FOTO: WRI Brasil/Flickr
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Teoria de Mudança como instrumento para desenvolver territórios vulneráveis

Fabiana Tock, Sergio Lazzarini, Lígia Vasconcellos e Geraldo Setter
Compromisso com desenvolvimento local requer planejar intervenções socioambientais interligadas que conectem claramente as atividades previstas aos resultados esperados

Territórios com múltiplas vulnerabilidades sociais povoam há décadas as grandes cidades brasileiras. Uma área periférica pode carecer de infraestrutura habitacional, saneamento básico e segurança e, ao mesmo tempo, apresentar altos índices de doenças, desemprego e evasão escolar. Melhorar esse cenário onde vivem milhões de pessoas exige intervenções urbanas conjugadas e intercomplementares, de diversas áreas e com variados executores.

Mas como fazer isso na prática? Quais são os diversos fatores que limitam o desenvolvimento das áreas urbanas vulneráveis? Qual é a melhor maneira de intervir em um território para desenvolvê-lo de forma integral, considerando que muitos de seus problemas estão inter-relacionados e reforçam-se uns aos outros? Como organizar esforços e ações de variadas instituições e pessoas para alcançar conjuntamente múltiplos resultados que de fato melhorem a qualidade de vida do morador?

Para responder a essas perguntas há diversos caminhos. Um deles é a criação de uma Teoria de Mudança. Ela consiste em um instrumento de planejamento de intervenções socioambientais que interliga, de maneira clara e lógica, as atividades planejadas e realizadas aos resultados pretendidos.

Engloba cinco etapas essenciais, interligadas e sucessivas que materializam as mudanças almejadas: insumos disponíveis (recursos humanos, físicos e financeiros), atividades (ações e programas), produtos e serviços (ofertados à população-alvo), resultados das atividades (transformações diretas e tangíveis para a população-alvo) e, por fim, os resultados para a sociedade (transformações mais amplas).

Quando aplicadas ao desenvolvimento de áreas urbanas vulneráveis, que exigem um olhar intersetorial, Teorias da Mudança fornecem um mapa amplo, objetivo e detalhado das possibilidades de ação, a partir da interconexão de macro temas estruturantes

Quando aplicadas ao desenvolvimento de áreas urbanas vulneráveis, que exigem um olhar intersetorial, Teorias da Mudança fornecem um mapa amplo, objetivo e detalhado das possibilidades de ação, a partir da interconexão de macro temas estruturantes, que podem abarcar segurança pública, emprego e renda, educação, capital social, saúde, infraestrutura básica e lazer, moradia e mobilidade urbana. Isso ajuda a comunidade, os gestores públicos e privados e as demais organizações ali presentes a enxergarem e a efetivarem as transformações desejadas no território. Assim, a Teoria da Mudança sugere a possibilidade de estruturar transformações coordenadas em infraestrutura e outros temas, colaborando para definir melhor os papéis que cada ator pode assumir e oferecer nessa provisão coletiva, propiciando resultados interconectados e, portanto, potencializados.

A Teoria de Mudança é tão mais robusta e eficaz quanto mais as transformações de diferentes áreas puderem estar interligadas e quanto mais se visualizar as atividades que mais produzam resultados concretos. Parte-se da premissa de que uma intervenção de mobilidade urbana, como o aperfeiçoamento expressivo no transporte público, pode gerar reflexos positivos na área da educação, a exemplo da diminuição da evasão escolar de jovens. Do mesmo modo, reparos em casas vulneráveis podem proporcionar melhoria na saúde da população local, diminuindo doenças respiratórias e infectocontagiosas, intervenções de lazer e esporte são capazes de aumentar o desempenho escolar dos jovens e a geração de emprego e renda pode diminuir casos de violência doméstica.

A partir da Teoria de Mudança, como forma de apoiar o monitoramento e a gestão da evolução dessas intervenções nos territórios urbanos vulneráveis, podem ser elencados indicadores de medição dos produtos e resultados identificados e formas de coleta primária e secundária de dados que respondam claramente ao que a Teoria de Mudança deseja provocar.

No ano de 2020, o Jardim Lapenna, bairro periférico com mais de 12 mil habitantes, situado no distrito de São Miguel Paulista, na zona leste da cidade de São Paulo, foi objeto da aplicação de uma Teoria de Mudança e de um painel de indicadores, adaptados para o contexto local, que incluíram o mapeamento das ações de nove organizações que já atuam em prol do desenvolvimento desse território.

A iniciativa foi realizada pelo Insper Metricis – Núcleo para Medição de Impacto Socioambiental, com o financiamento da Fundação Tide Setubal e do Itaú Social. A estrutura de governança contou com um Comitê de Gestão e um Comitê Consultivo, com integrantes de diversas organizações, públicas e privadas, e participação de moradores. Após um mergulho na literatura, um minucioso diagnóstico e o estudo de exemplos de urbanismo social das cidades de Medellín, na Colômbia, e de Recife, em Pernambuco, a Teoria de Mudança criada trabalhou com 12 insumos, 36 atividades, 36 produtos e 37 resultados.

Essa aplicabilidade posterior no Jardim Lapenna levou em conta o fato de que boa parte dos seus moradores se encontra em situação de elevada vulnerabilidade socioeconômica, vivendo em moradias precárias, em uma região de várzea do rio Tietê, condição natural à ocorrência de alagamentos e que torna a área social e ambientalmente vulnerável. Considerou-se também que ali já existem atores chave que trabalham para o avanço local e que se ligam a atividades previstas na Teoria da Mudança.

A análise revelou as inter-relações entre as diversas organizações presentes no Lapenna, aquelas que são as mais centrais e as que compartilham um maior número de resultados entre si, evidenciando um panorama claro das intervenções, o que ajuda a refiná-las daqui para a frente. Em especial, foi possível notar a centralidade de algumas organizações no território, que contribuem para atingir diversos resultados em múltiplas áreas, a exemplo das Guardiãs da Comunidade, Sociedade Amigos do Lapenna e Fundação Tide Setubal. Ao explicitar as instituições que colaboram para resultados comuns, a Teoria de Mudança permite que essas se reconheçam como parceiras, potencializando as chances de compartilharem recursos e esforços para transformarem o território.

Tal aplicação metodológica pode ser efetuada em outros bairros vulneráveis de outras periferias urbanas brasileiras e servir para estimular mais sinergias locais. Trata-se de um instrumento para quem atua de perto nos territórios periféricos e de um case para quem opera com monitoramento e avaliação. No futuro, como aprofundamento, podem ser realizadas inclusive avaliações de impacto dessas intervenções nos territórios para se observar as transformações mais estruturantes já alcançadas.

A íntegra da Teoria de Mudança aplicada no Jardim Lapenna pode ser consultada aqui.

Fabiana Tock é mestre em administração pública e governo pela FGV, pós-graduada em sociologia e investigação social pela University College of Dublin e em gestão pública pela FESP-SP. Coordena o programa de cidades e desenvolvimento urbano da Fundação Tide Setubal.

Sergio Lazzarini é professor titular da Cátedra Chafi Haddad de Administração do Insper e coordenador do Insper Metricis.

Lígia Vasconcellos é doutora em economia pela FEA-USP, consultora em avaliação de impacto social e pesquisadora associada ao Insper Metricis.

Geraldo Setter é professor do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa e gestor executivo do Insper Metricis - Núcleo para Medição de Impacto Socioambiental.

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