A chave para combater o racismo: torne-o uma questão pessoal

John Laidler
‘Nada vai mudar até que comecemos a falar, até que nos tornemos socialmente conectados uns com os outros’, disse Robert Livingston, professor de políticas públicas da Harvard Kennedy School

O psicólogo social Robert Livingston passou décadas estudando o racismo e orientando empresas e organizações sem fins lucrativos a enfrentá-lo nos seus ambientes de trabalho. No seu novo livro, “A conversa: como buscar e falar a verdade sobre o racismo pode transformar radicalmente indivíduos e organizações”, o professor de políticas públicas da Harvard Kennedy School argumenta que o racismo pode ser combatido por meio de um diálogo construtivo. Nesta entrevista, o pesquisador fala sobre o que alimenta seu otimismo e como as pessoas podem ajudar a construir mudanças significativas sobre esse tema.

Por que o diálogo é tão primordial para aumentar a igualdade racial?

Robert Livingston Bem no início da minha carreira, pensei que poderíamos mudar a mente das pessoas, quem sabe até o coração, fornecendo-lhes apenas informações qualificadas. Com mais sabedoria, que acumulei ao longo dos 20 anos em que tenho feito este trabalho, descobri que as relações sociais abrem um canal para que os fatos sejam recebidos e digeridos pelas pessoas. Sem esse canal, muitas vezes as pessoas constroem muros para isolar o que atualmente acreditam ser a verdade. Acho que os relacionamentos fornecem um espaço dentro desses muros para que uma perspectiva diferente talvez possa entrar.

Quais são alguns exemplos disso?

Robert Livingston Um exemplo empírico é um estudo da década de 1950 envolvendo um grupo de mulheres que eram voluntárias servindo refeições para pessoas necessitadas na Cruz Vermelha. Os pesquisadores queriam convencer as mulheres a servirem mais carne de órgãos — como coração, rins, fígados — e forneceram a elas informações sobre o valor nutricional desses alimentos. Havia dois grupos de mulheres. Ambos receberam as mesmas informações, mas um grupo foi autorizado a falar sobre o assunto entre si. O estudo descobriu que o grupo que falava sobre a informação nutricional começou a servir 10 vezes mais carne de órgãos do que o outro grupo. Para mim, o estudo demonstra o poder do diálogo , o que acontece quando você tem a informação e adiciona a conexão humana. É o que Bryan Stevenson chama de proximidade: o fator de relacionamento humano tem muito mais probabilidade de resultar em uma mudança real na forma como as pessoas veem o mundo, como elas fazem as coisas ou se comportam.

Um exemplo pessoal foi um workshop que dei a um grupo de policiais. Forneci todos os tipos de informações a eles, dados concretos sobre preconceito na sociedade, preconceito em suas próprias mentes, incluindo um estudo de câmera corporal, em que se descobriu que para o mesmo crime os policiais tratavam os infratores brancos de maneira diferente de infratores negros. Durante a apresentação, o único policial negro do departamento desabou emocionalmente, porque tudo isso realmente o impactou. Foi só nesse momento que os policiais brancos começaram a prestar atenção e acreditar de verdade no racismo. Eu pensei: é realmente irracional que eles estejam sendo convencidos pela [história de um único policial] e não pela multidão de evidências que mostram as mesmas coisas. Foi então que pensei: “Ah, eles são pessoas, não computadores”. Os computadores respondem à entrada de dados, mas as pessoas respondem às pessoas. Nada vai mudar até que comecemos a conversar, até que nos tornemos socialmente conectados uns com os outros. Precisamos ter conversas, mas elas também devem ser baseadas em fatos, não em caprichos ou noções infundadas.

Por que falar sobre racismo é difícil para tantas pessoas?

Robert Livingston Acho que existem três razões para isso. Uma é que [falar sobre racismo] não é confortável, o que significa que para algumas pessoas não é uma coisa agradável de se fazer. Outra é que muitas pessoas, principalmente pessoas brancas, têm medo de dizer coisas erradas, por isso não sabem como ter uma conversa sobre o assunto. O terceiro fator é que algumas pessoas simplesmente não se importam. No meu livro, faço uma distinção entre o que chamo de “avestruzes” e “tubarões”. Avestruzes são pessoas que querem enterrar a cabeça na areia e simplesmente ignorar a verdade. Os tubarões sabem da verdade, mas seu trabalho é dominar e tirar proveito da situação. Para esses, a conversa que tem por objetivo retificar as injustiças que existem atualmente não tem utilidade. Pois, se você é a favor das injustiças, porque seu objetivo é criar uma hierarquia racial em que você está no topo, falar sobre isso é perda de tempo.

Como romper com essas barreiras?

Robert Livingston Vou começar com o desconforto. As pessoas têm medo do conflito nesse tipo de conversa. Mas a pesquisa mostrou que o conflito pode ser realmente produtivo se for o tipo certo de conflito. Há o conflito baseado em tarefas, que é quando as pessoas discordam sobre o melhor curso de ação., e o conflito baseado na pessoa, que é quando você diz: "Acho que você é um idiota por [argumentar esse ponto de vista]". Tente se concentrar no problema e não na pessoa em si. A segunda coisa é conversar com curiosidade e não com certezas. A pesquisa também mostra que é muito mais produtivo estar no que é chamado de “modo de investigação” do que no modo de advocacy. O que você está tentando fazer nessas conversas é descobrir qual é a verdade — fazendo perguntas — ou descobrir um espaço em comum. E você não pode fazer isso se estiver profundamente preso em suas próprias convicções ou posição ideológica.

Como você motiva as empresas e organizações a verem como uma tarefa essencial a erradicação da injustiça racial?

Robert Livingston Não é meu trabalho convencê-las de que isso é algo que elas deveriam fazer. O que estou procurando fazer é ajudar as empresas que desejam uma transformação muito significativa a realmente ter sucesso nessa mudança. E por que as empresas deveriam fazer isso? Porque é parte de sua missão ou valores fundamentais. Muitas empresas têm missões e valores essenciais que dizem: “Somos uma empresa inclusiva que acolhe a todos”, mas daí elas percebem que não estão cumprindo seus ideais. [Erradicar a injustiça racial] também pode ser bom para os negócios — embora eu recomende que as empresas não coloquem todas as fichas aqui. A terceira motivação é o interesse coletivo: se tivermos maior justiça social, todos terão melhor qualidade de vida.

Inevitavelmente, o progresso na justiça racial e social leva a reações de oposição. Estamos neste momento agora. Qual é a melhor forma de responder a isso?

Robert Livingston A primeira coisa é compreender que nem todos desejam justiça social. Eu aludi a isso com minha metáfora do tubarão, que mostra que existem algumas pessoas altamente engajadas em manter a desigualdade. Portanto, para alguns, haverá uma reação de oposição. Há também algumas pessoas que são apáticas. Essas não investem nem na justiça nem na injustiça. São como pessoas indecisas. O terceiro tipo são pessoas profundamente engajadas na justiça social. Parte do desafio é neutralizar a porcentagem relativamente pequena de tubarões. Acho que o que aconteceu é que as normas sociais foram alteradas de tal forma que o grupo de tubarões atraiu uma grande quantidade de pessoas do tipo apáticas. Em tempos de justiça, coloque os indecisos do lado dos que são pró-justiça. Mas nos dias de hoje eles dizem: OK, estamos com o pessoal da injustiça. Ajustar o comportamento pode exigir abordagens diferentes para pessoas diferentes, usando incentivos positivos, incentivos de punição, ou apelando para seu lado moral, dependendo de quão engajado a favor da justiça alguém está.

Outra abordagem é estabelecer normas culturais mais fortes sobre o que é apropriado e inapropriado — acho que o que realmente piorou nos últimos anos são essas normas sociais.

A terceira estratégia é estabelecer políticas reais com punições reais que responsabilizem as pessoas por comportamentos contrários às normas estabelecidas ou às leis vigentes. Atacar o prédio do Capitólio, em Washington, era ilegal, independentemente de como as pessoas percebiam ou concordavam com as normas, então os infratores serão responsabilizados.

Após este ano de reavaliação da questão racial, muitas pessoas desejam sinceramente fazer algo contra o racismo, mas não sabem por onde começar. O que você aconselha?

Robert Livingston A primeira coisa que as pessoas podem fazer é ter um entendimento mais profundo sobre o problema, da mesma forma que um médico faria para ter um diagnóstico mais preciso. Muitas pessoas não querem fazer isso, porque leva muito tempo e elas querem uma solução rápida. Ou, como alguns pacientes, elas estão confiantes demais ao presumir que já entendem bem o problema. A segunda coisa é que precisamos de um pouco de autodiagnóstico para entender: “Como estou contribuindo para o sistema atual, e qual é o meu nível de preocupação?” Para as pessoas brancas, o racismo apresenta um dilema de compensações que elas devem administrar.

Vou usar uma analogia com um avião para explicar o que quero dizer. Um estudo realizado por Michael Norton mostrou que as pessoas ficam mais raivosas em aviões onde os passageiros da classe econômica precisam caminhar pela primeira classe, porque eles se sentem humilhados e diminuídos. Voar na primeira classe, portanto, cria um dilema para mim.

O racismo, por definição, dá a você privilégios indevidos da mesma forma que andar de primeira classe lhe dá conforto, enquanto fere outras pessoas. Portanto, é um dilema para os brancos. As pessoas dizem: “Eu realmente não quero fortalecer o racismo, mas também não quero abrir mão do meu lugar na primeira classe”. Se você quer uma mudança, terá que lutar para que isso aconteça em seu próprio coração e alma.

O terceiro passo é realmente focar nos comportamentos e não nas atitudes. Às vezes, as pessoas dão muita ênfase ao preconceito implícito. O que realmente importa é sua ação [perante o racismo] e não a atitude implícita sobre isso.

A última coisa é focar na mudança das nossas normas sociais e da política institucional. Quando você vir o racismo ocorrendo, faça algo. Fale. Isso é o que mudará a norma. E por meio do ativismo ou da escolha eleitoral, por exemplo, você também pode impactar políticas maiores.

Você vem defendendo a igualdade racial há muitos anos. O que te traz otimismo neste momento?

Robert Livingston Acho que é importante perceber que, falando factualmente, o racismo é um problema solucionável. A questão então é: o racismo será realmente resolvido? Meu trabalho, e o que me dá otimismo, é ajudar a mover o racismo de um problema solucionável para um problema resolvido. Qual é o processo, a jornada pela qual podemos movê-lo de solucionável, que é uma verdade objetiva, para resolvido, que é um resultado incerto que pode ou não chegar? Acho que a resposta está em nossas mãos como pessoas. Isso não é um otimismo bobo. É um fato. A questão é como fazer isso. É nisso que meu livro se concentra. A questão final é se vamos fazer isso ou não, resta ver. Mas é isto que me dá otimismo: saber que isso pode ser feito.

Leia mais

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeGEMAADRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUT