'A lição é nunca esquecer'

Liz Mineo
Pesquisadora da Universidade de Harvard, especialista no gerenciamento de riscos de pandemias compara a gripe de 1918 à covid-19

Este texto faz parte da série Coronavírus Update, na qual especialistas da Universidade de Harvard em epidemiologia, doenças infecciosas, economia, ciência política e outras disciplinas oferecem conhecimento e visões sobre como as últimas descobertas sobre o surto da covid-19 podem nos ajudar.

Olga Jonas, pesquisadora sênior do Instituto Global de Saúde de Harvard, é especialista no gerenciamento de riscos de pandemias. Durante seus 33 anos como economista no Banco Mundial, uma de suas responsabilidades era coordenar a contribuição do banco aos esforços globais para reduzir as ameaças de pandemias de gripes aviária e influenza, entre 2006 e 2012. Em 2013, Jonas escreveu de Pandemic Risk, publicado no renomado anuário World Development Report.

Enquanto o Gazette conversava com Jonas sobre o que os governos podem aprender com o surto de coronavírus para estarem preparados para a próxima pandemia, o Johns Hopkins Coronavirus Resource Center mostrou que o vírus infectou mais de 2 milhões de pessoas e matou mais de 150.000 em todo o mundo [em 24 de junho, esse número era de mais de 9 milhões de infectados e mais de 470 mil mortos].

Quais são as diferenças entre a pandemia da gripe espanhola de 1918 e a pandemia do coronavírus de 2019? Quais são as semelhanças?

Olga Jonas Felizmente, essas pandemias não ocorrem com muita frequência, mas a velocidade da propagação do vírus é muito preocupante. Uma clara diferença é que o mundo está agora muito mais densamente povoado do que em 1918. Havia menos de 2 bilhões de pessoas em 1918, e agora existem 7,5 bilhões, e a população é muito mais móvel. Em 1918, não havia viagens aéreas. As pessoas se movimentam muito mais e a propagação de um vírus é muito mais rápida do que anteriormente, quando as pessoas viajavam de navio, cavalo ou simplesmente não viajavam. Outra diferença é que, em 1918, entre 50 e 100 milhões de pessoas morreram em dois anos.

Quais lições os especialistas aprenderam com a pandemia da gripe espanhola de 1918?

Olga Jonas Muitos livros e documentos foram escritos sobre a pandemia da gripe espanhola de 1918, e um dos principais temas [de que eles tratam] é a rapidez com que ela foi esquecida e desapareceu do discurso político. Acho que a lição é nunca esquecer, porque o esquecimento não leva a resultados positivos na saúde pública. Tivemos algumas emergências globais de saúde pública desde então, mas elas têm sido menos proeminentes: HIV/aids desde os anos 80, Sars em 2003 e a pandemia do vírus influenza H1N1 de 2009. O interessante é que todos esses eventos pegaram as autoridades e o público em geral de surpresa, mas os cientistas que estudam pandemias não foram surpreendidos.

Uma lição que devemos lembrar é que os governos têm a responsabilidade de se preparar para uma pandemia. Eles têm a obrigação de investir em sistemas de saúde pública para proteger seus cidadãos da ameaça e da realidade da próxima pandemia.

Como você avalia a reação do governo dos EUA à pandemia do coronavírus?

Olga Jonas O governo dos EUA não reagiu nem rápido, nem adequadamente em janeiro, quando o primeiro caso confirmado de coronavírus foi encontrado no país. Os governos precisam agir no início do surto, porque o contágio se espalha exponencialmente. Dois infectam quatro, quatro infectam 16 e 16 infectam 84, e assim por diante. Houve lapsos sérios no início, como a falta de capacidade de testes necessários. Quando os testes começaram nos Estados Unidos, já era tarde demais, e, em um surto, cada dia conta.

A comparação entre os EUA e a Coreia do Sul é muito reveladora. O primeiro caso confirmado de covid-19 foi encontrado nos Estados Unidos no mesmo dia da Coreia do Sul: 20 de janeiro. A Coreia do Sul agiu imediatamente, proibindo reuniões e aglomerações de pessoas, implementando testes extensivos, rastreamento de contatos, isolando os infectados e colocando em quarentena aqueles suspeitos de estarem com o vírus. Como resultado, a Coreia do Sul conseguiu conter a propagação do vírus. Houve mais de 10.000 casos e cerca de 200 mortes. Por outro lado, nos Estados Unidos, a situação está piorando a cada dia. Hoje [17 de abril] existem quase 700.000 casos e quase 35.000 mortes, e os números continuam crescendo.

Quais foram as medidas que poderiam limitar a propagação do vírus e foram ignoradas pelos governos e instituições oficiais de financiamento como o Banco Mundial?

Olga Jonas Para reduzir o risco de uma pandemia, o principal requisito é que o governo esteja preparado para reagir assim que um novo vírus com potencial pandêmico aparecer. Os governos precisam ter sistemas de vigilância, diagnóstico e resposta já implantados antes de um surto, e esses sistemas precisam ser adequadamente financiados. Esse não foi o caso nos Estados Unidos ou em outros países. Esses sistemas são realmente tratados como de baixa prioridade quando os fundos públicos são alocados, o que é trágico.

Os países menos desenvolvidos carecem de capacidades essenciais de saúde pública para a saúde animal e humana. Os sistemas de vigilância de surtos de vírus são os seguintes: sistemas de laboratório que possam identificar patógenos e um sistema de capacidade de resposta rápida para implementar medidas de saúde pública para reduzir a propagação de um vírus. Esses sistemas desempenham três funções críticas: detectar, diagnosticar e responder a surtos de doenças. A capacidade de saúde pública veterinária é importante porque 75% das novas doenças infecciosas são originárias de animais. Para citar apenas algumas: influenza, Mers, Sars, covid-19 e HIV/aids.

“Os governos têm a responsabilidade de se preparar para uma pandemia; eles têm a obrigação de investir em sistemas de saúde pública para proteger seus cidadãos da ameaça e da realidade da próxima pandemia”

Infelizmente, muitos governos, mesmo em países desenvolvidos, têm relutado em se planejar com antecedência porque, após o evento [a emergência de saúde], o tema não parece ser mais urgente. Eles não veem a necessidade de investir na proteção de seus cidadãos dos efeitos de uma pandemia. É lamentável e míope. Os especialistas falam o tempo todo, ressaltando os riscos, mas geralmente são marginalizados. É irônico, porque essas capacidades básicas de saúde pública também são necessárias para melhorar o funcionamento do sistema de saúde. Felizmente, a covid-19 incentivará o mundo a aumentar e manter investimentos em sistemas de saúde pública. Esse será o investimento mais produtivo em favor da humanidade.

Como você caracteriza a resposta da Casa Branca à crise de saúde do coronavírus?

Olga Jonas O que sabemos da pandemia da gripe espanhola de 1918 é que as cidades ou governos que tomaram medidas precoces na imposição de quarentenas, no fechamento de escolas e na proibição de reuniões de massa tiveram menores taxas de mortalidade do que os locais que tomaram menos medidas ou as tomaram mais tarde. Também sabemos que as autoridades com uma estratégia clara para se comunicar com o público sobre o que está acontecendo e o que as pessoas devem fazer são muito importantes para evitar impactos econômicos e a propagação de um surto. É necessária uma estratégia de comunicação precisa e eficaz, pois isso determinará como as pessoas cooperarão ou não com as medidas de controle e, assim, a reduzirão a disseminação. A comunicação precisa também reduz custos econômicos substanciais, especialmente aqueles causados por comportamentos alterados do consumidor, mesmo antes de qualquer quarentena ser imposta.

Após essa pandemia, as pessoas vão escrever artigos sobre liderança inadequada e mensagens confusas da Casa Branca. Os especialistas sabem que a falta de clareza durante uma emergência de saúde pública reduz a confiança, convida a rumores, suspeitas e incertezas e tem grande impacto negativo na atividade econômica. É até provável que exista uma estratégia de comunicação escrita com antecedência, mas parece que ela não foi usada.

Quais lições os governos podem aprender com essa pandemia?

Olga Jonas Uma lição que espero que todos aprendamos é que os governos devem investir nas capacidades básicas de saúde pública necessárias para os esforços de preparação e prevenção para uma pandemia. Como sabemos agora, uma pandemia não é apenas um problema de saúde. Tem sérios impactos econômicos e os efeitos na sociedade, em geral, podem ser profundamente prejudiciais. A prevenção tem taxas de custo-benefício muito mais altas do que gastar dinheiro em contenção, mitigação e outras respostas de emergência após o acontecimento.

A outra lição que devemos sempre lembrar é que os governos devem ouvir especialistas e cientistas que sabem como prevenir a propagação de doenças infecciosas. O que é irônico é que, nos últimos 15 anos, ninguém prestou atenção ao que os especialistas estavam dizendo. Nos últimos três meses, todo mundo quer ouvir os especialistas e, finalmente, se preocupar com o que temos a dizer.

Esta entrevista foi editada e condensada por questões de tamanho e clareza.

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