Como cientistas se mobilizam pela vacinação contra a covid

Mariana Vick
Coordenada pela Fapesp, campanha ‘#VacinaSim’ reúne pesquisadores para incentivar população a confiar na ciência e lembrar dos benefícios coletivos da imunização em massa

A campanha #VacinaSim, criada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) com o início da imunização no país contra a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, reúne cientistas e formadores de opinião para conscientizar as pessoas sobre a importância da vacinação para erradicar a pandemia.

A iniciativa vem sendo divulgada em vídeos nas redes sociais da Fapesp e conta com a participação de pesquisadores de diversas áreas além da saúde. A campanha incentiva as pessoas a confiar na ciência por trás das vacinas e enfatiza que, mais que uma iniciativa de proteção individual, vacinar-se é uma ação de cidadania.

Os cientistas que participam da campanha incluem Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Ester Sabino, professora da USP (Universidade de São Paulo), Alicia Kowaltowski, professora da USP e colunista do Nexo, e Carlos Joly, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e coordenador do BIOTA/FAPESP, um dos parceiros do Nexo Políticas Públicas.

A campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil começou em 17 de janeiro, com a aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) da Coronavac, vacina produzida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e da vacina de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca, fabricada no país pela Fiocruz.

A Fapesp afirma, em nota, que o único antídoto que pode erradicar o novo coronavírus é a vacinação. “Para que produzam seus efeitos de proteção individual e coletiva, as vacinas precisam ser aplicadas rapidamente a grande parcela da população”, segundo o texto publicado em 19 de janeiro.

A professora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP Ester Sabino afirmou ao Nexo Políticas Públicas que “falar da vacinação é extremamente importante”. “É quase uma defesa da ciência. Uma forma de defesa de tudo que a ciência fez e que melhorou a vida das pessoas”, disse.

A pandemia do novo coronavírus, declarada em março de 2020 pela OMS (Organização Mundial da Saúde), resultou em 8,9 milhões de infecções e mais de 218 mil mortes no Brasil até terça-feira (27). O total de vacinados no país contra a covid-19 era de 840 mil pessoas até a mesma data.

Qual a importância da vacinação

A vacinação, além de ser importante para aqueles que se vacinam e correm menos riscos de desenvolver a covid-19 — ou formas graves da doença —, ajuda a sociedade a erradicar a pandemia, pois, com uma cobertura vacinal ampla, o vírus deixa de circular entre a população.

“Com o tempo, quanto mais você aumenta o número de pessoas vacinadas, o vírus vai deixando de achar [meios para se transmitir]. Mesmo que algumas que não estejam vacinadas se infectem, elas não conseguem transmitir para outras, e assim se protege o coletivo”

Ester Sabino

professora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP, em entrevista ao Nexo Políticas Públicas

A vacinação em massa é responsável, em outras palavras, por criar a chamada imunidade de rebanho, que indica que uma proporção alta da população está imunizada contra o vírus. Por esse motivo, pesquisadores afirmam que a vacinação não é uma questão individual, mas de responsabilidade coletiva.

Quem se vacina protege não só a si mesmo, mas as pessoas ao seu redor, especialmente aquelas que não se vacinaram — como pessoas alérgicas, que não podem receber imunizantes. No caso da covid-19, crianças, adolescentes e gestantes ainda não podem ser vacinados porque as vacinas disponíveis no Brasil não foram testadas para esses grupos. Eles dependem da imunidade coletiva para se proteger.

Quem se vacina protege também quem se vacinou, mas não conquistou a imunidade — afinal, nenhuma vacina é 100% eficaz. Em uma população em que 95% das pessoas foram vacinadas, uma pequena parcela de até 5% pode não estar protegida, segundo pesquisadores.

A ciência ainda não sabe se as vacinas contra a covid-19 são capazes de impedir a transmissão do novo coronavírus, embora sejam eficazes para evitar que as pessoas vacinadas desenvolvam formas moderadas ou graves da doença. Em Israel, porém, dados iniciais mostram que, depois do início da vacinação, as infecções diminuíram significativamente.

Ainda assim, com a redução de casos moderados e graves da doença, a vacinação tende a ter impacto sobre a pandemia. O número de doentes e mortos diminuirá, e não haverá mais tanta pressão sobre os sistemas de saúde. Com controle do vírus, será possível retomar com mais segurança atividades como aulas presenciais, eventos culturais e o funcionamento normal da economia.

Qual o estado da vacinação no país

A campanha de vacinação começou mais tarde no Brasil do que em dezenas de outros países e, após algumas semanas, passa por problemas como escassez de doses, de insumos para a produção de novas vacinas e falta de coordenação da aplicação dos imunizantes disponíveis.

Inicialmente, ficaram disponíveis 6 milhões de doses da Coronavac, que são suficientes para vacinar 3 milhões de brasileiros, já que o imunizante é aplicado em regime de duas doses. Na sexta-feira (22), a Índia enviou ao país outras 2 milhões de doses da vacina de Oxford e a Anvisa aprovou um novo lote de mais 4,1 milhões de doses da Coronavac.

A quantidade de doses disponíveis hoje não é suficiente para vacinar os grupos prioritários definidos no Plano Nacional de Imunização contra a covid-19. Os grupos que fazem parte da fase 1 da campanha, que originalmente somam mais de 8 milhões de pessoas, tiveram que ser redefinidos nos estados.

A primeira fase da vacinação contra a covid-19 inclui hoje profissionais de saúde da linha de frente contra a covid-19, idosos institucionalizados, como os que vivem em casas de repouso, e indígenas aldeados.

A produção local de vacinas é uma solução para superar a escassez de doses, mas o início da fabricação dos imunizantes no país enfrenta outro entrave — a falta de insumos necessários para a produção, que são importados da China. A importação dos produtos está atrasada por impasses internos do país asiático e erros da diplomacia brasileira.

“Até pouco tempo, o governo tinha uma atuação negacionista em relação a vacinas”, segundo Ester Sabino. “Acredito que só no momento em que a população exigiu, e que o governo percebeu que iria perder popularidade, houve uma mudança de ideia e de estratégia.”

O Ministério da Saúde negocia com a China a chegada dos insumos. O país asiático anunciou na terça-feira (26) que deve enviá-los no dia 3 de fevereiro. Com a escassez, outra medida cogitada é adiar a aplicação da segunda dose das vacinas, para usar todos os itens disponíveis e ampliar o número de pessoas imunizadas com o primeiro lote.

Outra iniciativa

A campanha “Todos pelas vacinas” também reúne a comunidade científica em ações de incentivo à imunização contra o novo coronavírus, com o objetivo de promover conscientização sobre as vacinas e combater a desinformação em torno do tema.

A iniciativa tem um portal que agrega materiais em vários formatos — textos, áudio, imagens e vídeos — para serem compartilhados nas redes sociais. O site também inclui um ambiente virtual para envio de dúvidas sobre a imunização contra a covid-19.

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