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Escrever para aprender: dispositivo pedagógico para os anos finais do ensino fundamental

Clemilton Lopes Pinheiro e Karine Alves David
Ao explorar a competência da escrita, estudantes desenvolvem habilidades essenciais a um bom desempenho escolar

Embora os documentos programáticos oficiais da educação reconheçam que as competências que compõem a escrita são fundamentais para o sucesso escolar, tomamos como ponto de partida o fato de que ainda não há no Brasil, ao menos de forma institucionalizada, projetos que estejam pautados no conceito de escrever para aprender.

O ensino sustentado nos pressupostos da escritura-para-aprender, ao explorar a competência multifuncional da escritura, permite que o(a)s aluno(a)s não só dominem as habilidades de composição escrita, mas também desenvolvam habilidades de escritura não compositiva (escritura-para-aprender) essenciais a um bom desempenho escolar.

Ao assumir autonomia para lidar com o conhecimento próprio das diferentes disciplinas, por meio das múltiplas habilidades desenvolvidas através da escritura, o(a)s estudantes dos anos finais do ensino fundamental podem superar dificuldades de aprendizagem decorrentes da nova organização social e didática, da relação com professores especialistas e dos novos deveres demandados.

Com o apoio do “Edital de Pesquisa Anos Finais do Ensino Fundamental – Adolescências, Qualidade e Equidade na Escola Pública – 2018da Fundação Carlos Chagas e Itaú Social, desenvolvemos a proposta de um dispositivo de ensino a partir de uma experiência vivenciada com aluno(a)s do 6° ao 8° ano da Escola Municipal de Tempo Integral Professor Álvaro Costa (Secretaria da Educação da Prefeitura Municipal de Fortaleza-Ceará), no período de julho de 2019 a junho de 2021.

As atividades de escritura – eixo principal da experiência – exploraram os assuntos das disciplinas de matemática, ciências da natureza, história e geografia, e a diversidade dos gêneros discursivos. Professor(a)s sugeriram as disciplinas conforme planejamento, assim como os gêneros mobilizados eram aqueles que já estavam previstos no programa de língua portuguesa.

Ao assumir autonomia para lidar com o conhecimento próprio das diferentes disciplinas, por meio das múltiplas habilidades desenvolvidas através da escritura, o(a)s estudantes dos anos finais do ensino fundamental podem superar dificuldades de aprendizagem

Foram aplicadas cinco atividades: uma para ciências da natureza, duas para matemática e duas para história. As atividades aconteceram em até seis fases: 1) “contextualização”, que compreende uma discussão preliminar sobre o assunto e estudo do comando da atividade, 2) “planejamento do texto”, 3) “produção de uma primeira versão do texto” (um rascunho), 4) “intervenção/correção do texto no plano do conteúdo” e consequente revisão, 5) “intervenção/correção do texto no plano da forma” (organização textual e convenções da escrita) e consequente revisão, e 6) escritura da “versão final”.

Em cada atividade de escrita, foram coletadas as produções do(a)s aluno(a)s: os planos de texto e as diferentes versões escritas. A análise dessas produções mostrou que essas atividades funcionaram como um espaço no qual o(a)s aluno(a)s foram estimulados a atuarem como aprendizes ativo(a)s e a criarem hábitos de pensamento, de estudo e de escritura. Em outras palavras, aprenderam a escrever, e, ao mesmo tempo, geraram conhecimento através da escritura. Trata-se, portanto, de uma metodologia altamente propícia para o aprendizado.

Com base nisso, propomos o dispositivo “Movimento Escrever para Aprender”, que pode ser tomado como um modelo de referência para a implementação desse espaço de escritura na escola. O objetivo central do “Movimento Escrever para Aprender” é explorar sistematicamente as funções epistêmica e retórica da escritura em um espaço de ensino-aprendizagem complementar ao programa das disciplinas escolares. O “Movimento Escrever para Aprender” pode, portanto, ser entendido como uma disciplina que deve integrar o mapa curricular dos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) como atividade complementar.

As atividades de escritura devem ser planejadas em forma de uma sequência didática, ou seja, um conjunto de módulos (ou fases) de ensino, organizados para o desenvolvimento de uma determinada prática de linguagem. Inspirados na descrição do processo cognitivo de escritura, apresentamos um esquema de sequência didática para o dispositivo composto por três módulos: contextualização, planejamento ou ensaio, textualização (rascunho, revisão e edição).

Em condições materiais e acadêmicas adequadas, chegamos a resultados promissores em relação ao potencial do dispositivo Movimento Escrever para Aprender como facilitador no processo de aprendizagem dos conteúdos das disciplinas e no processo de aprendizagem da própria escritura. Esses resultados foram identificados principalmente com base na análise das operações de escritura presentes nos textos produzidos pelo(a)s aluno(a)s.

A despeito dos impactos da pandemia no desenvolvimento do estudo – menor tempo de acompanhamento do ano letivo e restrição de algumas atividades previstas – ainda assim, com base na análise dos textos, observamos mudanças de atitude, caracterizada por uma postura autoral diante da escrita, autonomia em lidar com os conceitos das disciplinas, capacidade de transformar ideias incipientes em explicações fundamentadas.

Considerando que o dispositivo é de fácil adaptação em escolas situadas em contextos institucionais e socioculturais distintos, concluímos que há um potencial para que ele componha recomendações oficiais de ensino – seja em projetos pedagógicos nas escolas, seja nos documentos norteadores de política de ensino de secretarias de educação municipais ou estaduais.

Clemilton Lopes Pinheiro é doutor em letras (área de filologia e linguística portuguesa), professor de linguística na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

Karine Alves David é doutora em estudos da linguagem, professora de língua portuguesa, Secretaria da Educação, Prefeitura Municipal de Fortaleza.

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