FOTO: Safira Moreira/Olabi Makerspace - 29.abr.2017
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Mulher preta e cientista: transgredir para resistir

Rosangela Aparecida Hilário e Valdenia Guimarães e Silva Menegon
Não haverá avanços para a equidade sem reivindicar igualdade e justiça social. Além disso, para melhorar a entrada de mulheres em produções científicas, é preciso formar boas professoras

Na data em que se comemora o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, é necessário destacar: no Brasil, as mulheres já somam 100,5 milhões de cidadãs, ou 51,5% da população total. Mulheres negras compõem o maior grupo demográfico do país. Já somos mais de 28% da população brasileira.

Também é relevante apontar que no campo da pesquisa, as mulheres, de modo geral, foram historicamente excluídas dos espaços teóricos e de produção do conhecimento acadêmico/científico. Nos últimos anos, entretanto, já temos motivos para celebrar: a taxa média de conclusão das mulheres em cursos de graduação é de 43%, enquanto os homens representam 35% dos formandos. Importante destacar que dos 20 cursos com maior número de matrículas, há apenas quatro relacionados a área de Steam, sendo três de engenharia com participação de mulheres que varia de 10,1 a 33,3% e o de Sistema de Informação, no qual mulheres representam 14% dos alunos 1.

Seriam dados para celebrar se mulher fosse uma categoria universal. Não sendo, cabe a pergunta: quais mulheres vencem as barreiras impostas pelo gênero e todas as bagagens subjacentes em uma sociedade patriarcal para engordar as estatísticas a serem celebradas? Em qual território essas mulheres estão inseridas e como sua ascensão move as peças no complexo tabuleiro social, sobretudo, após uma pandemia que se estende por dois anos?

Mulheres cientistas têm um passado de meninas estimuladas para buscar novas respostas para velhos problemas. São meninas que recebem elogios por seu percurso e dispõe de tempo para agendas que lhes permitem potencializar os saberes. São meninas estimuladas a viver sua infância e questionar, ter curiosidade, experimentar, dialogar e plenificar. Em grande medida, meninas cujos pais entendem que o conhecimento é o maior patrimônio de qualquer ser humano na contemporaneidade.

Não é o caso das meninas pobres. Menos ainda o caso das meninas pretas e pobres. Ao longo dos últimos dois anos, temos acompanhado um movimento de evasão escolar majoritariamente por meninas de territórios periféricos: segundo o Portal Favela, de cada dez meninas que abandonam a escola, seis são pretas. Abandonam não porque querem: porque precisam contribuir para levar o alimento do dia. Estão “engordando” diárias das mães fazendo o serviço que ninguém quer fazer: limpando fezes de cachorro, quintais, levando os animais para passear. Podemos afirmar que essa realidade se constitui como um reflexo do patriarcado ocidental e branco que atinge de forma muito mais agressiva as mulheres negras. De acordo com Françoise Vergès (2020), “todos os dias, em todo lugar, milhares de mulheres negras, racializadas, ´abrem` a cidade. Elas limpam os espaços que o patriarcado e o capitalismo neoliberal precisam para funcionar”.

Entender as nuances e possíveis leituras dessas assimetrias é fundamental para entender o alcance de conceitos como “desigualdade”, “diversidade” e “diferença”

Entender as nuances e possíveis leituras dessas assimetrias é fundamental para entender o alcance de conceitos como “desigualdade”, “diversidade” e “diferença”. Não se quer mais debater a igualdade, mas o direito de celebrar e transbordar de sentido de humanidade a diversidade, que constitui e enriquece. Mas, para tanto, é preciso admitir a existência de lugares e espaços em que as narrativas e saberes de mulheres pretas não reverberam. A abolição” libertou sem preparar, sem permitir sobrevivência fora da subalternidade. Se já foi difícil aos homens, para as mulheres limitou, desorganizou, apequenou o sentido de existência.

A agenda dos movimentos de existência das mulheres pretas não cabe nas reuniões feitas no período vespertino por mulheres cujas casas e famílias são cuidadas justamente por mulheres negras. A sororidade reivindicada por elas não contempla as dores e ausências que não sentem, e, portanto, não lhes diz respeito. Os questionamentos das empregadas domésticas que mantém a ordem para participação em reuniões para debater equidade não são sequer mencionados. Qual equidade pode existir em um processo que já exclui a categoria de mulheres trabalhadoras domésticas?

Por outro lado, mulheres e meninas negras, em função de seu percurso assimétrico para dar conta de retornar tantas vezes quantas forem necessárias para buscar quem ficou para trás, sofrem o efeito do uso do tempo, o que impacta diretamente sobre a sua participação em processos de aprender, questionar, experenciar: enquanto meninas brancas se dividem entre as aulas de idioma para aumentar competitividade e esportes para manter a sanidade, meninas negras se dividem entre os cuidados com a casa e com irmãos menores e a busca de recursos para contribuir na manutenção da casa. Então, carecemos de políticas que contribuam para vencer as assimetrias. Diminuir as desigualdades.

Primeiro ponto: não haverá avanços para equidade sem reivindicar igualdade e justiça social. É preciso fomentar o desenvolvimento científico fortalecendo a formação de professoras para lidar com crianças reais: pretas, pobres, brancas, indígenas, quilombolas. Porque a escola tal e qual está proposta, e com o atual processo de formação de professoras, como sinônimo de classificar quem vai mandar e quem vai obedecer, não é um modelo para formação de cientistas: para ratificar divisão de classes. Então, para melhorar a entrada de mulheres em produções científicas, que impactem as existências, é preciso parar de torcer o nariz e formar boas professoras de matemática, ciências, biologia, sociologia, literatura, artes visuais. Diminuir as desigualdades sociais. Formar professoras para ensinar alunas a transgredir ao estabelecido para elas. Criar a cultura da curiosidade e da disciplina.

Segundo ponto: o conceito de aquilombamento, ainda que de maneira implícita, é muito presente nas produções de mulheres pretas, produzimos no coletivo como estratégia também de expansão e conhecimento dos estudos. Juntamo-nos para ter visibilidade e para pautar ações que permitam que mais mulheres acessem as condições básicas para sair da subalternidade. Literalmente, uma sobe e puxa a outra. Começar a dar mais atenção ao que foi produzido por intelectuais negras que tiveram que vencer a pobreza para adquirir o direito de falar e de serem ouvidas.

Concluímos ousando afirmar que, quando uma mulher preta vence as adversidades e consegue produzir um conhecimento, todo o universo que gravita no entorno dela melhora, vibra e avança. Isso sim é motivo para celebrar todos os dias. Então, concluímos conclamando mais mulheres nas ciências. Principalmente pretas, pobres e periféricas, historicamente deixadas à margem.

BIBLIOGRAFIA

Carneiro, Sueli. Escritos de uma vida. São Paulo: Pólen, 2019.

Césaire, Aimmèe. Discurso sobre o colonialismo. São Paulo: Veneta, 2020. 136 p.

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Fonseca, Dagoberto José. Políticas públicas e ações afirmativas. São Paulo: Selo Negro, 2018.

Gonzalez, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Org.: Flávia Rios, Márcia Lima. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

Vergés, Françoise. Um feminismo decolonial. Ubu Editora, 2020.

Rosangela Aparecida Hilário é doutora em Educação/FEUSP. Professora associada da Universidade Federal de Rondônia. Líder do Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde. Membra do Comitê Executivo da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas.

Valdenia Guimarães e Silva Menegon é doutora em História/Unisinos, diretora do Instituto Valdenia Menegon. Professora da Educação Básica. Membra do Comitê Executivo da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas.

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