Como a gestão das escolas influencia a aprendizagem de adolescentes

Mariana Vick
Mudanças práticas no cotidiano escolar podem melhorar notas e diminuir evasão. Livro avalia impacto de programa que capacitou diretores, coordenadores e professores de ensino médio

A crise de aprendizagem constitui há anos um dos principais desafios da educação no Brasil. A qualidade do ensino, em geral, é considerada fraca, e avaliações mostram que a maior parte dos estudantes não tem conhecimento adequado de disciplinas vistas nas escolas, como português, matemática e ciências.

Um livro lançado em junho pelo CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco, centro de pesquisa parceiro do Nexo Políticas Públicas, analisa o problema e mostra que uma das respostas para a aprendizagem pode estar na gestão escolar, trabalho feito por diretores e coordenadores das escolas.

A publicação, chamada “Avaliação de impacto em educação: A experiência exitosa do programa Jovem de Futuro em parceria com o poder público”, divulga os resultados do Jovem de Futuro, programa do Instituto Unibanco que desde 2008 oferece capacitação para gestores de escolas públicas de ensino médio. A iniciativa é feita pelo centro em parceria com as secretarias de Educação estaduais.

A avaliação do CPTE mostra que, em mais de 10 anos, as escolas que participaram do Programa Jovem de Futuro viram as taxas de aprovação de seus estudantes aumentar. A proficiência em provas de português e matemática de ensino médio também melhorou, segundo o livro.

4,4

pontos percentuais foi a evolução dos estudantes que participaram do Jovem de Futuro na proficiência em língua portuguesa, segundo o livro

4,8

pontos percentuais foi a evolução dos estudantes que participaram do Jovem de Futuro na proficiência em matemática, segundo o livro

1,4

ponto percentual foi a evolução da taxa de aprovação nas escolas que participaram do Jovem de Futuro

4,2

pontos percentuais foi a proporção de estudantes que participaram do Jovem de Futuro e deixaram de estar no nível mais crítico de proficiência em matemática, segundo o livro

A iniciativa mostra um impacto relevante, num contexto em que o ensino médio no Brasil parece ter estagnado, segundo Mirela de Carvalho, gerente de gestão de conhecimento do Instituto Unibanco e membro do CPTE. “[Cinco pontos a mais] é muito ou pouco? Depende”, disse ao Nexo Políticas Públicas. “É menos do que o Brasil precisa, porque nosso problema é grande. Mas garantir esses pontos é muito bom. É quase o mesmo impacto de colocar uma série a mais no ensino médio.”

A avaliação do programa foi feita a partir de um método chamado avaliação experimental, no qual grupos (no caso, grupos de escolas) com características semelhantes foram divididos aleatoriamente e analisados pelos pesquisadores. A única diferença entre as escolas nos grupos era que algumas participam do Programa Jovem de Futuro e outras, não.

Até o fim de 2019, a avaliação havia abarcado 1.161 escolas, divididas em 380 estratos (nome dado pelo estudo aos grupos de escolas com as mesmas características). A análise considerou escolas de nove estados onde o Jovem do Futuro atua ou já foi implementado, entre eles São Paulo, Goiás, Ceará e Piauí. A partir dos resultados, o Instituto Unibanco considera expandir o programa para outros lugares.

Qual o papel da gestão escolar

A gestão escolar é o processo pelo qual diretores e coordenadores organizam o trabalho, as pessoas e os recursos das escolas para atingir certos objetivos (como a melhoria da aprendizagem). Atuando como líderes, os gestores têm a função de observar as atividades de sua equipe e propor como melhorá-las.

A prática pode ser comparada à de um maestro, segundo Mirela de Carvalho. A gestão interfere na aprendizagem dos estudantes ao decidir sobre temas como o currículo escolar, as práticas dos professores, as atividades extraclasse e a administração de toda a escola, dentro e fora das salas de aula.

“O gestor não é um administrador, é um líder. Ele tem que ser inspirador. [...] Estar numa escola com visão, proposta, com liderança engajadora, um clima bom, traz um sentimento de pertencimento e bem-estar que te faz querer estar ali. E é preciso querer ir à escola para aprender”

Mirela de Carvalho

gerente de gestão do conhecimento do Instituto Unibanco e membro do CPTE

A relação entre gestão e aprendizagem pode parecer óbvia, mas, além da intuição, uma série de pesquisas comprovam esse elo. Entre os fatores escolares, a ação de gestores só se supera pela atuação de professores em termos de impacto no aprendizado, segundo o livro do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco.

A publicação cita um estudo do Departamento de Educação dos EUA segundo o qual certas práticas de gestão estão altamente relacionadas com a melhoria dos resultados gerais. São elas a liderança da direção, o foco na aprendizagem, o uso de dados e metas, a criação de estímulos para a equipe escolar e o reconhecimento do que é positivo.

Outro texto citado é “A Decade of Research on School Principals” (“Uma década de pesquisa sobre diretores de escolas”, em tradução livre), livro que compilou estudos de 24 países. A pesquisa concluiu que, em todos os lugares, diretores de escola estão sujeitos a cada vez mais escrutínio, devendo prestar contas pelo desempenho dos estudantes a governos e comunidades.

As práticas de liderança escolar são intensas em países com sistemas educacionais de alto desempenho, mas ainda recebem pouca atenção de formuladores de políticas públicas do Brasil, segundo o livro “Avaliação de impacto em educação”. As pesquisas sobre o tema na América Latina apontam “diversos problemas, contradições e falta de coerência interna e externa”.

“O gestor [no Brasil] é muito comprometido”, disse Mirela de Carvalho ao Nexo Políticas Públicas. Mas, segundo ela, não há marco de gestão no Brasil, uma política que oriente os gestores a como trabalhar nas escolas. “Faltam recursos, ferramentas. Qual método eu sigo? Que indicadores eu olho? Como eu organizo uma conversa? Como dou feedback para os professores?”

Para a gerente do Instituto Unibanco, o trabalho de gestão no Brasil é visto como “de herói”, ao qual as pessoas se dedicam muito, mas sem a profissionalização devida. Ao Nexo Políticas Públicas, Carvalho também disse que gestores escolares precisam de apoio dos órgãos centrais da Educação (que incluem secretarias e regionais de ensino) para conduzir suas atividades e sair do isolamento. “A gente vê escolas muito isoladas, sem troca, sem conversa”, afirmou.

Quais os desafios do ensino médio

A baixa performance do ensino médio no Brasil aparece há anos em indicadores do ensino público. A etapa, uma das mais sensíveis da educação básica, tem desafios como a baixa qualidade, a falta de professores e falta de interesse dos alunos nas atividades da escola.

A publicação do Instituto Unibanco conta que, em 2005, antes da criação do Programa Jovem de Futuro, apenas 5% dos jovens que estavam na 3ª série do ensino médio tinham aprendizado adequado em matemática nas escolas públicas estaduais. A taxa de abandono de estudantes da rede pública era de 18%, e a de reprovados, de 11%.

Atualmente, a nota média de matemática de estudantes nessa etapa é de 260 pontos (de 475), segundo dados da escala Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) do governo federal. A nota é a mesma de 2005. Já em língua portuguesa (cuja nota máxima do Saeb é de 425), houve avanço de 10 pontos, menos da metade do que foi visto no ensino fundamental.

Desempenho em matemática

Ensino fundamental evoluiu mais que ensino médio na proficiência em matemática. Notas do ensino médio oscilam para cima e para baixo entre 2005 e 2017. Em 2017, a nota de estudantes de ensino médio em matemática era igual à de 2005.

Desempenho em português

Ensino fundamental evolui mais que ensino médio em proficiência em português.  Notas do ensino médio oscilam para cima e para baixo entre 2005 e 2017.

A taxa de aprovação, por outro lado, melhorou em pouco mais de uma década. De 71,6% estudantes de ensino médio aprovados em 2007, o número subiu para 81,5% — o equivalente a 0,9 ponto percentual de evolução ao ano, segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), do governo federal.

Mais aprovados

Número de aprovados na rede estadual de ensino médio está consistentemente aumentando entre 2007 e 2018.

Ao Nexo Políticas Públicas, Mirela de Carvalho disse que o ensino médio não é só difícil no Brasil, mas em todo o mundo. “Tem a ver com a faixa etária”, disse. “É uma transição para a vida adulta. O jovem pensa: o que vou fazer [depois da escola]? Sem trabalhar o sentido [da escola], a gente não consegue fazer os jovens quererem ficar e aprender”.

Para a gerente do Instituto Unibanco, como o ensino médio é uma etapa complexa, “o desafio de gerir uma escola assim é grande”. Além de ser mais difícil desenhar um currículo que atraia os jovens nessa etapa, há o desafio da maior quantidade de professores, por exemplo. “Como a gente tem uma lacuna de política para melhorar a gestão, as escolas de ensino médio têm precariedade maior ainda.”

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