Danish Siddiqui
Danish Siddiqui

O ingrediente secreto dos algoritmos: a produção de dados dos trabalhadores

Roseli Figaro
Informações são fornecidas, como um trabalho invisível, por todos que estão conectados à internet como usuários das empresas de plataformas. Companhias estão faturando alto em cima da vida das pessoas

Algoritmos são sentenças matemáticas lógicas que têm uma ordem, um direcionamento para realizar tarefas de coleta, organização, comparação, separação e combinação de dados. Por meio de uma série de estratégias, tais como divisão, subdivisão e modelagem, eles permitem expor, destacar e circular conjuntos de informações, configurando perfis, temas, formas, produtos, fornecendo resultados.

Eles podem ter uma função específica ou desempenhar várias funções. Podem estar na base de um filme de animação ou podem ser elementos de rastreamento sonoro no fundo do mar. Estão presentes na indústria farmacêutica e de equipamentos médicos. São a base das empresas de informação e entretenimento e das plataformas de redes sociais. Há um leque amplo de utilização de algoritmos, que permite inserção profunda na vida cotidiana.

De fato, os algoritmos não são exatamente uma novidade. Seu desenho e uso se intensificaram, sobretudo na passagem do analógico para o digital, e continuam avançando em operacionalidades, denominadas metaforicamente de “aprendizagem”. Os algoritmos de aprendizagem de máquina possibilitam maximizar ações e procedimentos, com a capacidade de reorganização e redirecionamento a partir de montanhas de dados. Essa é a chave da lucratividade de grandes oligopólios de plataformas que se apropriam de dados pessoais, na maioria das vezes sem o consentimento esclarecido dos cidadãos.

Para emancipar o trabalho é necessário mudar o rumo do controle do desenvolvimento tecnológico. A agilidade, a facilidade e a acessibilidade que a tecnologia possibilita podem ser mantidas e ampliadas sem vulnerabilizar ainda mais as relações de trabalho

Os dados são fornecidos, como um trabalho invisível, por todos os que estão conectados à internet como usuários das empresas de plataformas. Para além de cidadãos consumidores, somos trabalhadores. Uma pessoa que está trabalhando para o Amazon Mechanical Turk, por exemplo, é um analista e abastecedor de informações reconhecíveis para serem categorizadas a serviço do algoritmo de aprendizado de máquina. Os entregadores por aplicativo de empresas como Uber Eats, Rappi e iFood são a conexão para a transmissão de dados sobre eles próprios, o trânsito, a cidade, o fornecedor e o cliente. Assim também operam os motoristas de aplicativo. Eles trabalham longas jornadas em condições dramáticas, sem local para realizar suas necessidades básicas nem apoio para eventuais acidentes e problemas de saúde.

A gerência algorítmica no trabalho mediado por aplicativo coleta os dados de trabalhadores interessada nas informações de quem precisa oferecer o serviço e de quem consome o serviço. Para essas empresas de plataforma, o tipo de serviço prestado (transporte, limpeza, delivery) não é exatamente seu negócio. Interessam os dados coletados no processo de prestação do serviço.

No processo de racionalização taylorista do trabalho, desejava-se um ser humano forte e disciplinado do qual se conheciam e se metrificavam todos os movimentos para a produção. Com os algoritmos das empresas de plataformas, a realização digitalizada de modelagem capta e opera todos os nossos movimentos, reflexos e expressões durante a dinâmica da atividade de trabalho. É como se a máquina fosse capaz de captar e registrar o inédito da ação humana.

O arquivo de todas essas informações performa o big data, cuja mineração resulta em planejamento, desenvolvimento de novos produtos, políticas públicas, publicidade, propaganda política, controle social, vigilância e, para grande parte da força de trabalho, resulta em mais precarização das condições laborais e de saúde. O processo de estranhamento no trabalho se acelera porque as pessoas percebem-se descartáveis, substituíveis e despersonalizadas. Há aí a formação de um contingente de proletários em situação tão ou mais precária do que aquela dos operários do início do século 20.

Quanto mais flexíveis forem as relações de trabalho, quanto mais desorganizados estiverem os trabalhadores, mais dependentes eles estarão das lógicas contemporâneas dessas empresas.

Os algoritmos das plataformas coletam de nós o conhecimento prático e a experiência no trabalho. Essas informações retroalimentam e reconfiguram a operacionalidade e as funções de máquina, geram a inovação e aumentam a lucratividade das empresas.

Trata-se de impor ao trabalhador o autogerenciamento subordinado e a total disponibilidade sem garantias e direitos. As empresas de plataformas realizam de mãos limpas o gerenciamento algorítmico do trabalho, sem quaisquer responsabilidades, proclamam independência e afirmam promover a autonomia, mas estão faturando alto em cima da vida das pessoas.

Não há transparência e muito menos neutralidade nesse gerenciamento. As funções contidas na sentença algorítmica e a remodelagem dos algoritmos estão orientadas pelo objetivo comercial da empresa de plataforma. O trabalho do programador, do cientista de dados e de todas as demais funções profissionais que dão existência à plataforma estão correlacionados com o que se efetiva na ponta do processo, ou seja, a coleta de dados da atividade de trabalhadores precarizados, sem direitos e sem reconhecimento.

É importante salientar que essa forma de racionalização do trabalho não está restrita aos trabalhadores desqualificados, mas estende-se para o conjunto de outras atividades. Médicos, enfermeiros, todos os serviços relativos à saúde e ao bem-estar, jornalistas, professores, advogados, arquitetos, entre muitas outras profissões já atendem por aplicativo e atuam a partir da lógica da coleta de dados dos seus clientes.

Há, portanto, uma conexão entre o trabalho em toda a cadeia produtiva relacionada às plataformas. Essa conexão precisa ser explicitada para que milhões de trabalhadores saiam da invisibilidade.

As plataformas buscam a subordinação do trabalho humano à lógica do gerenciamento algorítmico. Mas elas não podem descartar o trabalho, porque o ciclo de realização do mais valor precisa do inédito da atividade humana, do trabalho concreto vivo. Por isso, para emancipar o trabalho é necessário mudar o rumo do controle do desenvolvimento tecnológico. A agilidade, a facilidade e a acessibilidade que a tecnologia possibilita podem ser mantidas e ampliadas sem vulnerabilizar ainda mais as relações de trabalho. As metas de qualidade de vida e trabalho decente estabelecidas pelas Nações Unidas e pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) são o mínimo necessário para o processo civilizatório. Sair da barbárie é reconhecer o valor do trabalho humano.

Roseli Figaro é professora da Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo), onde coordena o Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho e o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Laboratório DigiLabour. É doutora em ciências da comunicação, com pós-doutorado em ergologia pela AMU (Universidade Aix-Marseille).

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