FOTO: Geraldo Magela/Agência Senado
FOTO: Geraldo Magela/Agência Senado

Falemos com nossos jovens

Esther Solano e Camila Rocha
A percepção de uma corrupção generalizada e a ausência de canais de comunicação e participação para os jovens os está afastando drasticamente do engajamento democrático

Nas últimas eleições, o grupo de eleitores composto por jovens de 16 a 24 anos era de cerca de 10 milhões, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Essa é a diferença aproximada entre os votos recebidos por Jair Bolsonaro e aqueles depositados em Fernando Haddad, no segundo turno das eleições de 2018. Dilma Rousseff foi eleita por uma diferença de 3,5 milhões de votos em 2014. Trata-se, portanto, de um eleitorado que pode ser decisivo.

Contudo, é justamente entre os jovens que mais cresce o absenteísmo eleitoral. De acordo com o TSE, em 2020 a abstenção entre eleitores de 17 a 24 anos cresceu 12% em comparação a 2016. Quem começa a participar das eleições em 2022 duvida do potencial dos cargos em disputa de realizar mudanças reais na sociedade. Essa aparente falta de crença nas instituições políticas motivou uma pesquisa com jovens brasileiros, argentinos, colombianos e mexicanos sobre sua relação com a democracia lançada recentemente pela Fundação Luminate.

Durante o segundo semestre de 2021, foram conduzidos 60 grupos de discussão, abrangendo 180 jovens de 16 a 24 anos, de diferentes condições socioeconômicas e posicionamentos ideológicos. O intuito da investigação foi compreender o que estaria por trás de um aparente menor engajamento da juventude com a política em geral e a democracia. Os resultados apontam para diferentes direções.

Partidos, escolas, famílias, imprensa. Precisamos de nossos jovens. Se a política não for para eles, não temos futuro

As rodadas de grupos de discussão mostram que os jovens brasileiros apoiam a democracia e defendem o voto como instituição, mas o fazem de forma bastante desapaixonada. Para eles, a ordem institucional está eminentemente capturada por elites que pouco se importam com a população e dominada por uma lógica e personagens envelhecidos que excluem os jovens do diálogo. No centro desta crítica, o partido político, visto como excessivamente burocratizado, afastado da juventude e imerso na lógica do poder.

Filhos da revolução democrática representada pela popularização da internet, trocam informações e adquirem conhecimentos sem a mediação de jornais impressos e da televisão aberta. Eles consomem informação política de uma forma que as gerações mais velhas considerariam muito heterodoxa: falam de assuntos do dia em meio a conversas durante tardes de “games”, adquirem noções de empoderamento feminino em lives sobre maquiagem no Instagram, e se informam da polêmica política do dia por um vídeo de 60 segundos no TikTok. Mas é esta a polêmica do dia. O conhecimento político destes jovens está muito filtrado pelas redes sociais e lá, eles não consomem exatamente a informação e sim a opinião alheia sobre uma dita informação, “a treta” que esta causou. O que o influencer do momento postou, o que o amigo retweetou, o like ou dislike, por isso eles percebem a política como campo de batalha, como dissenso, como bolha e como...cancelamento. A maioria reconheceu nas entrevistas que sentia medo da violência online e que preferia, com frequência, se auto silenciar para não sofrer cancelamento virtual.

A informação política consumida, maioritariamente, é a informação sedutora, aquela rápida, fácil, divertida, leve, polêmica. Do restante, do dia a dia do funcionamento da máquina pública, das entranhas do Estado, eles reconhecem saber muito pouco, porque esse não é um conhecimento vendável nos padrões da “política do TikTok”

Todos, independente do perfil socioeconômico e ideológico, defendem causas relacionadas a meio ambiente, crueldade contra animais, direitos humanos, pautas indentitárias e desigualdade social. O auto-posicionamento no eixo esquerda-direita faz pouco sentido a maioria e não altera de forma decisiva sua simpatia por tais temas. Pragmáticos e desconfiados com instituições que estão “longe demais” da realidade deles, suas preocupações tendem a se voltar para o local, para o que pode impactar diretamente seu cotidiano, e menos com “grandes debates” nacionais e internacionais. A falta de politização nas escolas, a falta de politização nos lares, uma pandemia que os deixou extremamente carentes no campo educativo e que os fez enfrentar sérios problemas de saúde mental, a linguagem técnica e excludente, e a falta de representação afastam os jovens da democracia institucional.

Nesse sentido, o que o cientista político Roberto Foa chamou de “desconexão democrática”, capturada pela perda de suporte à democracia por parte de jovens de hoje comparados com jovens de gerações anteriores em seu tempo de juventude, seria melhor explicada como “desconexão institucional”. Afinal, a democracia como sinônimo de luta por igualdade e liberdade de expressão, ganhou corações e mentes em diferentes gerações, sobretudo considerando a presença constante dos jovens em protestos de rua e em coletivos e movimentos dos mais diversos. No entanto, a percepção de uma corrupção generalizada e a ausência de canais de comunicação e participação para estes jovens os está afastando drasticamente do engajamento democrático.

Dentre as organizações responsáveis por tal tarefa criativa, aquela que talvez tenha a melhor oportunidade e motivação para começar a operar mudanças é o partido político: os jovens entrevistados confessam sentir sempre desconfiança quando intuem que “há um partido político envolvido”. Muitos deles desejariam despartidarizar a política, e sabemos, isso é a entrada perfeita para os monstros.

Partidos, escolas, famílias, imprensa. Precisamos de nossos jovens. Se a política não for para eles, não temos futuro.

Esther Solano é doutora em ciências sociais pela Universidade Complutense de Madri, professora da Unifesp, coautora do livro “The Bolsonaro paradox” (Springer, 2021).

Camila Rocha é doutora em ciência política pela USP (Universidade de São Paulo) e autora de “Menos Marx Mais Mises. O liberalismo e a nova direita no Brasil” (Todavia).

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