O que falta aos governos para enfrentar a crise climática

Mariana Vick
A partir de três pesquisas, cientistas mostram descompasso entre políticas adotadas nos países e metas definidas no Acordo de Paris. Um dos autores dos trabalhos, o pesquisador Roberto Schaeffer, explica os achados ao ‘Nexo Políticas Públicas’

Um estudo publicado na revista científica Nature Communications mostra que as políticas climáticas adotadas pelos países nos anos recentes não estão à altura dos compromissos assumidos no Acordo de Paris, tratado internacional assinado por 195 governos em 2015 para deter o aquecimento global.

A pesquisa, divulgada em 2020 por um grupo de cientistas de 13 países, concluiu que as políticas atuais, se mantidas nos próximos anos, devem levar a um mundo incompatível com o objetivo de limitar a alta das temperaturas a 1,5ºC ou 2ºC em relação ao período pré-industrial, como defende o tratado.

O trabalho compara as políticas vigentes com as chamadas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), metas que os países definiram voluntariamente na época do Acordo de Paris para reduzir suas emissões de gases do efeito estufa. Entre as NDCs do Brasil, por exemplo, está zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030.

40%

é quanto, no mínimo, as emissões globais de gases-estufa devem diminuir até 2030 para o mundo atingir a meta do Acordo de Paris, segundo estudo da Nature Communications; o valor pode chegar a 50%, dependendo do caso

A pesquisa mostra também que, mesmo se os países perseguissem as metas que propuseram quando formularam suas NDCs, as ações não seriam suficientes para limitar o aquecimento global a 1,5ºC ou menos de 2ºC. Atualmente, as NDCs, postas em prática, levariam o mundo a uma alta de 2,9ºC a 3,3ºC até 2100.

A conclusão do estudo atualiza os resultados de uma pesquisa publicada pelo mesmo grupo de cientistas na Nature em 2016, poucos meses depois da assinatura do Acordo de Paris. À época, eles mostraram que os países deveriam propor NDCs mais ambiciosas se quisessem alcançar o limite de aquecimento considerado mais seguro pela ciência do clima.

Um dos integrantes desse grupo de cientistas é o professor Roberto Schaeffer, pesquisador do CENERGIA (Centro de Economia Energética e Ambiental), laboratório sediado na COPPE, programa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que está entre os parceiros do Nexo Políticas Públicas. Para ele, “o que os países e os governos estão fazendo não é suficiente para lidar com a mudança climática”.

“[A mudança climática] é uma crise ambiental de ordem de grandeza séria. [...] Mas faltam políticas públicas e, realmente, nada foi feito”

Roberto Schaeffer

pesquisador do CENERGIA/COPPE/UFRJ, em entrevista sobre suas pesquisas ao Nexo Políticas Públicas

Ao invés de estarem diminuindo, as emissões que causam o aquecimento global estão na verdade crescendo, segundo Schaeffer. Um terceiro estudo produzido pelo grupo de cientistas do qual faz parte, publicado na Nature em 2020, mostra que as taxas anuais globais de lançamento de gases-estufa aumentaram 14% de 2008 a 2018, e a lacuna entre as metas e a realidade do clima se amplia cada vez mais.

As três pesquisas apontam caminhos que os países podem seguir se quiserem alcançar as metas do Acordo de Paris. Ainda há tempo para os governos atualizarem suas metas climáticas. Ao assinarem o tratado em 2015, os países decidiram que adaptariam suas NDCs até a COP-26 (evento do clima marcado para 2020, mas adiado para 2021 pela pandemia do novo coronavírus).

O que os países têm feito

A pesquisa publicada na Nature Communications mostra que a maior parte dos países analisados adotou ou pretende adotar políticas que não são compatíveis com a redução necessária de emissões de gases do efeito estufa para se alcançar as metas feitas no Acordo de Paris.

A pesquisa diz que alguns países apresentam uma lacuna entre as políticas vigentes e suas NDCs (implementation gap, em inglês), enquanto outros têm uma lacuna entre suas NDCs e o tratado de Paris (ambition gap). A diferença é que, no primeiro caso, as metas não estão sendo cumpridas, enquanto, no segundo, elas não são o bastante.

5,5%

será a redução global de emissões de gases-estufa até 2030 (comparado com um cenário em que nada é feito), caso se mantenham as políticas de hoje nos países avaliados

17%

será a redução global de emissões de gases-estufa até 2030 (comparado com um cenário em que nada é feito), caso se implementem as NDCs nos países avaliados

A pesquisa avaliou as NDCs e a política climática vigente dos países que fazem parte do G20, grupo que engloba as maiores economias do mundo (e cerca de 75% das emissões globais de gases do efeito estufa), e comparou as emissões de hoje com aquelas estimadas no cenário de temperaturas 1,5ºC a 2ºC mais altas.

Entre as regiões avaliadas, as sete com mais emissões ganharam análises individuais: Brasil, EUA, China, União Europeia, Índia, Japão e Rússia. A pesquisa mostra que Brasil e EUA estão mais longe de pôr as NDCs em prática, mas têm metas mais ambiciosas que a China, que quase atinge seus objetivos, mas não contribui para o mundo de 1,5ºC.

Nesses lugares, a maior parte das políticas climáticas vigentes busca reduzir as emissões de gases vindas do setor de energia e transporte, exceto no Brasil, que produz maior proporção de emissões na agricultura e no uso da terra (aqui se inclui o desmatamento de florestas, como na Amazônia, por exemplo).

O que diz o Acordo de Paris

O Acordo de Paris, assinado em 2015, foi o primeiro tratado universal de combate à mudança do clima. Assinado por todos os países que participaram da COP-21 (conferência da ONU sobre o clima daquele ano), o documento foi considerado histórico por sua abrangência e pelos graus inéditos de ambição.

A resolução, além de estabelecer o teto de 1,5ºC a 2ºC para o aquecimento, envolveu todos os países na discussão e criou o expediente das NDCs, definidas como compromissos individuais e voluntários dos governos que, combinadas, fariam todos chegar à meta global de temperaturas.

A meta de 1,5ºC, considerada ambiciosa por cientistas na época do acordo, hoje representa o cenário mais seguro para as sociedades e o meio ambiente em termos de impactos que a mudança climática pode causar, disse Roberto Schaeffer ao Nexo Políticas Públicas.

Um relatório especial de 2018 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), grupo de cientistas vinculado à ONU, diz que permitir que as temperaturas subam acima desse ponto pode levar ao aumento do nível do mar e à perda de habitats naturais, de modo a impactar a saúde humana, os meios de subsistência e a economia.

A crise do clima

Causas

A mudança climática começa com atividades que emitem grande quantidade de gases que agravam o efeito estufa, fenômeno responsável por tornar o planeta mais quente. Entre os gases emitidos estão o CO2 (gás carbônico), o metano e o óxido nitroso. A maior parte das emissões é causada por atividades dos setores de energia, transporte e alimentos.

Efeitos

A emissão de gases como o CO2 agrava o efeito estufa e, como consequência, causa o fenômeno que tem sido chamado de aquecimento global. A principal consequência desse aquecimento é o aumento das temperaturas. Entre outros efeitos, há também a elevação do nível dos mares e o aumento de eventos climáticos extremos. A expressão mudança climática é um sinônimo abrangente de aquecimento global.

1ºC

foi quanto a temperatura média do planeta aumentou em relação ao período pré-industrial, antes do século 19; o Acordo de Paris pretende que esse marco não passe de 2ºC

Previsões

As projeções do clima mostram que o aquecimento global pode chegar de 3ºC a 6ºC até o fim do século 21 se o ritmo de emissões de gases do efeito estufa não diminuir. Para reduzir esse ritmo, são necessárias transformações em setores como o de energia e transportes. Em um futuro 2ºC, 3ºC ou 6ºC mais quente, a mudança do clima deve afetar (em grau maior ou menor) a economia, a saúde pública e o meio ambiente.

O que fazer para mudar o cenário

A pesquisa publicada pelo grupo de Schaeffer na revista Nature em 2020 cita o que os cientistas consideram bons exemplos de políticas que cidades, países ou empresas implementaram para reduzir suas emissões de gases do efeito estufa e contribuir para o alcance das metas climáticas definidas em Paris.

O estudo fala nos casos do Reino Unido, que definiu metas para criar uma economia de carbono neutro, da Costa Rica, que aumentou o uso de fontes renováveis na matriz energética, e, na esfera privada, de bancos que pararam de financiar novas usinas movidas a carvão, um dos principais poluentes de hoje.

A maior parte das iniciativas mapeadas está no campo da ambição (ou seja, a definição de metas ambiciosas de redução de emissões), do uso de fontes renováveis de energia (em substituição a fontes poluentes, como o carvão e o petróleo) e de mudanças na matriz de transportes, diz o estudo.

Ao Nexo Políticas Públicas, Roberto Schaeffer disse acreditar que, do ponto de vista técnico, é possível investir em novas políticas a tempo de cumprir as metas de Paris. A dificuldade é que, para implementar as mudanças, é preciso vontade política. “Se a gente fizer tudo igual, a gente não vai conseguir”, disse.

Para ele, a retomada após a crise do coronavírus deve definir se os países conseguirão reduzir suas emissões. “Há uma expectativa de que haverá investimento para ajudar a economia a sair da crise”, afirmou. “Mas há diferentes maneiras de fazer isso. Você pode expandir o setor energético via energia eólica e solar, ou você pode produzir petróleo e carvão de novo”, exemplificou.

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