Como melhorar a aprendizagem em matemática, segundo este estudo

Mariana Vick
Pesquisa mostra resultados positivos de curso de férias com metodologia ‘aberta, criativa e visual’. Criada nos EUA, iniciativa foi liderada por professor da Universidade de Stanford em escolas públicas na região metropolitana de São Paulo

Um curso de férias de matemática realizado com estudantes que estavam prestes a ingressar no 5º ano do ensino fundamental em escolas públicas paulistas resultou em ganho de 1,3 ano de escolaridade na disciplina depois de apenas 10 dias de aulas e atividades, segundo uma pesquisa sobre o programa.

Além de terem registrado melhora no aprendizado, os alunos disseram se sentir mais confiantes para resolver problemas da disciplina depois da passagem pelo curso, segundo o estudo. Seu nível de ansiedade em relação à matemática diminuiu, e eles sentem mais prazer com a matéria e seus desafios.

Os resultados são de um programa chamado Mentalidades Matemáticas, curso de férias que diz buscar ensinar a disciplina para crianças de maneira aberta, criativa e visual, mesclando aulas sobre conceitos matemáticos com atividades lúdicas. A iniciativa, criada nos EUA, foi aplicada pela primeira vez no Brasil em janeiro na cidade de Cotia (SP).

96%

dos estudantes que participaram do Mentalidades Matemáticas disseram entender que errar faz parte do processo de aprendizagem, segundo pesquisa sobre o programa

A pesquisa sobre o programa mostra que meninas tiveram avanço 3,5 vezes maior que os meninos no aprendizado de novos conceitos. Elas também se sentem mais confiantes com a disciplina do que eles. A melhora geral no desempenho dos estudantes não teve relação com outros fatores, como conhecimento prévio ou escolaridade da família.

Para avaliar o desempenho dos estudantes antes e depois do curso, o programa fez duas vezes uma avaliação chamada Mars — um tipo de prova considerada distinta, por exigir que os alunos apliquem seus conhecimentos em novos contextos e expliquem seu raciocínio, em vez de apenas dar uma resposta para um problema matemático.

A proposta do curso tem como base estudos da neurociência e da aprendizagem da matemática desenvolvidos por Jo Boaler, fundadora do Centro de Pesquisas Youcubed da Universidade de Stanford, nos EUA. No Brasil, o trabalho foi liderado pelo professor de Stanford Jack Dieckmann.

“Pensamos no desempenho [dos estudantes que participaram do programa] de uma forma mais abrangente, olhando para vários resultados: resultados de provas, comportamentos e atitudes dos alunos em relação à matemática, participação em sala de aula e identidade [deles mesmos] como pensadores matemáticos”

Jack Dieckmann

pesquisador e diretor do Centro de Pesquisas Youcubed da Universidade de Stanford, nos EUA, em entrevista ao Nexo Políticas Públicas

O programa Mentalidades Matemáticas foi aplicado no Brasil pelos pesquisadores de Stanford em parceria com o Instituto Sidarta e o Itaú Social. A Secretaria Municipal de Educação de Cotia também participou da execução do projeto.

O que o curso propõe

Realizado entre os dias 6 e 17 de janeiro de 2020, de segunda a sexta-feira, o curso de férias organizado em Cotia teve os objetivos de melhorar a aprendizagem dos estudantes em matemática e torná-los mais confiantes em sua capacidade de resolver problemas da disciplina.

Todos os dias, os alunos ficaram na escola das 8h às 16h, com intervalo para o almoço. De manhã, o objetivo era estudar conceitos de matemática em sala de aula. Mais tarde, as turmas ocupavam espaços como as quadras e os refeitórios da escola, participando de atividades mais lúdicas, como jogos de tabuleiro e de construção, usando blocos.

Os alunos foram reunidos em pequenos grupos na sala de aula e incentivados a buscar as próprias soluções, sem necessariamente com a ajuda dos professores. Por causa disso, eles começaram a assumir mais riscos e a ter mais autonomia e segurança para expor ideias. O curso também passou a eles segurança de que erros são comuns e são parte do processo de aprendizagem.

“Sempre tive dificuldades com matemática, minhas notas não são boas, na minha família ninguém gosta, mas aqui eu posso aprender e é divertido. Outra coisa que gostei é que posso dar minha opinião”, disse a participante do curso Johanna Pereira, de 10 anos, em entrevista publicada no site do Mentalidades Matemáticas em janeiro de 2020.

Antes do início curso, educadores, professores e estudantes de matemática e pedagogia que participariam do programa fizeram um treinamento de 100 horas do Mentalidades Matemáticas. Ao todo, foram 16 pessoas, que estudaram por três meses com Dieckmann. Durante o curso, eles fizeram discussões diárias sobre seu novo papel em sala e sua interação com os alunos.

A proposta do Mentalidades Matemáticas foi posta em prática pela primeira vez em 2015, durante 18 dias, com alunos do 6º e 7º anos, na Universidade de Stanford, nos EUA. Ali, a evolução dos estudantes foi equivalente a 2,7 anos de ensino regular. Os resultados brasileiros são considerados robustos, dado o tempo menor de curso, a faixa etária dos alunos e seu nível de renda.

O Itaú Social diz estudar levar o curso de férias para outras cidades do país. Para Dieckmann, ainda há muito que aprender no Brasil, “os cursos de férias são apenas o começo”. “Nosso objetivo de longo prazo é que essa abordagem seja usada em todas as salas de aula de matemática durante o ano letivo”, disse ao Nexo Políticas Públicas.

Quem participou da pesquisa

O programa Mentalidades Matemáticas foi realizado com crianças que haviam acabado de concluir o quarto ano do ensino fundamental em duas escolas públicas de um distrito-dormitório em Cotia, cidade que fica na região metropolitana de São Paulo.

Todas as atividades foram organizadas no prédio da Escola Municipal Prefeito Ivo Mario Isaac Pires, cujos alunos participaram do programa. A outra escola selecionada para participar do curso foi o Ceuc, sigla para Centro Educacional Unificado de Cotia.

68

estudantes concluíram o curso, segundo relatório de pesquisa do programa Mentalidades Matemáticas

O conjunto de alunos do programa é representativo do perfil dos estudantes brasileiros, segundo relatório do Mentalidade Matemáticas. Metade das crianças eram meninos e a maioria (49%) era parda e vivia em famílias com renda entre 1 e 2 salários mínimos (52%). Mais de 40% tinham desempenho mediano em matemática.

A pesquisa sobre o programa diz que houve um efeito escolar sobre o desempenho dos estudantes. Apesar de ambas as escolas terem registrado melhora nos resultados em matemática, em apenas uma, a Escola Municipal Prefeito Ivo Mario Isaac Pires, essa evolução foi estatisticamente significativa.

Para o estudo, não é possível compreender plenamente a fonte desse efeito escolar, mas uma das hipóteses prováveis é que a diferença esteja relacionada com o fato de que o curso tenha sido realizado na escola Prefeito Ivo Mario Isaac Pires. “Pode ter havido uma ‘vantagem [para os estudantes dessa escola] de jogar em casa’”, afirma o relatório de pesquisa.

Quais os desafios da aprendizagem

O ensino de matemática é um desafio para professores e formuladores de políticas públicas na área de educação em diversos países, incluindo o Brasil, onde os estudantes costumam revelar mais dificuldade nessa disciplina do que em outras do currículo regular.

O principal obstáculo apontado por educadores para a aprendizagem é a maneira inadequada como a disciplina é ensinada — seja com aulas que fazem a simples apresentação dos conteúdos (sem ajudar os alunos a entender seu sentido), seja com aquelas que não os ensinam a aplicar os conceitos da matéria para os problemas concretos da vida real.

“Os desafios no Brasil são os mesmos dos Estados Unidos na educação matemática. Temos uma longa cultura de ensino tradicional que enfatiza a velocidade sobre o pensamento cuidadoso, memorizando muitas vezes sem compreensão, medo de cometer erros e sempre trabalhando sozinho”

Jack Dieckmann

pesquisador e diretor do Centro de Pesquisas Youcubed da Universidade de Stanford, nos EUA, em entrevista ao Nexo Políticas Públicas

Em 2018, os brasileiros tiveram desempenho de apenas 384 pontos de possíveis 1000 em matemática no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), prova realizada pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em dezenas de países a cada três anos para comparar os níveis de aprendizagem escolar.

Para Dieckmann, é preciso que existam novas formas de ensinar matemática, como o curso de férias de Stanford, para contrastar com o ensino tradicional da matéria e agir contra o que ele chama de “uma longa cultura de exclusão da matemática, onde alguns alunos são considerados capazes e outros não”. “Todos podem ser matemáticos com recursos, suporte e condições de aprendizagem adequados”, disse ele ao Nexo Políticas Públicas.

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