20 anos do BIOTA: como a ciência interage com as políticas públicas

Mariana Vick
Um dos mais antigos da Fapesp, programa de pesquisa sobre biodiversidade teve impacto sobre a produção científica no país e a criação de unidades de conservação no estado de São Paulo

O BIOTA/FAPESP (Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade), um dos parceiros do Nexo Políticas Públicas, comemora 20 anos com contribuições para o conhecimento científico e as políticas ambientais no país.

O programa, um dos mais antigos da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), tem a trajetória marcada pelo diálogo amplo com instituições públicas e privadas, divulgando suas pesquisas e buscando aplicá-las em ações voltadas à conservação da biodiversidade e dos ecossistemas.

O BIOTA também contribuiu para o desenvolvimento da pesquisa sobre biodiversidade no país. Formado por cientistas de diversas universidades, o programa ampliou o conhecimento sobre espécies pouco estudadas e sobre a dinâmica de biomas como a Mata Atlântica e o Cerrado. O centro também criou parcerias com outros centros de pesquisa e inspirou a criação de novos.

Criado em 1999, o programa vem realizando as comemorações pelos 20 anos de existência em 2020. Os pesquisadores do BIOTA têm se reunido em webinars (palestras online) e discutido seus temas de estudo com cientistas do Brasil e do exterior. O programa também criou um concurso comemorativo de fotos sobre a biodiversidade do país.

O Nexo Políticas Públicas conversou com Carlos Joly, coordenador do BIOTA, e Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fapesp, sobre as contribuições do programa nestes anos e as expectativas para o futuro.

O que o programa faz

O BIOTA nasceu com o objetivo de conhecer, mapear e analisar a biodiversidade brasileira, incluindo a flora, a fauna e os microrganismos. O programa também busca contribuir para a formulação de políticas públicas ambientais e para a exploração sustentável de plantas e animais com potencial econômico.

Os pesquisadores do BIOTA se dedicam a atividades como a catalogação de espécies e a pesquisas de temas como as políticas ambientais, o impacto da ação humana sobre os ecossistemas, estratégias de conservação, bioprospecção e a relação entre biodiversidade e saúde.

1.200

pesquisadores se envolveram com o BIOTA/FAPESP, incluindo alunos de graduação e de pós-graduação

3.412

artigos foram publicados pelo BIOTA/FAPESP em 20 anos, segundo informações do programa

US$ 80 milhões

foram investidos no BIOTA/FAPESP em 20 anos, segundo o programa

O programa, criado em 1999, é resultado da articulação da comunidade científica do estado de São Paulo, que na época buscava criar ações concretas para implementar as premissas da Convenção da Diversidade Biológica, assinada pelo governo brasileiro durante a ECO-92, reunião internacional ligada à ONU.

A Convenção da Diversidade Biológica, também chamada pela sigla CDB, é um tratado global que tem o objetivo de conservar a biodiversidade, promover seu uso sustentável e fazer a repartição justa e equitativa dos benefícios oriundos do uso econômico das espécies e dos recursos genéticos.

O BIOTA originalmente se voltava à pesquisa sobre a biodiversidade do estado de São Paulo, especialmente da Mata Atlântica. Com o tempo, passou a estudar outros biomas, como o Cerrado e a Amazônia. Inspirou também a criação de programas de pesquisa semelhantes a ele em estados como Bahia e Mato Grosso do Sul.

Qual o impacto do programa

O BIOTA busca desde o início dialogar com o poder público, conseguindo, com os anos, subsidiar a tomada de decisão sobre políticas que se relacionam com a biodiversidade, como as políticas de conservação dos ecossistemas ou de restauração florestal.

O programa criou um mapa das áreas prioritárias para conservação do estado de São Paulo que indicou que era preciso fazer mudanças de rumo na política, por exemplo. “Descobrimos que no estado não é suficiente só conservar. Precisamos restaurar florestas”, disse Carlos Joly, coordenador do BIOTA, ao Nexo Políticas Públicas.

Os estudos feitos pelo programa de conservação e de restauração do programa levaram o governo paulista a criar, em 2010, o Parque Estadual Restinga de Bertioga. A unidade de conservação busca preservar áreas de restinga no litoral de São Paulo, que hoje são pouco conservadas, apesar de sua importância ambiental.

20

instrumentos legais (leis, decretos e resoluções) do estado de São Paulo citam nominalmente estudos do BIOTA, segundo dados do programa

O BIOTA também teve impacto no desenvolvimento científico, segundo Joly. O programa deu impulso à cultura de compartilhamento de dados dos estudos sobre diversidade biológica no país e contribuiu para a formação de pesquisadores na área. Muitos deles, segundo Joly, seguiram para órgãos públicos ambientais, colaborando para as políticas públicas.

Entre os avanços que o BIOTA proporcionou no conhecimento sobre a biodiversidade, ele cita estudos que catalogam as espécies de São Paulo, que examinam o funcionamento dos ecossistemas ou que mostram os efeitos de impactos externos sobre a fauna e a flora, como a mudança climática.

O programa faz também esforços de divulgar a ciência por meio de iniciativas como a parceria com o Nexo Políticas Públicas e atividades de educação ambiental. Os pesquisadores produzem conteúdos sobre biodiversidade para o ensino básico e fazem ciclos de palestras em escolas e outros tipos de instituições.

O diretor científico da Fapesp, Luiz Eugênio Mello, conversou com o Nexo Políticas Públicas e citou o alcance internacional da produção do BIOTA. “Tivemos colaborações intensas com Holanda, Alemanha, Reino Unido… Existe Mata Atlântica na Holanda? Não tem”, afirmou. “Usamos recursos que são únicos daqui como objeto de estudo, o que habilita nossa internacionalização.”

Quais as expectativas para o futuro

O coordenador do BIOTA, Carlos Joly, afirmou que, na comemoração de 20 anos, os pesquisadores vinculados ao programa planejam avançar no desenvolvimento de modelos que expliquem o funcionamento dos ecossistemas e ampliar as relações com outros programas de pesquisa.

Os estudos que catalogam espécies devem continuar, segundo ele. “Nós nunca vamos conhecer toda a biodiversidade, por isso sempre haverá necessidade de inventários”, disse. “Mas precisamos ir mais longe.” O programa busca hoje desenvolver pesquisas que estimem cenários para as florestas brasileiras no contexto da mudança climática.

O BIOTA também deve ampliar o diálogo com o poder público nos próximos anos, segundo Luiz Eugênio Mello, que assumiu a diretoria científica da Fapesp em 2020. “Onde puder, [o programa] vai buscar interferir na formulação das políticas públicas, seja no nível estadual, nacional ou global”, disse.

Para Mello, uma das razões para o sucesso do BIOTA é a continuidade. “Vinte anos depois, é um programa que continua ativo, com possibilidades e perspectivas de desdobramento”, disse. A garantia de continuidade dada pela Fapesp permite que o programa invista em projetos de pesquisa robustos, de longo prazo, e capacite cada vez mais seus pesquisadores.

Ele atribui a continuidade do programa à natureza da Fapesp, que não é uma instituição de governo, mas de Estado. “As políticas, as diretrizes da Fapesp não são ditadas ao sabor dos ventos”, ele disse ao Nexo Políticas Públicas. “O BIOTA foi proposto em uma gestão, foi continuado na gestão seguinte e será continuado também hoje.”

Mello também falou sobre o impacto do programa para os cientistas. “O BIOTA é um lugar onde eles têm clareza de que, se seu projeto foi financiado e se sua linha de pesquisa é promissora, o trabalho tem boas chances de ser renovado”, afirmou. É importante, para ele, que os pesquisadores tenham segurança de que trabalham em um lugar onde “têm oportunidade de se expressar profissionalmente” no longo prazo.

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