FOTO: Green Chameleon/Unsplash
FOTO: Green Chameleon/Unsplash

Os desafios da transição escola-trabalho para a juventude brasileira

Rafael Camelo
Dificuldades que caracterizam passagem dos jovens para o mercado de trabalho podem ser enxergadas, a princípio, como normais para o início de carreira, mas na realidade elas têm consequências de longo prazo na vida profissional dos indivíduos

A fase de transição entre a escola e o trabalho é muito desafiadora para os jovens no Brasil. Um estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho) com jovens de 15 a 29 anos identificou que tal transição está longe de ser uniforme 1.

As trajetórias dos jovens no Brasil variam dos que ainda tem maior foco em educação aos que já transitaram completamente para o trabalho, passando por um grande contingente (46%) dos que ainda estão iniciando seu ingresso no mercado de trabalho, mas ainda se dividindo com a escola. Uma característica importante desse grande grupo é que sua transição escola-trabalho não é “tranquila”, mas sim intercalada por episódios de desemprego, informalidade, desalento etc.

Esses solavancos que caracterizam a passagem dos jovens para o mercado de trabalho podem ser enxergados, a princípio, como normais para um início de carreira, mas na realidade eles têm consequências de longo prazo. Estudo do IPEA mostra que os episódios de desemprego e informalidade na juventude (especialmente em períodos de recessão) tem impactos negativos sobre a inserção destes profissionais no mercado de trabalho anos depois 2.

O Brasil tem cerca de 50 milhões de jovens de 15 a 29 anos que passam ou passarão pela mesma fase de transição e, para a grande maioria pobre ou de classe média, a escola pública é a principal política a apoiá-los. Mas, tudo indica que esse é um ponto de falha da nossa educação básica.

Analisando os dados da PNAD 2019 (IBGE), de cada 100 jovens com 18 anos – idade em que se esperaria a conclusão da educação básica – no país 3:

  • 20% não chegam ao ensino médio (param de estudar antes);
  • 30% ainda estão cursando ensino médio (eventualmente 20% concluirão) e
  • 50% já o concluíram (possivelmente 20% avançarão para o ensino superior).

Assim, uma trajetória em que um jovem conclui a educação básica, ingressa numa educação profissional (como a faculdade) e vai se inserindo no mundo do trabalho só parece uma possibilidade concreta para 20% dos jovens do país. Os demais 80% ou desistem de estudar muito antes do fim da educação básica ou terão de encarar o mercado de trabalho com apenas o diploma de ensino médio 4.

A respeito dos que ficam para trás, que evadem da escola, já temos muito conhecimento acumulado. As razões mais conhecidas para este problema são de fundo socioeconômico, como diversos trabalhos já mostraram, mas hoje já compreendemos esse fenômeno com outros contornos. Dois estudos publicados pela Fundação Victor Civita 5 e outro pela Fundação Roberto Marinho 6, sempre com jovens de baixa renda, colocam as experiências dentro da escola como importantes indutores da evasão.

Esses estudos, cada qual com suas especificidades, apontam que diversos aspectos da experiência escolar acabam gerando os primeiros pontos de insatisfação dos jovens que, eventualmente, levam à decisão de abandonar os estudos. Tais fatores passam por questões de organização da própria escola (como a falta de professores ou de aulas), por violência (incluindo o bullying), mas destaca-se a percepção dos estudantes de falta de sentido e de desconexão com a realidade no que se ensina na escola.

Entre os jovens que ingressam no mercado de trabalho com apenas o diploma de ensino médio, os caminhos também não parecem fáceis. A figura abaixo mostra, com dados da PNAD 2019, que a distribuição dos salários/hora dos jovens com ensino médio completo (sem diploma superior) e daqueles sem o diploma do ensino médio são muito parecidas. Isso significa que são muito baixas as chances de um jovem com ensino médio completo assumir uma vaga de trabalho muito mais produtiva do que alguém que desistiu do ensino médio.

Gráfico de linhas mostra distribuição do salário/hora de jovens entre 15 e 29 anos. Linha verde indica jovens com ensino médio incompleto e linha roxa mostra jovens com ensino médio completo

E, novamente, o conteúdo do ensino médio pode explicar este fenômeno. Pesquisa publicada pela Fundação Lemann e Todos pela Educação 7 investigou junto a empregadores como é a experiência de contratar e trabalhar com jovens oriundos do ensino médio. O diagnóstico é claro: falta a esses jovens profissionais as competências mais básicas, como saber ler e interpretar documentos simples; saber redigir textos simples; estabelecer relações de lógica etc.

Assim, por diferentes pontos de vista podemos notar que a educação básica brasileira parece ajudar pouco os jovens a atravessar com sucesso uma fase tão decisiva para seu futuro, com exceção, talvez, de uma pequena parcela capaz de acessar o ensino superior.

O diagnóstico está longe de ser novo, mas as respostas do poder público têm sido escassas. As fichas atualmente estão todas sobre o Novo Ensino Médio e a Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio. Entre tantas mudanças propostas por essas duas políticas a que gera maior expectativa é a criação dos itinerários formativos que, a grosso modo, darão possibilidades para que os estudantes escolham parte dos componentes curriculares que pretendem cursar ao longo do ensino médio, incluindo cursos de educação profissional e técnica.

Não será uma implementação fácil, pois ela envolve a quebra de diversos paradigmas da educação propedêutica brasileira e vai requerer muito investimento (da infraestrutura à formação de professores), mas atualmente é a nossa melhor chance de apoiar a juventude brasileira a ingressar de maneira mais digna na vida adulta.

BIBLIOGRAFIA

ILO/SWTS, The school-to-work transition in Brazil: Patterns and determinants of young people trajectories, 2018. Disponível aqui.

Corseuil, Carlos Henrique Leite; Franca, Maíra Albuquerque Penna, Inserção dos jovens no mercado de trabalho em tempo de crise, 2020. Disponível aqui.

Haroldo da Gama Torres, Jacqueline Moraes Teixeira, Danilo França, O que os jovens de baixa renda pensam sobre a escola, 2018.

Haroldo da Gama Torres, Rafael Camelo, Danilo França, Abandono escolar no Ensino Médio entre jovens de baixa renda, 2018. Disponível aqui.

Fundação Roberto Marinho, Pesquisa Juventudes, Educação e Projeto de Vida, 2020. Disponível aqui.

Fundação Lemann, Pesquisa Projeto de Vida, 2014. Disponível aqui.

Rafael Camelo é economista com mestrado e doutorado pela Fundação Getulio Vargas. É especialista em políticas de educação, trabalhou no Itaú Social e no Governo de São Paulo coordenando estudos sobre políticas públicas na área social. Atualmente é sócio e diretor da Plano CDE, onde lidera projetos de avaliação e monitoramento para projetos do terceiro setor.

Os artigos publicados na seção Ponto de vista do Nexo Políticas Públicas não representam as ideias ou opiniões do Nexo e são de responsabilidade exclusiva de seus autores. A seção Ponto de vista do Nexo Políticas Públicas é um espaço que tem como objetivo garantir a pluralidade do debate sobre temas relevantes para a agenda pública nacional. Para participar, entre em contato por meio de pontodevista@nexojornal.com.br informando seu nome, telefone e email.

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeGEMAADRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUTMacroAmb