O que é bioeconomia, e qual o lugar do Brasil nesse campo

Mariana Vick
Artigo afirma que, apesar da abundante diversidade de espécies, Brasil investe pouco na produção de itens que derivam de substâncias naturais e têm alto valor agregado, como remédios. Pesquisadora do BIOTA/FAPESP comenta o cenário ao ‘Nexo Políticas Públicas’

A biodiversidade brasileira é uma fonte rica de recursos químicos e biológicos que podem ser usados para criar produtos naturais sofisticados, mas, por não investir o suficiente em tecnologia, o país desenvolveu poucos itens a partir de substâncias encontradas na fauna e na flora.

Um artigo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências analisa o cenário e aponta caminhos para o Brasil estimular o desenvolvimento de produtos naturais de alta tecnologia, ramo que pode contribuir para o crescimento econômico e estimular novos modelos de produção sustentável.

A publicação, escrita pelas pesquisadoras Vanderlan Bolzani e Marilia Valli, integrantes do BIOTA/FAPESP, um dos parceiros do Nexo Políticas Públicas, destaca o potencial da bioeconomia, segmento que se baseia no uso racional da biodiversidade para criar produtos nas áreas de alimentos, saúde e bioenergia, entre outras.

“As plantas são uma explosão dessas moléculas, dessas substâncias que a gente chama de produtos naturais. E nós os imitamos [na indústria]. Não existe um ser humano que produziu modelos moleculares tão fascinantes quanto a natureza”

Vanderlan Bolzani

professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista), integrante do BIOTA/FAPESP e presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, em entrevista ao Nexo Políticas Públicas

A produção de novos itens acontece quando pesquisadores isolam determinadas substâncias da fauna e da flora e descobrem que elas podem ter novos usos (aliviar uma dor, por exemplo). A partir de então, eles replicam essas moléculas e podem usar a descoberta para novos produtos, como um novo remédio.

“A morfina é o exemplo mais emblemático de uma molécula fascinante produzida pela biodiversidade que aplicamos na medicina”, afirmou Vanderlan Bolzani ao Nexo Políticas Públicas. “Até hoje, apesar de todo o desenvolvimento de analgésicos, ainda usamos a substância ou derivados dela.”

A baixa quantidade de produtos nacionais desenvolvidos a partir de substâncias descobertas no país é incompatível com a pesquisa acadêmica a respeito do tema, segundo o artigo de Bolzani e Valli. Inúmeras substâncias foram isoladas da biodiversidade do país, mas o conhecimento acadêmico ainda não chega à indústria brasileira.

Entre os produtos descobertos no Brasil está a bradicinina, substância do veneno da Jararaca-da-mata. Por inibir agentes que elevam a pressão arterial, ela deu origem a uma classe de remédios que tratam hipertensão, como o Capoten. Outro produto é o óleo essencial da erva-baleeira, base do anti-inflamatório Acheflan.

O que é bioeconomia

A bioeconomia é o conjunto de atividades que visam à produção e à distribuição de bioprodutos, ou seja, produtos que têm origem nos recursos biológicos, como biofármacos, insumos para a bioenergia, alimentos funcionais, produtos biodegradáveis e outros itens derivados de matéria natural.

O segmento se distingue de outros setores que usam os recursos naturais por dois motivos: pelo uso da biotecnologia (entre outros conhecimentos científicos de ponta) e pelo objetivo de construir um modelo de produção sustentável a longo prazo, baseado no uso de recursos renováveis e limpos.

2 trilhões

de euros é quanto a bioeconomia movimenta no mercado mundial, segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico)

Um exemplo de iniciativa que pode ser classificada dentro da bioeconomia é o Proálcool (Programa Nacional do Álcool), que surgiu no Brasil nos anos 1970, durante a crise mundial do petróleo. Com o programa, o país passou a produzir etanol para gerar energia a partir da cana-de-açúcar.

A bioeconomia faz parte das estratégias de mais de 40 países para o futuro, segundo o artigo de Bolzani. Por usar produtos naturais no lugar de recursos não renováveis, o setor tem potencial de fazer frente à mudança do clima e a outros desafios relacionados ao ambiente, à economia, à transição energética, à segurança alimentar e à saúde.

Ao Nexo Políticas Públicas, Bolzani disse que a definição de bioeconomia (como produção baseada na natureza) pode ser vaga, e que sua pesquisa tem como foco produtos que “vão além das monoculturas” como soja e açúcar. Entre eles estão medicamentos, produtos de higiene e fragrâncias criadas a partir de ativos identificados na natureza.

“[Apostar na bioeconomia] seria muito interessante para o país”, afirmou a pesquisadora. Ela diz, contudo, que o setor exige investimento. “[Investir] não é uma tarefa simples. É custosa, dispendiosa e, muitas vezes, frustrante, porque as pessoas querem resultados muito rápido.”

Qual o potencial do Brasil

A biodiversidade do Brasil é a maior do mundo. A variedade de espécies que se encontram no país inclui cerca de 103 mil animais e 43 mil tipos de vegetais, distribuídos em seis biomas terrestres e três ecossistemas marinhos, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

A quantidade de formas de vida originárias do país abriga plantas de importância econômica mundial, mas também uma diversidade química e biológica que, de acordo com o artigo de Vanderlan Bolzani, traz oportunidades para a inovação baseada em produtos naturais.

20%

do número total de espécies no mundo podem ser encontradas no Brasil, segundo informações do Ministério do Meio Ambiente

A fraca atuação do Brasil nesse campo se explica por opções que fez no passado. O país apoiou o desenvolvimento econômico na exportação de commodities (produtos básicos, como soja e açúcar) e não investiu em tecnologia para transformá-las em produtos de valor agregado, disse Bolzani ao Nexo Políticas Públicas.

A soja, por exemplo, é uma commodity. A isoflavona de soja (substância extraída do grão e usada para aliviar sintomas da menopausa) tem valor agregado e é um produto que demanda maior tecnologia para ser produzido, assim como outros do ramo da bioeconomia.

“Acho que, nos últimos 15 ou 20 anos, o país fez uma opção suicida de deixar de investir em alta tecnologia e começar a importar tudo, porque na época era conveniente, barato”, afirmou Bolzani. “Muitos setores nacionais deixaram de produzir. Mas hoje já não é tão fácil importar, por agora temos a alta do dólar.”

Além da falta de tecnologia, Bolzani criticou o desmatamento em biomas como a Amazônia. Segundo a pesquisadora, ele traz prejuízos para o conhecimento da biodiversidade. “Não são todos os lugares que têm florestas como a nossa. Quando você perde essa informação biológica [com o desmate], ela não tem volta.”

O artigo que Bolzani escreveu com Marilia Valli defende que o Brasil invista em educação, ciência e infraestrutura para mudar esse cenário. As pesquisadoras afirmaram que o país tem condições de se tornar o líder em uma transição para uma economia sustentável, baseada no uso racional de produtos naturais fabricados com alta tecnologia.

Para tentar resolver um problema que pode ser de acesso à informação, o artigo apresenta o NuBBE, banco de dados de produtos naturais da biodiversidade brasileira. A base disponibiliza 2.223 estruturas de produtos naturais on-line e fornece informações sobre as substâncias. A criação é de Marilia Valli com orientação de Bolzani.

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