FOTO: Raul Martinez Candia/REUTERS - 12.09.2018
FOTO: Raul Martinez Candia/REUTERS - 12.09.2018

O retrocesso da grande estratégia geopolítica brasileira

Marcelo Viana Estevão de Moraes
O cenário atual impõe a retomada da integração sul-americana no marco de uma institucionalidade abrangente como a Unasul

A grande estratégia brasileira em termos geopolíticos abrange projetar-se sobre seu entorno em círculos concêntricos de influência. O primeiro círculo e o mais importante é a região platina, zona de maior densidade econômica e populacional. O segundo círculo incorpora o resto da América do Sul, com destaque para o arco amazônico; e o Atlântico Sul, no qual transita mais de 95% do comércio externo do país. O terceiro círculo agrega toda a América Latina e o Caribe, bem como a Antártica e a costa ocidental da África. Os três círculos conformam o grande entorno geoestratégico do Brasil, onde sua presença ativa é vital para seu desenvolvimento e sua segurança.

Na sua afirmação como ator geopolítico global nos primórdios deste século, entre outras iniciativas, o Brasil liderou a criação da Unasul (União das Nações Sul-Americanas). A Unasul foi uma organização internacional integrada pelos 12 estados da América do Sul, criada com o objetivo de projetar o poder da região no redesenho da ordem global e articular as ações dos diversos países nos vários campos das políticas públicas, funcionando como instrumento de governança do espaço regional bioceânico, em um contexto de mudança do pólo político e econômico mundial do Atlântico Norte para o Pacífico Ocidental.

A destruição da Unasul significou um retrocesso para o Brasil e uma derrota de sua grande estratégia, que ocorreu juntamente com a desarticulação da política externa brasileira, de global player e de global trader, mediante a desorganização do Itamaraty, que sempre funcionou como referência institucional para a profissionalização da administração civil.

A nova ordem geopolítica mundial impõe ao Brasil o desafio de atualizar e implementar uma grande estratégia que conjugue o seu destino com o da América do Sul

A nova ordem geopolítica mundial impõe ao Brasil o desafio de atualizar e implementar uma grande estratégia que conjugue o seu destino com o da América do Sul, articulando uma plataforma regional de projeção de poder capaz de assegurar os interesses nacionais e regionais na nova conjuntura internacional. É preciso garantir algum controle sobre o entorno oceânico da América do Sul, a segurança da extensa fronteira terrestre brasileira e a cooperação para o desenvolvimento sustentável da Amazônia diante da crise ecológica global.

A integração da América do Sul dificilmente pode avançar sem o Brasil, por suas dimensões territoriais, populacionais e econômicas. Por ser multivetor do ponto de vista geopolítico, o país conecta as grandes bacias hidrográficas amazônica e platina com o altiplano andino e tende a ser o principal protagonista e beneficiário da integração continental. Primeiro, porque o projeto regional se articula com o objetivo nacional brasileiro de consolidar sua integração interna. Segundo, porque viabiliza potenciais sinergias entre os sistemas econômicos nas esferas produtiva, comercial e logística, com destaque para os corredores interoceânicos. Terceiro, porque permite a articulação de uma doutrina estratégico-militar regional como ocorria por meio da cooperação no Conselho de Defesa Sul-Americano.

Houve uma campanha contra a Unasul usando o fantasma de um suposto bolivarianismo. Nada é mais falso. Todo o processo recente foi fortemente impulsionado pelo Brasil com lastro em duas tradições fundamentais do pensamento social brasileiro: por um lado, o pensamento geopolítico com sua marcha para o oeste, nas formulações de Mário Travassos, do seminal Projeção Continental do Brasil, até os escritos do general Meira Mattos, nos anos 1990; por outro, no pensamento econômico desenvolvimentista, que sempre flertou com a cooperação regional como dimensão estratégica do desenvolvimento nacional.

O mapa de poder global foi redesenhado nas duas primeiras décadas do século 21. O século 20 terminou sob a supremacia dos Estados Unidos, vitoriosos na Guerra Fria. Vinte anos depois, a China emergiu como potência terrestre desafiante, reeditando o esquema básico do quadro mackinderiano: uma potência terrestre que disputa o controle da Ilha-Mundo (Eurásia) como contraponto a uma potência oceânica (visão mahânica) que controla o mundo por meio do domínio dos mares (EUA). No século 19, essa polaridade opunha a Grã-Bretanha à Rússia, o que inspirou a formulação original de Mackinder. Agora a polaridade que se desenha é entre os EUA e a China. Mas há elementos novos e complexos.

Ao contrário da Rússia e da União Soviética, a China é a maior economia mundial, superando a economia americana (2ª), se o PIB for contabilizado no critério de PPC (paridade de poder de compra). A China é um desafiante tridimensional: compete com os EUA também nas dimensões estratégico-militar e científico-tecnológica. Das oito maiores economias do mundo hoje (critério PPC), cinco estão na Ásia e progressivamente articuladas em torno da economia chinesa, em maior ou menor grau, por força das novas rotas da seda, terrestres e marítima, e da área de livre comércio do Pacífico: Japão, Índia, Rússia e Indonésia, além de outras potências de médio porte.

A aliança estratégica entre China e Rússia tem caráter complementar: o dinamismo econômico chinês tende a se espraiar pela Rússia por meio das novas vias terrestres de comunicação e transporte que ligam a economia chinesa ao coração da Europa, com autonomia em relação aos meios tradicionais marítimos. Por outro lado, a China tem na Rússia um parceiro rico em recursos naturais e energéticos, com um sofisticado sistema industrial militar, que potencialmente pode supri-la com matérias-primas e, em parceria, equilibrar o balanço estratégico. Aliados, exercem um poder de atração sobre os demais países do entorno, sobre a Europa e sobre o mundo, por meio de arranjos de geometria variada. A União Europeia, nucleada pela Alemanha, tende a se integrar nesse eixo por seu potencial econômico e pela dependência energética em relação à Rússia, apesar de seus tradicionais laços com o ocidente.

Mesmo a Austrália e a Nova Zelândia que, juntos com o Canadá e o Reino Unido, integram a comunidade anglo-saxônica cujo eixo está nos EUA, estão na RCEP (Parceria Regional Econômica Abrangente), área de livre comércio hegemonizada pela China.

Considerado esse panorama sintético de grandes tendências, a oitava economia global (PPC), o Brasil, deve se organizar a partir de sua circunstância geopolítica sul-americana para negociar com esses grandes blocos as melhores condições para o desenvolvimento nacional e regional. O Brasil estava estruturando a América do Sul (por meio da Unasul) como interlocutor geopolítico desses arranjos e buscando maximizar as oportunidades eventualmente derivadas dessas rivalidades. Parafraseando o economista Paulo Nogueira Batista Júnior, o Brasil não cabe no quintal de ninguém e seu desafio é liderar a retomada da Unasul como parte de sua grande estratégia de inserção no mundo.

Marcelo Viana Estevão de Moraes é especialista em políticas públicas e gestão governamental, doutor em ciências sociais e autor do livro “A construção da América do Sul: o Brasil e a Unasul”, lançado em 2021 pela Editora Appris.

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