FOTO: Carla Carniel/Reuters - 13.mai.2021
FOTO: Carla Carniel/Reuters - 13.mai.2021

Periferias, desigualdades e invenções na pandemia

Lumena A. C. Furtado, Cristiane G. da Silva, Mariana A. Nasser, Claudia Fegadolli, Luciana R. de Souza e Joana F. Rodrigues
Pesquisa realizada em municípios de São Paulo mostra como a pandemia agrava desigualdades sociais nos territórios e a importância de redes de solidariedade locais no contexto de crise

No Brasil, os desafios do enfrentamento da pandemia de covid-19 são exacerbados pela descoordenação e negação da gravidade pelo governo federal, situação esta bastante agravada pela grande desigualdade social. Com a parceria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e da Fundação Tide Setubal, foi realizada a pesquisa “Desigualdades e Vulnerabilidades na epidemia de covid-19”, em 2020, contemplando 16 territórios, em seis campi, nos municípios de Diadema, Guarulhos, Osasco, São Paulo e Santos, no estado de São Paulo. Incluiu territórios como comunidades ou favelas, com pessoas em situação de rua, condomínio popular e um bairro de classe média. Envolveu 112 pesquisadores de diversas áreas, 60 bolsistas, entre pesquisadores sociais, de iniciação científica de graduação e ensino médio. Utilizou metodologias quantitativa e qualitativa de abordagem de estudo de casos múltiplos e as conduziu de modo participativo. Resultou em diversos produtos e processos. Alguns deles serão apresentados aqui de forma concisa.

“É nós por nós!”

Tal expressão nativa em alguns territórios estudados reitera a maneira perversa e crescente como as desigualdades ampliam as vulnerabilidades à pandemia e à violação de direitos. Simboliza também a insurgência de ações de solidariedade e de estratégias de resistência que emergem no enfrentamento da pandemia, diante da ausência de políticas e ações programáticas, como, por exemplo, a criação de uma rede de coleta de alimentos com os supermercados locais e a distribuição na comunidade do Morro do Socó, em Osasco, priorizando quem estava em situação de mais vulnerabilidade.

Um inquérito alimentar, utilizando a EBIA (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar), 235, versão curta, respondido por 329 chefes de família em um território, apontou que 79% deles estavam em situação de insegurança alimentar, colocando o aumento da fome como uma agenda central na pandemia. Acompanhada da diminuição de renda, da perda de emprego, da precarização do trabalho, torna as redes de solidariedades não somente urgentes, mas vitais. O acesso aos apoios das redes foi descontinuado em muitos territórios e, na ausência ou escassez da atuação do poder público, ganhou centralidade o protagonismo de moradores e de movimentos sociais. Estes continuam à frente de ações de ampliação de renda local e de distribuição de alimentos e insumos de prevenção e higiene.

Violência e violações de direitos

Foi evidenciado pela pesquisa que a pandemia complexificou e agravou a situação de mulheres, crianças, jovens e idosos vulneráveis à violência doméstica. Suas variadas formas – sexual, física, psicológica e abuso financeiro – assumiram tons mais fortes. A permanência maior em casa favoreceu uma ampliação destas. Apesar do ocultamento que acompanha esses tipos de violência, relatos sobre o medo de sofrer uma violência vivida ou presenciada, emergiram com muita força nos diários de campo na maior parte dos territórios.

A busca de apoio – denúncia ou meios de afastar-se do agressor – ficou visivelmente mais limitada pela maior permanência em casa e aumentaram os receios de denunciar em localidades já marcadas pela violência do Estado ou do tráfico. Em entrevistas com professoras, foi relatada por uma que leciona na zona leste de São Paulo a percepção, durante as aulas remotas, da violência contra as crianças.

Para as mulheres em situação de rua, muitas vezes, esta é a causa de elas estarem ali. Um espaço marcado por violências torna-se um abrigo para quando as agressões dentro de casa ficam insuportáveis, como relatado por uma entrevistada: “estava passando um tempo (na rua), para se ‘distrair da depressão’ (...) se referiu ali como “lixo”, (mas) melhor estar ali do que em casa... disse que o marido era violento e, quando a situação ficava muito difícil, passava alguns dias na rua.” Foi identificada na região do Fluxo/Cracolândia, na capital paulista, uma importante rede de apoio e afetos construídos entre mulheres que indicam a potência para resistir à situação de precariedade.

A violência do Estado, sob a retórica de dissipar aglomerações ou de impor novas condições sanitárias, apresentou-se de forma dura com ações de retirada de todos os pertences das pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo, incluindo produtos de higiene e máscaras, essenciais para a prevenção. Esse trabalho revelou um acirramento da agressividade nas relações entre as pessoas em situação de rua e os agentes do Estado.

Uma ação violenta do Estado sob a forma de despejo, em Diadema, sem a oferta de alternativas de moradia e acentuando medos e ansiedades, agravou e aprofundou as condições precárias de vida, já amplificadas na pandemia. Consistiu em uma ação que contribui efetivamente para ampliar o número de pessoas em situação de rua.

Estratégias de atuação dos movimentos sociais e redes de solidariedade

Os vários movimentos sociais discutiram, nos 16 territórios pesquisados, problemas como moradia, emprego e renda, falta de lazer e de políticas públicas e de acesso à internet.

Puderam se reconhecer e compartilhar ações, como orientação à população para acessar o auxílio emergencial federal; estratégias para gerar renda; distribuição de cestas básicas, de máscaras e de informações sobre prevenção; reivindicações junto aos governos locais; luta por moradia e outros direitos; observatórios sobre a pandemia; redes de solidariedade locais; apoio a vítimas de violência; acolhimento psicológico e orientações de assistência social.

Pesquisa participativa e resposta social

O referencial teórico-metodológico utilizado nas pesquisas permitiu aprender, valorizar e articular diferentes escolas e saberes da universidade que, aprendendo e trocando com os movimentos sociais e moradores do território, puderam formular conjuntamente propostas de intervenção como o acolhimento a mães e a crianças com sofrimento emocional, a partir das necessidades identificadas na pesquisa, e o projeto Lixo Zero para gerar renda para homens da comunidade, ambos em Osasco.

Uma pesquisadora-moradora de um território e participante de movimento social sintetizou a riqueza da experiência: “Se a pesquisa científica e os movimentos sociais caminharem de mãos dadas, como neste projeto, certamente construiremos conhecimento para servir ao povo pobre que tanto contribui para a existência das universidades no nosso país. Esse mesmo povo pobre que luta bravamente para resistir ao descaso, ao abandono e à perda de direitos. São esses que devem contar a história e escrevê-la”.

Lumena Almeida Castro Furtado é psicóloga sanitarista, professora adjunta do Departamento de Medicina Preventiva, Laboratório de Saúde Coletiva, Unifesp e coordenadora do Laboratório de Saúde Coletiva – LASCOL/Unifesp.

Cristiane Gonçalves da Silva é cientista social, professora associada do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp Baixada Santista. Desenvolve pesquisa-extensão-ensino.

Mariana Arantes Nasser é médica sanitarista, professora adjunta do Departamento de Medicina Preventiva, Laboratório de Saúde Coletiva, Unifesp.

Claudia Fegadolli é farmacêutica sanitarista, professora associada do Departamento de Ciências Farmacêuticas do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas, Unifesp.

Luciana Rosa de Souza é economista, professora adjunta do Departamento de Economia da EPPEN (Escola Paulista de Política, Economia e Negócios) Unifesp, campus Osasco.

Joana de Fatima Rodrigues é doutora em literatura, professora adjunta do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp.

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