FOTO: Aaron Burden/Unsplash
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Pesquisa qualitativa no estudo das políticas públicas: um campo em disputa

Elize Massard da Fonseca, Iana Alves de Lima e Catarina Segatto
Estratégia metodológica merece ser requalificada pela tradição da ciência política por oferecer tanto potencial para contribuição teórica, quanto instrumentos para avaliação de políticas públicas

A primeira lição de uma aula de metodologia de pesquisa é que a sua pergunta de pesquisa deve guiar a escolha dos métodos que serão utilizados na investigação científica. Por muitos anos, a ciência política brasileira e o campo das políticas públicas se desenvolveram com a aplicação pouco sistemática de métodos. Os questionamentos científicos eram respondidos através de textos ensaísticos baseados em sistematização da literatura e análises documentais ou com alguma pesquisa empírica indutiva (isto é, a partir da observação e de entrevistas).

Em 2005, o professor Gláucio Soares chamou a atenção: “Há uma certa hostilidade [da ciência política] em relação aos métodos quantitativos e à estatística; porém, seu lugar não foi ocupado por métodos qualitativos rigorosos, e sim por uma ausência de métodos e de rigor”. Quase duas décadas depois, a publicação de artigos empíricos aumentou, bem como cresceu a oferta de disciplinas de metodologia em programas de pós-graduação e de cursos intensivos de curta duração. Um debate que exploramos no artigo publicado no Journal of Political Science Education.

Apesar do avanço, a pesquisa qualitativa segue sendo vista, por vezes, como sem rigor científico, enviesada, e preterida no fomento à pesquisa – opinião incompatível com o desenvolvimento da área. É comum escutar três críticas sobre as quais propomos alguns esclarecimentos:

“Pesquisa qualitativa é uma narrativa anedótica de situações específicas e únicas”

Anedotas são fragmentos de casos, histórias, narrativas coletadas de forma não sistemática e sem uma reflexão analítica. Por vezes, ao publicar resultados de pesquisa qualitativa, os pesquisadores recorrem à transcrição de falas de personagens e dedicam tempo na apresentação do contexto do campo. Essas estratégias podem levar os menos familiarizados a pensar que a análise de dados qualitativos é anedótica e pouco sistematizada.

No entanto, é importante ficar atento que, assim como a coleta e análise são diferentes de uma pesquisa quantitativa, também é a apresentação do resultado. Excertos de entrevistas e detalhes sobre o contexto são exemplos das muitas estratégias para incrementar os critérios de qualidade em uma pesquisa qualitativa – profundidade, adequação, suficiência dos dados, reflexividade, entre outros. Também são evidências importantes para validar os argumentos teóricos apresentados, especialmente, em pesquisas focadas na análise de conteúdo, narrativas e discursos.

A pesquisa qualitativa se baseia em paradigmas científicos não positivistas (embora a ciência política americana tenha avançado no que ficou conhecido como a “nova metodologia qualitativa”, que traz reflexões do paradigma positivista para estudos qualitativos). Os protocolos de pesquisa qualitativa exigem uma coleta de dados sistemática; cautela no armazenamento e compartilhamentos de dados, que muitas vezes são confidenciais; e as análises passam por revisão dos pares, que estão familiarizados com o caso em particular ou com as técnicas empregadas. Portanto, está submetida sim à avaliação rigorosa, apesar de requerer critérios de qualidade distintos da pesquisa quantitativa.

“Pesquisa qualitativa é menos científica que pesquisa quantitativa ou experimental”

A metodologia evolui. Metodologias de pesquisa qualitativa não são estáticas. Assim como os economistas buscam aperfeiçoar modelos econométricos, os cientistas sociais têm aperfeiçoado as técnicas de investigação qualitativa.

Um exemplo emblemático é o rastreamento de processos (process tracing), cada vez mais popular no Brasil. A última edição da newsletter da APSA, por exemplo, traz mais uma versão dessa técnica, seguida de um debate importante sobre sua aplicabilidade (ou não). Esse desenvolvimento deu-se não só para o process tracing, mas também para a etnografia, a grounded theory (ou teoria fundamentada em dados, em tradução livre), a análise de discurso, a análise interpretativa, os grupos focais, as vinhetas, entre outros.

O debate sobre pesquisa qualitativa avançou em várias direções: estratégias de amostragem e seleção de casos e participantes, diferentes formas de codificação de material qualitativo, técnicas para condução de entrevistas, estratégias de gestão de dados e uso de softwares para organização e análise, entre outros. Portanto, é importante conhecer o estado da arte na técnica escolhida e quais implicações essas ramificações metodológicas podem trazer para o planejamento e execução da sua pesquisa.

“Pesquisa qualitativa é enviesada”

Uma crítica comum é que o envolvimento do pesquisador com o campo prejudicaria a “neutralidade” da pesquisa, o que seria uma fonte de viés. Ora, nenhuma pesquisa é propriamente neutra. Todo pesquisador tem suas próprias bagagens, visões de mundo e preferências, independentemente dos métodos que utiliza.

Ter opiniões fundamentadas – condição que se espera de um cientista social – não faz uma pesquisa ser ruim ou enviesada. O que compromete uma pesquisa é a falta de planejamento no desenho da pesquisa, a aplicação incorreta dos métodos, a desatenção com critérios éticos e de transparência e a falta de diálogo com os pares. E isso pode ocorrer em pesquisas qualitativas, quantitativas ou experimentais.

A interação do pesquisador com o campo em uma pesquisa qualitativa não só não é um problema, como é condição imprescindível para a viabilidade da investigação. Isso porque, muitas vezes, a coleta de dados vai depender de que se estabeleça uma relação de confiança com os sujeitos que queremos entrevistar ou observar. Imagine querer pesquisar as experiências de grupos vulneráveis, como vítimas de violência, pessoas em situação de rua ou usuários de drogas. O acesso aos relatos desses indivíduos depende muito da nossa capacidade de estabelecer espaços seguros para que eles se sintam confortáveis em falar. Tal aspecto demanda tempo e interação. Além disso, há todo um debate sobre reflexividade que dá suporte ao pesquisador em suas escolhas ao longo da pesquisa empírica.

Mas, afinal, quais perguntas a pesquisa qualitativa responde?

Indagações que exigem conhecer um caso em profundidade, temas ainda pouco conhecidos, ou mesmo testar teorias ainda em fase de formação, exigem a aplicação de metodologia qualitativa. É muito comum, no campo das políticas públicas, a existência de problemas complexos (wicked problems), que são multidimensionais e sobre os quais há pouca informação e consenso em torno dos fatores que os explicam. Técnicas qualitativas podem não permitir mensurar efeitos de variáveis, ou mesmo realizar generalizações empíricas, mas são ferramentas poderosas para generalizações teóricas de alcance médio (aplicada a um conjunto de casos).

Na crise da covid-19, por exemplo, a metodologia qualitativa pode ajudar a entender percepções sobre hesitação vacinal, porque países regulam vacinas de forma diferente, ou mesmo como e por que há uma variação na resposta dos países apesar das diretrizes da OMS (Organização Mundial da Saúde) para responder a crises de saúde pública.

Com relação ao ciclo de políticas públicas, o modelo de mudança na agenda governamental estabelece parâmetros (fluxos de problemas, alternativas e políticas) para definir como um tema emerge na agenda pública (Kingdon, 1984). Embora o caso empírico não possa ser generalizado, os parâmetros (ou marcos teóricos) podem.

A pesquisa qualitativa também permite compreender a influência de determinadas categorias teóricas, por exemplo, o papel dos atores e ideias, na formação da agenda governamental. Ainda que seja possível analisar discursos enquanto dado quantitativo (data mining), dificilmente pesquisas quantitativas conseguem captar em profundidade as intersecções entre essas categorias.

Da mesma forma, estudar em profundidade a formulação e a implementação de políticas públicas inovadoras, como os sistemas de proteção social na Europa, nos ensinou muito sobre como as instituições perduram ou são reformadas (Pierson, 1996). No que se refere à implementação, há uma série de estudos qualitativos sobre como os burocratas de nível de rua – professores, médicos e policiais, por exemplo – categorizam cidadãos, influenciando o acesso às políticas (Dubois, 2016).

Ou seja, a pesquisa qualitativa é uma estratégia fundamental tanto para pesquisas acadêmicas com potencial de contribuição teórica, quanto para avaliações de políticas públicas. A aplicação é enorme.

É certo que, como em qualquer desenho de pesquisa, é importante conhecer os limites do método escolhido, suas vantagens e desvantagens. Esse tipo de reflexão busca preparar o pesquisador justamente para enfrentar as críticas e levantar as potencialidades da metodologia: “Até onde eu posso ir e onde eu posso contribuir”. E esse é o exercício da ciência: construção parcimoniosa de conhecimento, sem hierarquização ingênua de métodos e epistemologias.

BIBLIOGRAFIA

Dubois, Vincent. The bureaucrat and the poor: Encounters in French welfare offices. Routledge, 2016.

Kingdon, John W. Agendas, Alternatives, and Public Policies, Boston: Little, Brown, I984.

Pierson, Paul. "The new politics of the welfare state." World politics 48.2 (1996): 143-179.

Elize Massard da Fonseca é doutora em política social pela University of Edinburgh, Reino Unido, e professora no Departamento de Gestão Pública na FGV EAESP.

Iana Alves de Lima é mestra em ciência política pela UnB e doutoranda em administração pública e governo na FGV EAESP.

Catarina Ianni Segatto é doutora em administração pública e governo pela FGV EAESP, analista de informações do Cetic.br|NIC.br e pós-doutoranda no CEM (Centro de Estudos da Metrópole).

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