O estudo que mapeou os vírus que atacam plantas no país

Mariana Vick
Inventário listou mais de 200 patógenos que infectaram espécies vegetais entre 1926 e 2018. Informações são úteis para a agricultura, segundo pesquisador

As infecções causadas pelos vírus podem atingir qualquer ser vivo, incluindo as plantas. As doenças, quando chegam a esses seres, afetam seu crescimento e têm potencial de dizimar plantações. Atualmente, estima-se que a maior parte das infecções das espécies vegetais seja causada por agentes virais.

Um levantamento do pesquisador Elliot Watanabe Kitajima, da Esalq (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”) da USP, se debruçou sobre o tema e chegou a uma conclusão inédita: um inventário de mais de 200 vírus e viroides para plantas que foram descritos no Brasil de 1926 a 2018. É a maior coletânea do assunto feita até hoje no país.

213

é a quantidade de espécies de vírus catalogadas na pesquisa; há também seis espécies de viroides (tipo de patógeno menor que o vírus comum)

A pesquisa foi publicada em maio de 2020 na revista científica Biota Neotropica, que faz parte do BIOTA/FAPESP (Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade), um dos centros de estudos parceiros do Nexo Políticas Públicas.

Ao todo, o inventário reúne mais de 100 páginas que listam e descrevem as espécies de patógenos identificados no Brasil nas últimas décadas. A lista foi feita a partir da análise de cerca de 8.000 referências de publicações científicas sobre vírus de plantas colecionadas ao longo de décadas por Kijitama, que trabalha com o tema desde 1958.

“Uma questão frequente de estudantes e leigos era: o Brasil é imenso. Quantos vírus de plantas se conhece? Não tínhamos resposta imediata, embora sentíssemos que fossem numerosos”

Elliot Watanabe Kitajima

engenheiro agrônomo e pesquisador na Esalq-USP, em entrevista sobre o estudo ao Nexo Políticas Públicas

Além do inventário de vírus, a pesquisa identificou 345 espécies vegetais que ao longo das décadas foram naturalmente infectadas pelos patógenos. Entre elas, as mais atingidas são das famílias Fabáceas (que engloba as leguminosas, como feijão e ervilha) e Asteráceas (que inclui plantas como o girassol).

A quantidade de 213 tipos de vírus identificados na pesquisa se refere àqueles que são reconhecidos oficialmente pelo Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV, na sigla em inglês), grupo responsável por verificar os seres descobertos pela ciência. A lista de Kitajima, contudo, conta também com pelo menos 130 outros possíveis patógenos além dos oficiais.

O que são vírus de plantas

A definição de vírus de plantas inclui todas as espécies do patógeno que obrigatoriamente precisam se hospedar em espécies vegetais para conseguir se desenvolver e se multiplicar. Às vezes, esses vírus podem causar doenças em suas hospedeiras, dependendo do estado de saúde das plantações.

A virologia conhece os vírus de plantas há tanto tempo quanto conhece qualquer vírus. As primeiras pesquisas na área surgiram da análise de um agente que afetava vegetais: o chamado vírus do mosaico do tabaco, identificado no século 19 como causador de doenças na planta. Após esse momento, a ciência identificou a presença do patógeno em outros seres vivos.

As infecções de plantas podem causar efeitos diferentes, dependendo do tipo de patógeno que provoca a doença e da espécie atingida. Entre os sintomas comuns estão manchas, necroses, distorções, nanismo e redução de fotossíntese, entre outros. A combinação de prejuízos pode resultar na perda de produção de flores e frutos ou, nos casos mais graves, na morte.

“Todas as plantas cultivadas [no estudo] podem ser infectadas por um ou mais vírus, muitas vezes simultaneamente. Dependendo do nível de incidência e de quando a infecção se instalou, o grau de perdas é variado, indo de casos em que sequer se apercebe a doença até as situações de perda total”

Elliot Watanabe Kitajima

engenheiro agrônomo e pesquisador na Esalq-USP, em entrevista sobre o estudo ao Nexo Políticas Públicas

A maior parte das infecções chega às plantas por meio de vetores (organismos que transportam os vírus de uma espécie a outra), como insetos, ácaros e fungos do solo. A transmissão também pode acontecer pelo pólen, por sementes, pela reprodução ou também, raramente, pelo contato direto entre plantas.

Foto: Douglas Lau/Embrapa
Folha de trigo com manchas amareladas, um dos sintomas do mosaico-do-trigo.
Folha de trigo com sintomas de mosaico-do-trigo, doença causada por vírus

Ao todo, a pesquisa de Kijitama identificou no Brasil 10% dos cerca de 2.000 vírus de plantas que são reconhecidos pelo ICTV, disse o pesquisador ao Nexo Políticas Públicas. As espécies mais numerosas no país são dos gêneros Begomovirus e Potyvirus. “Certamente deve haver muito mais patógenos que estão esperando serem descobertos”, afirmou.

As infecções que atacam plantas costumam se restringir às espécies vegetais. Ainda que existam vários casos de vírus capazes de também infectar mosquitos e outros artrópodes, até hoje nenhum agente conhecido por atingir as plantações chegou a migrar para os chamados animais vertebrados, grupo que inclui os humanos, segundo Kijitama.

Por essa razão, os vírus de plantas raramente causam danos tão significativos para a atividade humana como as epidemias causadas por patógenos que atingem pessoas e animais. Entre elas está a pandemia do novo coronavírus, que desde que a infecção foi identificada, no fim de 2019, deixou milhões de doentes e paralisou a maior parte das atividades econômicas nos países.

Como os vírus nos afetam

A principal ameaça relacionada à disseminação de viroses em plantas está na agricultura. As infecções que se propagam em larga escala podem causar danos significativos em áreas de cultivo de vegetais, frutas, grãos e outros tipos de plantas, às vezes matando as espécies que estão ali, em outros casos prejudicando a qualidade da produção agrícola.

As doenças são frequentemente associadas a perdas em plantios em diversas partes do Brasil, segundo estudos. A pesquisa de Kijitama afirma que o país tem o duplo desafio de ser um lugar continental — ou seja, com condições ambientais e climáticas suficientes para abrigar uma série de patógenos — e o de estar entre os principais produtores agrícolas e pecuários do mundo.

5,18%

foi a participação da agropecuária no PIB (Produto Interno Bruto) nacional em 2019, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

A infecção que mais bem representa as perdas que as viroses podem causar é a tristeza dos citros, doença vinda da Argentina que matou mais de 10 milhões de laranjeiras no estado de São Paulo na década de 1940. A doença foi controlada algum tempo depois pela introdução de um tipo mais fraco do vírus na muda das plantas, que servia para protegê-las da forma mais severa da infecção.

Atualmente, não há alternativa economicamente viável para eliminar os vírus vegetais de forma química (usando antivirais e outros remédios, por exemplo), segundo Kitajima. Todas as estratégias para controlar doenças de plantas são preventivas, na tentativa de evitar que os vírus cheguem às grandes lavouras, disse ele ao Nexo Políticas Públicas.

Entre as estratégias estão o uso de sementes limpas, o controle de vetores (por meio de cercas-vivas que evitem sua chegada ou do cultivo de inimigos naturais) e técnicas de plantio adequadas. Ainda assim, se um vírus chegar ao cultivo, pode-se erradicar as plantas infectadas ou usar variedades de espécies que sejam resistentes.

A pesquisa de Kijitama, nesse sentido, pode servir como fonte de informação para engenheiros agrônomos e produtores rurais que, diante do surgimento de uma doença desconhecida em uma plantação, precisam saber identificar adequadamente a infecção e o vírus que a causa para isolar as plantas doentes, controlar a incidência do patógeno e reduzir os danos.

O estudo também pode ser útil para os pesquisadores na área de virologia, que encontram no inventário a revisão da literatura produzida sobre viroses em plantas desde o início do século 20. “A listagem deve ser útil na identificação de patógenos e para conhecer o estado da arte, a epidemiologia e os trabalhos previamente feitos”, disse Kitajima.

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