Como a pandemia freia os esforços para combater outros problemas globais de saúde

Alvin Powell
A reitora da Escola de Saúde Pública T. C. Chan da Universidade de Harvard, Michelle Williams, detalha a necessidade de uma ‘agenda de ação’ no governo de Joe Biden

Em meio à pandemia de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, é fácil esquecer que uma série de graves problemas de saúde globais de longa data continuam aqui, em alguns casos acentuados pela epidemia. Mais pessoas sentiram fome em 2020 do que em 2019; vacinações infantis e a erradicação da poliomielite recuaram; e aids, malária e tuberculose continuam a matar milhões de pessoas todos os anos.

No início de dezembro, um grupo de especialistas em saúde pública enviou uma “agenda de ação” para o governo de Joe Biden, que assume a Casa Branca em 2021, examinando os danos que a pandemia causou para os programas de saúde global e traçando um caminho para superá-los.

Os autores do plano, publicado na revista científica americana The Lancet, incluem Michelle Williams, reitora da Escola de Saúde Pública T. C. Chan da Universidade de Harvard, Barry Bloom, ex-reitor da escola, Donna Shalala, ex-secretária do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA — e agora deputada pelo estado da Flórida — e especialistas da Universidade de Georgetown, da Universidade Emory e da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. A The Harvard Gazette conversou com Williams sobre o que é preciso fazer agora.

Seu comentário na revista The Lancet cita “grandes retrocessos” no combate à pobreza, à fome e a doenças. Qual o estado da saúde global hoje? O foco internacional na covid-19 prejudicou os esforços em outras áreas?

Michelle Williams A saúde pública liga os pontos entre problemas estruturais, como a pobreza e o racismo, a uma série de efeitos nocivos para a saúde, como o aumento do risco de complicações e de morte de covid-19. A pandemia colocou os holofotes diretamente sobre a importância da saúde pública, portanto, ao falarmos sobre o estado atual da saúde global, devemos levar em consideração também os determinantes sociais da saúde. Entre as áreas críticas que precisam de atenção hoje estão a educação, os sistemas alimentares, a preservação ambiental, a estabilidade econômica e a saúde mental das pessoas.

A covid-19 é claramente a preocupação de saúde mais premente hoje, tanto nos Estados Unidos quanto no mundo. Há recursos disponíveis para lidar com esses problemas de saúde mais tradicionais, ou as autoridades de saúde pública são obrigadas a escolher?

Michelle Williams Usamos o termo “deficit covid” quando falamos dos prejuízos na aprendizagem sofridos por estudantes, mas ele também pode ser aplicado para a saúde global. A necessidade de adotar uma estratégia abrangente para a pandemia foi uma armadilha para os esforços sobre outros problemas de saúde prementes. Em julho, por exemplo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou um relatório mostrando que a prevenção e o tratamento de doenças não comunicáveis ficaram prejudicados durante a pandemia.

Autoridades de saúde pública são apenas humanos, no fim das contas. Estamos vendo exaustão e sinais de burnout não apenas entre os profissionais de saúde da linha de frente, mas entre os especialistas em saúde pública. Para muitos, não há horas suficientes em um dia para se dedicar a outros temas além da covid-19.

Muito antes do início da pandemia, o sistema de saúde pública dos Estados Unidos se encontrava severamente subfinanciado, mas hoje o mundo pode ver o que deixar de investir em saúde pública significa — e não só em vidas perdidas. A covid-19 se tornou a maior ameaça para a economia desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Agora, que estamos de joelhos, precisamos parar de nos contentar com menos e, em vez disso, começar a investir mais em infraestruturas de saúde pública — não só para o bem-estar coletivo, mas para nossa saúde econômica.

“Acreditamos ser importante que o governo Biden tome atitudes baseadas na tradição de liderança humanitária dos EUA, não só porque o mundo precisa dela, mas porque o mundo está esperando por ela”

Você e seus coautores citaram uma série de etapas para combater a covid-19. Como, na sua opinião, os EUA podem contribuir de forma efetiva para esforços no exterior?

Michelle Williams Em primeiro lugar, os EUA devem fazer tudo que puderem para reconquistar seu papel de liderança no mundo. Isso significa liderar pelo exemplo, certamente, mas também liderar os investimentos em iniciativas-chaves que reconheçam nossas interconexões e garantam a segurança coletiva. Uma ameaça em qualquer lugar do mundo é uma ameaça para nós todos, e isso é tanto verdade para ameaças virais quanto, digamos, para a indiferença à sustentabilidade do planeta.

O próximo governo pode promover um impacto imediato e significativo em diversas áreas, mobilizando parceiros, por exemplo, para financiar o Plano Global de Resposta Humanitária à Covid-19 das Nações Unidas, fortalecendo a Organização Mundial da Saúde. A OMS lida com uma série de ameaças à saúde global, desde a saúde materna e infantil até doenças não comunicáveis e serviços universais de saúde. Mas o orçamento bienal de US$ 8,5 bilhões da agência está muito aquém de sua enorme posição global. Claro, isso sem contar o trabalho de garantir a distribuição mundial equitativa das vacinas contra a covid-19.

Dado o triste histórico dos EUA na luta contra a covid-19, por que a ajuda americana é necessária, e sua “liderança”, desejada?

Michelle Williams Com incontáveis crises de saúde em todo o mundo, o trabalho humanitário da ONU enfrenta enormes deficits. Como a nação mais rica do mundo, os EUA têm os meios e os recursos para ajudar a preencher essa lacuna, e devemos começar a fazer isso o mais rápido possível. A covid-19 mostrou que os interesses dos EUA estão ligados à segurança sanitária global, e a cooperação internacional voltada à covid-19 pode se tornar um modelo para derrotar outras ameaças à saúde global. Acreditamos ser importante que o governo Biden tome atitudes baseadas na tradição de liderança humanitária dos EUA, não só porque o mundo precisa dela, mas porque o mundo está esperando por ela.

A saída do governo Trump da Organização Mundial da Saúde foi bem divulgada. Quais são suas recomendações para Biden em relação à OMS?

Michelle Williams Colocar a OMS nessa posição insustentável foi destrutivo. Como disse o senador Patrick Leahy nesta primavera, “reter recursos para a OMS em meio à pior pandemia em um século faz tanto sentido quanto cortar a munição de qualquer aliado quando o inimigo se aproxima”. Na verdade, é até pior. É cortar nossa própria munição, nossa armadura e nosso plano de batalha — sem contar nossas reservas para o próximo conflito.

Os EUA não devem contribuir para a politização da OMS. Em vez disso, ao lado de outros Estados-membros, poderíamos trabalhar para manter a integridade científica e a neutralidade da agência. Biden pode ajudar a fortalecer a OMS, não só para a resposta à covid-19, mas para toda a gama de problemas de saúde. O fato é que a maior parte do dinheiro que os EUA envia à agência não é destinada a respostas a emergências ou para mitigação de surtos; a maioria dos fundos vai para programas essenciais de saúde global, como erradicação da pólio, iniciativas de saúde mental e prevenção de câncer e de doenças cardíacas.

“O orçamento anual da Organização Mundial da Saúde é menor que o da maioria dos hospitais universitários americanos. E, sim, a OMS cometeu erros no início da pandemia, mas outras organizações e países também”

É preciso uma reforma na OMS? Alguma das críticas do governo Trump à agência é bem fundamentada?

Michelle Williams A reforma da OMS é absolutamente necessária, pois a agência não foi desenhada para ser independente, nem foi investida do poder ou dos recursos de que necessita. Na verdade, o orçamento anual da Organização Mundial da Saúde é menor que o da maioria dos hospitais universitários americanos. E, sim, a OMS cometeu erros no início da pandemia, mas várias outras organizações e países também. Quanto à influência indevida da China [sobre a agência] e à resposta dos EUA de puxar a tomada, em ambos os casos o assédio político teve efeitos claros. Com uma reforma e financiamento adequado, a OMS pode desempenhar um papel ainda mais importante na saúde global. Muitos países, especialmente os mais pobres, dependem da agência para assistência e suprimentos médicos, e eles precisam dela agora mais do que nunca.

Eu também seria negligente se não dissesse quanto estou feliz com a escolha da Dra. Rochele Walensky, M.P.H. ‘01, para liderar o CDC [Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA]. Sua nomeação representa um investimento renovado em nossos ativos científicos e humanitários que podem ser usados em atividades de saúde pública doméstica e global.

Você menciona a duplicação da fome aguda em 2020. Por quê? Qual o tamanho dos últimos danos aos esforços para acabar com a fome no mundo? Existem soluções?

Michelle Williams O Programa Mundial de Alimentos estima que haverá o dobro de crianças e adultos enfrentando a fome aguda no mundo no fim de 2020. Além de causar doença e morte, esse vírus teve grande impacto na economia global, nas cadeias de abastecimento, no abastecimento de alimentos e no acesso à ajuda humanitária. A covid-19 criou uma pandemia em cima de uma pandemia — a insegurança alimentar é uma ameaça real e presente em todo o mundo. Para responder a essa crise, precisamos de soluções políticas de longo prazo para a fome, o desperdício de alimentos e a mudança climática. A doação de alimentos é apenas uma peça do quebra-cabeças. Os países devem preencher a lacuna entre o excedente de alimentos e a necessidade crescente de comida para os mais vulneráveis. (Um terço de todos os alimentos produzidos para consumo humano vai para o lixo, de acordo com a FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.)

Em termos de soluções, precisamos de um esforço multifacetado e coordenado em nível global. Nos EUA, uma nova lei de estímulos deve incluir um aumento nos benefícios do Snap [Programa de Assistência Nutricional Suplementar, conhecido antes como vale-alimentação] — e essa lei deve ser aprovada o mais rápido possível. A reabertura segura de escolas e creches nos países também pode fazer muita diferença, em parte porque muitas crianças se alimentam nesses lugares. A pandemia causou ainda uma disrupção nas cadeias de abastecimento de alimentos que precisará ser tratada em escala global.

Nesta primavera, a FAO, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola da ONU, o Programa Mundial de Alimentos e o Banco Mundial divulgaram uma declaração conjunta pedindo uma ação coletiva internacional para garantir que nossas cadeias de abastecimento de alimentos não sejam mais ameaçadas pela pandemia e que comecemos a trabalhar agora para evitar futuras perturbações nos nossos sistemas agrícolas e alimentares.

E quanto à redução dos esforços de vacinação infantil? Essa parece ser uma área com consequências potenciais graves.

Michelle Williams A desaceleração dos esforços de vacinação infantil, sem dúvida, terá consequências terríveis de longo prazo. A covid-19 afetou a capacidade dos sistemas globais de saúde de fornecer vacinas preventivas e de rotina; os pais também são impedidos de circular por causa dos lockdowns e têm medo de contrair a covid-19 em um consultório médico. O atraso no transporte de vacinas tão necessárias está agravando a situação. Desde março de 2020, as imunizações de rotina foram muito reduzidas. Segundo dados da OMS e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a falta de vacinas colocou pelo menos 80 milhões de crianças com menos de um ano de idade sob risco de adoecer com difteria, poliomielite e sarampo. As campanhas de vacinação infantil também foram paralisadas, embora as mortes por sarampo tenham aumentado 50% de 2016 a 2019. E sequer cheguei à situação dos EUA. A ironia de ver que os programas de vacinação mais eficazes conhecidos pela humanidade foram atenuados durante a pandemia não me passou despercebida. Podemos e devemos fazer melhor para garantir a estabilidade de programas como os de imunização infantil em épocas de crise.

Tudo isso antes de começarmos a falar sobre a vacinação de crianças contra a covid-19. Existem muitas questões que precisaremos resolver, como a introdução de crianças e adolescentes em ensaios clínicos, quais faixas etárias devem ser vacinadas e quando. A última coisa de que precisamos em nossa luta contra a pandemia é ver um atraso desnecessário na vacinação de crianças contra a covid-19.

Você pede um aumento de US$ 1 bilhão no orçamento nacional para pesquisa e desenvolvimento. Por que isso é necessário? Não foi canalizada uma enorme quantidade de dinheiro para a pesquisa sobre doenças no último ano?

Michelle Williams Não se trata apenas da quantidade de dinheiro voltado a pesquisa e desenvolvimento; trata-se de onde e como esse dinheiro é gasto, de forma a nos trazer os melhores resultados. Existem áreas de pesquisa nos EUA que vêm sendo subfinanciadas de forma crônica, e estamos pagando o preço por não termos construído evidências fortes sobre programas de saúde pública e novas políticas na área. Com a pandemia, ficou muito claro que precisamos de uma estratégia de enfrentamento baseada em evidências nas áreas de comunicação e ciências comportamentais, por exemplo. Em particular, precisamos de dados melhores para saber como superar a desinformação em saúde e como promover a adesão a vacinas. Nós podemos comemorar os avanços da ciência e da tecnologia o quanto quisermos, mas, se não fizermos investimentos para fortalecer campanhas de vacinação que são confrontadas com o perigo claro e presente representado pela desinformação, teremos um verdadeiro desafio de saúde pública nos próximos meses.

Para acelerar os avanços científicos, precisaremos aumentar nosso financiamento de pesquisa e desenvolvimento em pelo menos US$ $ 1 bilhão todos os anos, conforme recomendado pela Academia Nacional de Medicina. A pesquisa e o desenvolvimento nos ajudam a enfrentar os desafios globais de saúde mais urgentes do mundo e a fazer grandes melhorias nessa área. Sempre precisaremos de tecnologia de ponta, remédios, vacinas e diagnósticos — sem essas inovações, não seremos capazes de usar a ciência para combater os riscos à saúde global. Precisamos estar à frente, especialmente quando se trata de doenças infecciosas.

Você também pede que haja um foco renovado no tema da mudança climática, que Biden já indicou que apoia, e no tema da resistência microbiana a medicamentos. A mudança climática tem recebido muita atenção recentemente. Por que você acha que a resistência microbiana é tão urgente?

Michelle Williams A resistência microbiana ameaça nossa capacidade de tratar infecções comuns e põe em risco cada vez mais a saúde das pessoas, tanto nos EUA quanto no mundo. Em 2016, o estudo Review on Antimicrobial Resistance concluiu que, em 2015, a resistência aos medicamentos nos tiraria 10 milhões de vidas por ano e gastaria US$ 100 trilhões cumulativos. Nos EUA, o CDC estimou que 2 milhões de pessoas sofrerão infecções resistentes a medicamentos todos os anos, e 23 mil delas morrerão — os números são considerados subestimados. Em outras palavras, não podemos ignorar a resistência a medicamentos. O governo Biden deve incentivar as empresas farmacêuticas e de biotecnologia a desenvolver novos remédios e apoiar os esforços multilaterais para enfrentar a resistência microbiana. No contexto de preparação para pandemias, nada é mais importante.

Na verdade, a resistência antimicrobiana representa um dos maiores desafios de saúde pública do século 21, mas estou confiante de que iremos vencê-lo. Devemos fazer isso da mesma forma como, historicamente, vencemos outras ameaças à saúde pública, desde as doenças infecciosas até a embriaguez no trânsito: por meio de uma campanha sustentada, coordenada e multifacetada.

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