Pandemia e a crise financeira

Christina Pazzanese
A professora Carmen Reinhart, da Kennedy School, recém nomeada economista-chefe do Banco Mundial, diz que a crise financeira causada pela covid-19 irá durar até que o problema de saúde seja resolvido

A economista Carmen M. Reinhart, professora Minos A. Zombanakis de sistema financeiro internacional da Harvard Kennedy School, tirou uma licença de dois anos para assumir a posição de economista-chefe e vice-presidente do Banco Mundial.

Especialista renomada em finanças internacionais e crises financeiras, Reinhart é amplamente conhecida por seu premiado trabalho sobre a história de desastres na área, "Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira" (2008), escrito com o economista de Harvard Kenneth Rogoff.

Nesta entrevista, Reinhart fala sobre sua previsão sombria para a economia dos EUA, os papéis que a dívida e a China podem desempenhar em uma recuperação e a possibilidade de que a pandemia represente o fim da globalização como a conhecemos.

Bem no início [da pandemia] você disse que as perspectivas para os EUA seriam bem mais catastróficas e durariam muito mais do que outros economistas estavam prevendo. Por que essa foi sua visão e como considera que as coisas estão no momento?

Carmen Reinhart Não mudei de perspectiva. Quando há esse tipo de implosão econômica, uma escalada do desemprego antes mesmo que se materializasse na proporção como aconteceu, tem-se sérios efeitos nas finanças. Famílias que perderam o emprego terão dificuldades de pagar hipotecas, dívidas, financiamentos de automóveis e cartões de crédito. As empresas de médio e pequeno porte que precisam fechar terão dificuldade de se sustentar sem entrar em Chapter 11 [capítulo 11 da lei de falência dos EUA]. O fato é que, diferentemente da crise de 2008-2009, as famílias estavam em boas condições [no início de 2020]. Por causa de todos os esforços para regular os bancos nos EUA, eles também estavam em boa forma. Mas um choque tão grande e repentino pode mudar tudo rapidamente. Por isso que, no começo de março, quando comecei a escrever sobre essa situação, mostrei como isso se transformaria de algo que começou como uma crise de saúde em uma crise financeira. O título deste artigo, o primeiro que escrevi sobre a covid-19, foi “Desta vez é realmente diferente”.

Como você avalia as intervenções financeiras do Congresso e do FED (Federal Reserve, banco central americano)? Elas são suficientes? O que mais precisa ser feito?

Carmen Reinhart A grande vantagem é que eles foram ágeis, e é disso que você precisa em caso de emergência. São suficientes? Acho que teremos mais [intervenções] porque não acho que estamos em uma rápida recuperação. Precisaremos ter mais. A última grande pandemia em 1918 não oferece nenhum exemplo útil do que acontece com a economia durante uma pandemia. Ela aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, no ano em que as mortes nos Estados Unidos atingiram um pico. Houve um robusto crescimento de 9%, porque estávamos em uma economia de guerra. Era um cenário muito diferente. A resposta do lockdown – na escala doméstica e global – nunca foi vista antes. A crise foi extremamente globalizada. Mas a doença não, está decolando no Brasil e na Rússia. Portanto, isso pode continuar à medida que atingir diferentes partes do globo, o que significa que, sim, haverá esforços para a normalização gradual. Mas não teremos algo parecido com a normalização total, a menos que (a) tenhamos uma vacina e (b) – e isso é muito importante – a vacina esteja acessível para a população global em geral.

Se uma segunda onda da doença vier no outono, o que muitos especialistas em saúde pública estão prevendo, o que isso prenuncia para a economia?

Carmen Reinhart Não acho que [a pandemia] acabou. E, se ainda não acabou a doença, não acabaram o distanciamento social e os fechamentos de negócios e, assim, não acabaram os efeitos nas finanças. Isso faz com que haja uma crise financeira até que o núcleo do problema da saúde seja resolvido.

Muitas nações, inclusive os Estados Unidos, estão assumindo níveis históricos de dívida enquanto tentam estabilizar suas economias. Dadas as suas conhecidas visões sobre dívida e crescimento do PIB, o que isso anuncia para a economia americana?

Carmen Reinhart Em primeiro lugar, quando você está em uma guerra, como a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, primeiro você se preocupa em vencê-las e depois em como vai pagar a dívida. Eu acho que algo análogo se aplica aqui. Você faz o que precisa ser feito para vencer a guerra e depois se preocupa com o resto. Nos próximos anos, estaremos nos preocupando [com a dívida]. Muito do trabalho que fiz também destaca que as abordagens adotadas após as guerras foram mais heterodoxas, o que significa manter o custo da dívida reduzido por meio de taxas muito baixas, ser mais leniente em relação à inflação e, nos casos mais extremos (e não estou falando dos EUA nesse contexto, mas não se pode descartar que algo assim esteja acontecendo na Itália, dadas as tensões norte-sul), reestruturar a dívida. Vimos isso na Grécia. Eu não acreditaria, em 2007, que uma economia avançada, da zona do euro, estaria reestruturando sua dívida. Eu diria que, neste momento, essas são as maiores possibilidades de falhas.

A preocupação com a dívida é uma razão válida para recuar com futuros pagamentos assistenciais federais?

Carmen Reinhart Não, não. Agora não é o momento para isso. Primeiro você ganha a guerra.

A pandemia revelou uma fragilidade surpreendente na economia global e grandes fraquezas de mercado nos EUA e em todo o mundo envolvendo cadeias de suprimentos. Isso também revelou que o trade-off eficiência/vulnerabilidade feito pelas empresas sob a globalização era muito mais arriscado do que se entendia. A globalização como conhecemos acabou?

Carmen Reinhart Acho que a covid-19 é o prego no caixão da globalização. Talvez isso soe melodramático. A globalização teve seu apogeu antes da crise financeira global de 2008-2009. Se observarmos o comércio global na década anterior à crise financeira, o volume de crescimento era de 6% ao ano. Na década após a crise financeira, o crescimento foi menor que a metade, em torno de 2,5%. Parte disso se deve à Europa, que foi muito afetada durante a crise. Países como Espanha, Irlanda, Grécia e Portugal, que conviviam com grandes deficits em conta corrente — e que conseguiam financiá-los por estarem aptos a emprestar do resto do mundo — não conseguiram mais fazê-lo. Por isso a periferia da Europa entrou em uma crise da dívida e tomou empréstimos do FMI (Fundo Monetário Internacional) para lidar com essa crise. Aquele seria o primeiro prego, eu diria, no rápido crescimento da globalização que havíamos visto até aquela época. E então veio o Brexit e a guerra comercial entre os EUA e a China, e agora a covid. Acho que vimos durante esta crise o ressurgimento de um grande protecionismo em torno de suprimentos médicos e alimentos e a percepção de que as cadeias de suprimentos globais, como você disse, são muito mais frágeis do que pensávamos anteriormente. Portanto, acho que um legado disso será uma estratégia mais voltada para o interior em muitas partes do globo.

Do ponto de vista dos países em desenvolvimento, a desglobalização não é uma ótima notícia. A globalização não entregou todos os resultados que deveria ter entregado. A questão da desigualdade tornou-se mais prevalente. Já vimos isso nos Estados Unidos, na Europa e na China, apesar do crescimento de dois dígitos. Mas o que a globalização produziu foi uma maior convergência e uma desigualdade um pouco menor entre as economias mais avançadas e as emergentes.

A maioria dos países está se voltando para dentro a fim de estancar o sangramento desta crise financeira. Até a União Europeia parece estar preparada para criar um fundo de resgate em toda a Europa. Existe a necessidade de uma resposta econômica global, assim como outras formas de resposta?

Carmen Reinhart Uma forma de resposta global foi o que o G20 fez com relação aos países mais pobres do mundo, os países do Índice de Desenvolvimento Inclusivo, algo que Ken [Rogoff] e eu defendemos: uma suspensão temporária da dívida. Nos países mais pobres, mais de 10% da receita vai para o serviço da dívida externa. Em um momento como este, você deve redirecionar recursos para necessidades de saúde, alimentação e assim por diante, já que requerem recursos imediatos. Isso é muito importante para a resposta global — como lidar com os países mais pobres. Outra parte também muito importante é tentar evitar cair em algumas das armadilhas da década de 1930, como o tipo de política muito protecionista, que é muito prejudicial aos países vizinhos. Essas são duas áreas extremamente importantes. Para o alívio da dívida é essencial que a China esteja a bordo, porque é a maior credora, de longe. A dívida devida à China é muito maior do que a dívida devida aos outros 19 países no G20. Portanto, se a China não estiver totalmente a bordo, não obteremos um alívio substancial da dívida.

Qual é a atitude da China em relação ao alívio da dívida?

Carmen Reinhart Começaram a aliviar, mas até agora a abordagem usada é muito bilateral, o que significa que está entre eles e o país em questão. Então, se existe qualquer negociação com Angola ou Sri Lanka, fica entre eles; não é feito por meio do Clube de Paris de credores oficiais. Eles também não querem fazer parte do Clube de Paris porque isso significaria mais transparência. Então acaba havendo um grande problema. As recentes declarações do presidente Xi Jinping, de que a China está muito a bordo no alívio da dívida, são muito bem-vindas, mas teremos que ver.

À medida que as tensões sobre responsabilidade pela pandemia voltam a surgir, como uma guerra comercial dos Estados Unidos com a China poderia afetar a economia global?

Carmen Reinhart Uma guerra comercial definitiva seria outro grande ponto negativo. Não esqueça que em muitos outros países, incluindo os Estados Unidos, não tem sido apenas pela covid-19, mas pela guerra do petróleo entre Rússia e Arábia Saudita — que, no caso dos EUA, impactou todo o setor de energia. No caso da maioria dos mercados emergentes que são produtores de commodities, no entanto, o preço do petróleo está reduzindo. Nigéria, México, Angola e Equador foram realmente atingidos com força e não param por aí, porque outras commodities se movem em conjunto com o petróleo. Nesse sentido, a fraqueza dos preços das commodities é outro fator que atinge muitos países. Não apenas o volume do que é exportado é muito baixo por causa da crise da covid, mas o preço cai muito. Uma guerra comercial reforçaria todos esses pontos negativos.

Você está indo para o Banco Mundial, maior financiador dos países em desenvolvimento. Esses são os lugares menos equipados para superar os efeitos na saúde e finanças desta pandemia.

Carmen Reinhart Exatamente.

Quais são alguns dos desafios imediatos que o Banco Mundial enfrentará nos próximos meses?

Carmen Reinhart Os projetos e preocupações do Banco Mundial abrangem não apenas os empréstimos tradicionais em projetos de infraestrutura, mas a construção de estradas, a capacidade de serviços, a purificação de água, tudo isso. Uma das áreas sobre as quais acabei de escrever é como lidar com a crise alimentar provocada pela covid-19. O Banco Mundial está envolvido há algum tempo nos enxames de gafanhotos da África Oriental, que são grandes ameaças de fome. Neste curto período de tempo, concedeu empréstimos a 100 países para ajudar a lidar com a situação sem precedentes, observando que existem pequenos países insulares que dependem inteiramente do turismo e agora não têm renda. Existem produtores de commodities, sejam eles na América Latina, na Ásia Central ou na África Subsaariana, que não têm receita também porque o comércio está baixo, seus preços de exportação estão baixos, e eles estão em grande necessidade. O Banco Mundial também é um provedor e coletor de dados importantes. Essa é uma tarefa bastante difícil no momento. Portanto, suas atividades são muito abrangentes. Um dos desafios mais imediatos é descobrir como levar alívio aos países mais pobres.

Esta entrevista foi editada para melhor compreensão.

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