FOTO: World Economic Forum/Flickr - 25.JAN.2021
FOTO: World Economic Forum/Flickr - 25.JAN.2021

The Great Reset: o grande reinício da economia

André Galindo da Costa e Ursula Dias Peres

Reunião anual do Fórum Econômico Mundial de Davos em 2020 trouxe como tema de destaque projeto de mudança de paradigmas econômicos. Cabe agora compreender do que se trata a proposta

O Fórum Econômico Mundial foi criado em 1971, e seu principal idealizador foi o economista e professor Klaus Schwab. Considerado uma organização internacional sem fins lucrativos, o fórum tem sede na cidade de Genebra, na Suíça, e é conhecido por sua reunião anual, a qual acontece, normalmente, na pequena comuna de Davos, na Suíça. Líderes políticos e representantes das principais empresas do mundo comparecem a essa reunião, e nela apresentam diretrizes para a economia mundial.

O fórum exerce também um importante papel político, como aconteceu em 1992, por exemplo, quando promoveu um encontro entre os opositores políticos Nelson Mandela e Frederik Willem de Klerk, da África do Sul. Em 2003, o recém-eleito presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, foi destaque na reunião do fórum quando garantiu para os representantes das finanças mundiais que cumpriria com todos os contratos e prezaria pelo equilíbrio econômico no país, ao mesmo tempo que defenderia o combate à fome. Em 2010, Lula recebeu o prêmio de estadista global do ano do fórum.

Nos anos 2000, o Fórum Econômico Mundial passou a ser alvo de críticas e protestos. O fato de o fórum defender o modelo de globalização corporativa como um processo irreversível tem feito com que ativistas o responsabilizem pela destruição do meio ambiente e pela ampliação da miséria. Em 2001, aconteceu a primeira reunião do Fórum Social Mundial na cidade de Porto Alegre, no Brasil, como forma de contraponto e oposição ao Fórum de Davos. Além disso, em meio às guerras do Afeganistão e do Iraque, em 2003, a reunião anual em Davos foi marcada por muitos protestos.

As bases do grande reinício da economia

Em junho de 2020, o Fórum Econômico Mundial anunciou em um encontro virtual a proposta The Great Reset, como um trabalho em conjunto que busca um futuro mais justo, sustentável e resiliente. O lançamento foi feito pelo príncipe Charles de Gales e por Klaus Schwab. A ocasião contou com falas do secretário-geral da ONU, António Guterres, e da diretora geral do FMI (Fundo Monetário Internacional), Kristalina Georgieva. Entre as empresas que mostraram apoio à iniciativa, estão British Petroleum (BP), Mastercard e Microsoft. Georgieva declarou que a superação da crise atual passa por um crescimento econômico verde, em que os investimentos públicos devem ser destinados a atividades com baixa emissão de carbono e à inclusão digital.

Em seu site oficial, o Fórum Econômico Mundial aponta que a crise da covid-19 trouxe um conjunto de perturbações sociais, econômicas e políticas. Esse acontecimento apresenta-se, de acordo com o portal, não só como uma crise, mas como uma oportunidade de realizar uma reforma social e econômica abrangente a nível mundial sob a liderança do fórum. A proposta The Great Reset é apresentada como uma iniciativa de governança internacional que cria um novo contrato social, priorizando cinco frentes: as relações globais; a direção das economias nacionais; as prioridades das sociedades; a natureza dos modelos de negócio; e a gestão de um bem comum global.

O responsável por cunhar o termo The Great Reset foi o professor americano de economia urbana Richard Florida. Na sequência da crise do subprime, Florida publicou um livro com esse título, no qual defendia que novas formas de viver e de trabalhar permitiriam alcançar prosperidade em momentos de crise. Em julho de 2020, Schwab publicou um livro escrito em parceria com o economista francês Thierry Malleret sobre o tema. Malleret foi fundador do Barómetro Mensal, um dos mais importantes boletins informativos do mercado financeiro no mundo, e é sócio de empresas de consultoria e fundos de investimentos voltados para pessoas muito ricas. Neste livro, os autores afirmam que a crise da covid-19 é uma oportunidade única para levar a cabo uma reforma radical no sistema capitalista.

A crise econômica mundial

Um dado concreto que ajuda a compreender o cenário atual é que, em meio à crise da covid-19, o mundo encontra-se em uma recessão econômica sem precedentes para o século 21. Diversos países tiveram quedas significativas em seu PIB (Produto Interno Bruto) ao longo do ano de 2020. Entre abril e junho, a economia dos Estados Unidos sofreu uma queda de 32,9%, chegando a 51 milhões de desempregados. No mesmo período, os países europeus também sofreram quedas consideráveis em seu PIB, entre eles Alemanha (10,1%), Reino Unido (20,4%), França (13,8%), Espanha (18,5%) e Itália (12,4%). A Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) prevê uma queda de 7,7% do PIB da América Latina e do Caribe para o ano de 2020, o que deve se traduzir na pior crise econômica dos últimos 120 anos para a região.

Em outubro de 2020, o FMI previu para o Brasil uma queda de 5,8% do PIB no ano. Segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), o número de pessoas desempregadas no Brasil no final de agosto de 2020 foi de 13,8 milhões. No Brasil e no mundo, uma recuperação da atividade econômica aconteceu no segundo semestre de 2020, mas, ainda assim, muitos países terminarão o ano com uma redução de seu PIB e um alto nível de desemprego. Para uma das maiores agências de classificação de risco de crédito do mundo, a Fitch Ratings, a queda do PIB global em 2020 deve ser de 4,4%, e os impactos da crise serão sentidos pelas cadeias de produção globais e os pequenos negócios.

Após o reinício, a agenda de retorno

Aparentemente, The Great Reset se trata de um plano pós-covid-19, o qual deve servir como iniciativa de recuperação econômica global. O Fórum Econômico Mundial associa o reinício à promoção da sustentabilidade, porém não deixa claro a qual modelo de desenvolvimento sustentável faz referência.

Klaus Schwab mostra uma forte afinidade com o tema da quarta revolução industrial, e isso ajuda a compreender a agenda de The Great Reset de maneira mais ampla. A quarta revolução industrial prevê um conjunto de transformações tecnológicas que devem trazer mudanças de paradigmas para a economia e para a sociedade. Schwab pensa esse fenômeno a partir do uso da inteligência artificial e da biotecnologia. Entre as áreas que recebem destaque na era de convergência de tecnologias físicas, biológicas e digitais da quarta revolução industrial, encontram-se a robótica, a engenharia genética, a neurotecnologia, a nanotecnologia e a realidade virtual.

Schwab tem enxergado a pandemia como uma oportunidade de levar a cabo as mudanças que considera necessárias para a economia. A educação à distância e o teletrabalho seriam exemplos de mudanças permanentes. Além disso, a automação industrial deve ser cada vez mais presente nessa nova realidade. Sistemas ciberfísicos, internet das coisas, 5G, drones, impressoras 3D, computação nas nuvens são tidas pelo diretor executivo do Fórum Econômico Mundial como ferramentas fundamentais para essas mudanças. Entre os potenciais problemas desse novo paradigma tecnológico, encontram-se a possibilidade de aumento das desigualdades, a redução de postos de trabalho e a formação de uma elite tecnocrática.

Como está o Brasil em relação ao grande reinício

No dia 10 de dezembro de 2020, o governo do Estado de São Paulo, em parceria com o Fórum Econômico Mundial, representantes do governo federal e empresários lançaram o C4IR Brasil (Centro para a Quarta Revolução Industrial). A iniciativa, que já tinha sido anunciada na reunião de Davos de 2020, pretende impulsionar o uso de tecnologias emergentes, como a internet das coisas e a inteligência artificial, por meio de marcos regulatórios e políticas públicas. O presidente do comitê executivo do C4IR Brasil é Carlos da Costa, secretário especial de produtividade, emprego e competitividade do Ministério da Economia.

O evento de lançamento do C4IR contou com a participação de Klaus Schwab e recebeu o nome de “O grande reset: alavancando a quarta revolução industrial”. O C4IR constitui-se como um centro filiado ao Fórum Econômico Mundial que funcionará no campus do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas).

A 51ª reunião anual de cúpula do Fórum Econômico Mundial acontecerá entre os dias 25 a 28 de maio de 2021 em Singapura. Para essa próxima edição, The Great Reset deixará de ser apenas uma iniciativa para tornar-se o tema principal do fórum. Acontecerão ainda um evento virtual chamado Semana de Davos entre os dias 25 a 29 de janeiro, cujos temas principais são a covid-19 e a quarta revolução industrial, e a Cúpula de Governança de Tecnologia Global em Tóquio de 6 a 7 de abril de 2021, com foco em tecnologias emergentes.

Bibliografia

FLORIDA, Richard. The Great Reset: How the Post-Crash Economy Will Change the Way We Live and Work. Harper Business: Nova York, US. 2011.

SCHWAB, Klaus. A Quarta Revolução Industrial. Edipro: São Paulo, SP. 2018

SCHWAB, Klaus; MALLERET. Thierry Covid-19: The Great Reset. Forum Publishing: Cork, IE. 2020.

André Galindo da Costa é professor e coordenador dos cursos de pós-graduação da Escola de Gestão e Contas do Tribunal de Contas do Município de São Paulo. Possui graduação em administração pública pela Unesp, mestrado pelo ProMuSPP-USP e doutorado pelo Prolam-USP.

Ursula Dias Peres é professora doutora da EACH-USP no curso de gestão de políticas públicas, pesquisadora do CEM/USP e pesquisadora visitante no King's College London. Possui graduação em administração pública pela Eaesp-FGV e mestrado e doutorado em economia pela Eesp-FGV. Foi secretária adjunta de planejamento, orçamento e gestão do município de São Paulo.

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