho de contribuírem com o desenvolvimento brasileiro, a partir de seu lugar na academia. Não está sendo fácil. Mas, não vamos desistir.

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