FOTO: Diego Vara/Reuters - 08.AGO.2020
FOTO: Diego Vara/Reuters - 08.AGO.2020

A infodemia e o apagão de dados da saúde que resultam em mortes evitáveis

Hilton P. Silva

No Brasil, o volume de desinformações atingiu níveis estratosféricos, sendo um componente fundamental das altas taxas de morbidade e mortalidade pela covid-19

Desde o anúncio do surgimento da pandemia causada pelo novo coronavírus, no início de 2020, o mundo vive possivelmente a maior infodemia da história, isto é, circula pelas diversas redes sociais planetárias um gigantesco volume de informações sobre a doença, suas causas e consequências, muitas contraditórias, um grande número incorretas, milhares propositalmente fabricadas e sem qualquer fundamento na realidade visando criar confusão (fake news), que têm tido um impacto considerável na maneira como países e grupos populacionais lidam com o SARS-CoV-2.

No Brasil, o volume de desinformações atingiu níveis estratosféricos, sendo um componente fundamental das altas taxas de morbidade e mortalidade pela covid-19, pois milhões de pessoas adotaram medicamentos inadequados ou sem eficácia, negligenciaram as medidas sanitárias recomendadas pelos cientistas ou se recusam a vacinar (e também às suas crianças) baseados em informações incorretas ou distorcidas provenientes de redes sociais, inclusive originadas de autoridades públicas federais. À infodemia, têm se somado a negligência no manejo federal da pandemia, resultante do negacionismo, a redução de investimentos no SUS e a obstrução da disponibilização de dados sobre saúde que deveriam ser públicos, configurando uma enorme tragédia institucional nacional ou, possivelmente, um crime.

Desde o século 19, a epidemiologia já demonstrou que sem dados reais confiáveis, é impossível planejar adequadamente quais serão as medidas mais eficientes para lidar com epidemias e pandemias

Embora tenha começado tardiamente e nunca tenha sido objeto de uma séria campanha federal de incentivo, segundo o boletim do Emergency Operation Center Brazil da Opas (Organização Panamericana de Saúde) de 3 de janeiro de 2022, a vacinação contra a covid-19 alcançou até o início do mês, cerca de 87% de pessoas maiores de 18 anos com as duas doses. Porém, essa informação, assim como o número de infectados, mortos e muitas outras essenciais, forma um conjunto apenas parcial, pois todas se baseiam em dados levantados de fontes diversas como veículos de imprensa, junto aos estados, municípios e garimpados pelos institutos na internet, uma vez que desde o início de dezembro tem ocorrido uma, ainda inexplicada, série de “apagões” de dados em sites oficiais do Ministério da Saúde. Um exemplo de possível subnotificação de registro de imunizações resultante do “apagão” é o Vacinômetro Quilombola, uma das conquistas da ADPF 742. Em 11 de janeiro, o painel indica que apenas 45,7% dos adultos receberam as duas doses das vacinas, embora o total de doses previstas para este grupo populacional tenha sido distribuído ainda no primeiro semestre do ano passado e os quilombolas indiquem mais altas taxas de vacinação nos seus territórios. Esse dado no sistema permanece praticamente inalterado desde outubro do ano passado. Sem informações atualizadas, o planejamento de ações para a proteção dessas comunidades quanto à variante ômicron se torna muito mais difícil.

Na verdade, desde o início da pandemia, o governo federal tem dificultado continuamente a disponibilização de dados epidemiológicos, modificando sistemas de informações sem explicações, criado e eliminado bancos de dados e aplicativos sem transparência, reduzido a participação social em instâncias decisórias e consultivas, ignorado a opinião de infectologistas e sanitaristas, de comissões e de órgãos públicos, tornando o levantamento e a análise de informações sobre a saúde da população pela comunidade científica um desesperado exercício de “gato e rato”, onde o governo busca obstruir e esconder informações enquanto os cientistas buscam expor a realidade sócio-sanitária do país.

Desde o século 19, a epidemiologia já demonstrou que sem dados reais confiáveis, é impossível planejar adequadamente quais serão as medidas mais eficientes para lidar com epidemias e pandemias. Ainda que haja muitas evidências, como demonstrou a CPI da covid-19 e diversas publicações acadêmicas, a relação entre negligência, incompetência e má fé do governo federal ainda precisa ser oficialmente esclarecida.

A má condução da pandemia no país, que já resultou em mais de 620 mil mortos e milhões de pessoas com sequelas físicas e psicológicas, e a redução contínua de recursos para a saúde, também se expressam no baixo nível nacional de testagem e genotipagem para a identificação do novo coronavírus e suas variantes, sobretudo entre as populações mais vulnerabilizadas, como os indígenas, quilombolas, outros grupos tradicionais rurais, população carcerária e população de rua.

Com a chegada ao país da variante ômicron, quem tem seguro de saúde ou pode pagar, tem recorrido aos postos e farmácias para identificar sua situação e decidir como proceder no cotidiano, enquanto a maioria da população, exclusivamente dependente do SUS, continua a circular “de peito aberto”, sem saber se está ou não contaminada, correndo risco de morte ou de infectar seus entes queridos. A ausência de testagem afeta a economia e o sistema de saúde. Já no início do ano novo ficou evidente que o negacionismo sobre a covid-19 se estendeu também à vacinação infantil. Embora aprovada pela Anvisa e recomendada pelas sociedades brasileiras de pediatria e de imunologia, pela Associação Médica Brasileira, pela Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), por agências sanitárias de quatro continentes, e já em uso em dezenas de países, o acesso à vacina para proteger as crianças entre 5 e 11 anos, tem sofrido diversos ataques pelo Ministério da Saúde, que tenta impor barreiras, gera dúvidas sobre sua eficácia e demora na aquisição dos imunizantes, e o presidente continua a divulgar falsidades sobre a imunização e questionar a seriedade das instituições públicas que a defendem. Tal como a negligência na aquisição de insumos em 2020, a demora na vacinação infantil, causa dores incontáveis e custa vidas inocentes.

Nesses quase dois anos pandêmicos, a somatória da infodemia com a negligência, a incompetência e a malícia do governo federal brasileiro em lidar com a pandemia têm repercutido mundialmente como um mal exemplo e causado incontáveis sofrimentos à nossa população. Em 2022, é chegada a hora de dar um basta nas causas de tanto sofrimento.

Hilton P. Silva é médico e antropólogo, docente da UFPA (Universidade Federal do Pará) e da UnB (Universidade de Brasília), membro da Coordenação do GT Racismo e Saúde da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).

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