FOTO: Governo do Estado de São Paulo/Flickr - 21.jan.2021
FOTO: Governo do Estado de São Paulo/Flickr - 21.jan.2021

Não se vacinar é egoísta e desumano

Hilton P. Silva

Imunizantes salvam vidas há mais de um século. Assim como usar máscara, lavar as mãos e manter distanciamento social, vacinar-se é um ato ético, de solidariedade e amor, sobretudo com nossos familiares, mas também com o país

Em setembro de 2018, durante a campanha nacional de vacinação contra o sarampo e a poliomielite, fiz um artigo sobre a necessidade de os pais atentarem para importância de manter atualizada a caderneta de seus filhos. O texto começava dizendo que a campanha se iniciara no mês anterior e, como em todos os anos, era fundamental para a saúde das crianças.

Porém, como vem acontecendo na última década, as taxas de imunização no Brasil têm caído sistematicamente. Por exemplo, a vacinação contra 28 doenças totalmente preveníveis, oferecida gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em diversas campanhas ao longo dos anos, em 2016 e 2017 ficou muito abaixo dos períodos anteriores, e esses números não têm se recuperado.

As razões para a redução da adesão às vacinas são muitas, incluindo o empobrecimento da população, que passa a ter menos possibilidade de se deslocar aos serviços de saúde para atendimento, e o horário limitado de funcionamento dos postos de saúde, dificultando o acesso de quem trabalha durante o turno comercial.

Outra causa relevante é a decisão dos pais e responsáveis por não levar as crianças aos postos de saúde, mesmo quando esses estão acessíveis e funcionam nos finais de semana. Há aqueles que consideram que isso não é mais preciso, uma vez que, no seu ponto de vista, determinadas doenças já teriam desaparecido; outros acreditam que as vacinas podem causar algum mal ou provocar reações adversas nas crianças, e que isso seria mais perigoso do que o risco de contrair a doença; há os que se negam a vacinar por convicção religiosa, e alguns alegam nunca ter tempo para ir a um posto de saúde. Curiosamente, são as classes econômicas mais altas as que se mostram mais resistentes.

Todas são alegações frágeis, e alguns dos motivos elencados parecem simplesmente egoístas, uma vez que os pais consideram apenas perspectivas individuais, ignorando as informações científicas e os graves impactos do conjunto das doenças preveníveis na coletividade e nos serviços de saúde. Com a redução das taxas de imunização, vem a ascensão de doenças que já foram consideradas extintas no país, como a poliomielite, e outras que já estavam controladas, como o sarampo e a coqueluche, que têm ocasionado surtos em alguns estados, com sequelas e mortes.

Há ampla experiência no Brasil em desenvolvimento, produção e distribuição de imunizantes eficazes e seguros

No início de 2021, quando mais de 220 mil pessoas já morreram no país por causa da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, o debate sobre a imunização se vê reativado, não pela vacinação infantil — embora esta continue em baixa e com sérias consequências —, mas pelo surgimento dos produtos contra o Sars-CoV-2 e a necessidade de utilizá-los para controlar a pandemia do século.

Da mesma forma que no caso daquelas outrora chamadas de “doenças da quadra infantil”, cada pessoa infectada pelo novo coronavírus pode contaminar diversas outras, em um efeito de “bola de neve” difícil de controlar, mesmo que as medidas de contenção, como isolamento, distanciamento social, uso de álcool em gel e lavagem frequente das mãos, pudessem ser seguidas à risca por todos — algo que, no Brasil, é muito difícil para quase 50% da população, inclusive as populações rurais, quilombolas e indígenas, que vivem em situação social e ambientalmente vulnerável.

Como o vírus tem apresentado mutações que potencialmente aumentam a sua transmissibilidade, e talvez até sua letalidade, a transmissão continuada, ainda que entre indivíduos sem sintomas, aumenta as chances de surgirem novas variantes, que podem ter impacto na continuidade e na gravidade da pandemia, caso esta não seja controlada no curto prazo.

Devido à enorme disparidade social e étnico-racial do país, a covid-19 apresenta sua face mais cruel e mortal para a população negra, que, historicamente, tem menos acesso à infraestrutura sanitária e de saúde e apresenta taxas muito mais altas de infecções e mortes do que o restante da população.

O PNI (Programa Nacional de Imunização) brasileiro) foi instituído em 1975 pela lei n. 6.259 e regulamentado por decreto federal no ano seguinte. Ele tem funcionado ininterruptamente e é considerado um dos melhores do mundo. O decreto estabelece que a vacinação, com os imunizantes disponibilizados pelo Ministério da Saúde, é obrigatória em todo o território nacional, e que é dever de cada cidadão submeter-se aos protocolos como parte das responsabilidades sociais. Embora seja possível questionar a obrigatoriedade alegando “liberdades individuais”, é fato que a legislação vigente livrou o país de milhares de sequelas e mortes até hoje.

Atualmente, as vacinas disponibilizadas no país estão entre as mais modernas tecnologicamente, são acessíveis continuamente em postos de saúde de todos os municípios, e nenhuma outra nação tem o privilégio de cobertura gratuita tão ampla para sua população. Nas últimas décadas, aqui e em todo o mundo, milhões de vidas têm sido salvas graças ao seu uso.

Há ampla experiência no Brasil em desenvolvimento, produção e distribuição de imunizantes eficazes e seguros. As instituições públicas, como o Instituto Butantan, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), além das dezenas de centros médicos e milhares de servidores envolvidos nas diversas fases das pesquisas, têm feito um trabalho excepcional em favor da ciência e de todos os cidadãos.

Em geral, não há contraindicação para a maioria das pessoas tomarem qualquer vacina, e as equipes de saúde são continuamente treinadas para identificar aquelas que não devem receber a dose em determinado momento. No caso dos imunizantes aprovados para a covid-19 no Brasil até agora — a Coronavac, desenvolvida e produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a China, e a vacina desenvolvida pela empresa britânica AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford, da Inglaterra, e produzida pela Fiocruz —, a comunidade médica está confiante de que são adequados e seguros e que é fundamental que a população receba informações corretas sobre a importância de sua utilização.

Diferentemente do que alguns imaginam, as vacinas em uso não começaram a ser criadas em dezembro de 2019, quando o novo coronavírus foi identificado em Wuhan, na China. Elas usam diversas plataformas tecnológicas já existentes e amplamente testadas na confecção de medicamentos para outras doenças, como vírus inativados, suas partes, vetores virais, ou, mais recentemente, RNA mensageiro. Por isso, puderam ser rapidamente adaptadas às necessidades trazidas pela pandemia. Graças aos estudos prévios, o processo de desenvolvimento para lidar com a covid-19 pôde ser muito mais rápido.

Naturalmente que, como acontece com qualquer imunizante — ou, de fato, com qualquer medicação —, há a possibilidade de que alguém venha a ter uma reação a algum componente da fórmula. Casos como vermelhidão e dor no local da injeção, fadiga, dor de cabeça, febre e reações alérgicas ocorreram recentemente durante a fase 3 de testes e foram divulgados pelos fabricantes. São poucos incidentes — menos de 10% entre os milhares de voluntários testados. Nenhum deles morreu por causa da vacina, e ninguém virou jacaré ou qualquer outro bicho. A possibilidade de uma reação grave acontecer é muito menor do que a de qualquer um de nós conhecer alguém que já tenha sido hospitalizado ou morto pela covid-19.

Há mais de 160 vacinas sendo testadas contra o Sars-CoV-2 em diversas fases. As principais que já concluíram a fase 3 de testes foram aprovadas pelas mais exigentes agências reguladoras do mundo. Cerca de 50 países já começaram a tratar sua população. Milhões de cidadãos foram protegidos globalmente. Portanto, embora nossa campanha esteja lenta e ainda haja poucas doses, a não imunização o mais rápido possível, assim como no caso da negligência com a vacinação infantil, representa um grave risco para cada pessoa, para cada família e para toda a sociedade.

A recusa, neste caso, é um ato egoísta, pois considera apenas suas próprias crenças e ignora o bem da coletividade e os fatos científicos; é antissocial, pois é impossível saber quantas pessoas alguém infectado pode efetivamente contaminar e levar à morte; é antipatriótica, pois a longevidade da pandemia prejudica profundamente o país sob diversos aspectos econômicos e administrativos; e é desumana, pois é um claro ato de desrespeito a todos que morreram ao longo dos últimos meses vítimas da pandemia, inclusive milhares de profissionais de saúde, e aos que continuarão a morrer a cada dia que a imunidade não alcançar a maioria da população. Contrariamente ao que tem sido defendido por alguns políticos e autoridades, é impossível calcular o custo financeiro e em vidas da pandemia até que a maioria da população alcance imunidade natural, algo que pode demorar muitos anos para ocorrer, dada a alta taxa de mutação do vírus.

Vivemos um momento de negacionismo científico por parte do governo federal, e mesmo por alguns setores médicos, que têm gerado muitas dúvidas na sociedade sobre como lidar com a pandemia. Quase um ano após a identificação dos primeiros casos no país, embora o Ministério da Saúde apresente alguns alertas em suas redes sociais, ainda não houve uma grande campanha de impacto nacional produzida pelo governo informando sobre como reduzir os riscos de contaminação.

Tendo iniciado a vacinação, embora de forma precária devido à pequena disponibilidade de imunizantes, tampouco foi lançada ainda uma campanha informativa com a necessária amplitude e visibilidade. Pelo contrário, o presidente e seu ministério continuamente buscam minimizar os impactos da doença, ofuscar os dados, apontar caminhos incertos para a população sobre como lidar com o vírus, questionar a importância da vacinação e a qualidade das vacinas. A isso soma-se a profusão de criminosas fake news que alimentam a indústria da ignorância e do medo.

Mas a ciência sempre se mostrará mais forte. Há mais de um século vacinas salvam vidas, inclusive as de muitas pessoas que agora a elas se opõem, mas que foram imunizadas graças ao PNI. Sobre isso não há dúvida. Como dito em meu artigo de 2018, e por dezenas de especialistas nas semanas recentes, elas protegem o presente e o futuro. Assim como usar máscara, lavar as mãos com frequência, manter distanciamento e isolamento social, vacinar-se é um ato ético, de solidariedade e amor com todas as pessoas, sobretudo nossos familiares, mas também com o país.

A pandemia causada pelo novo coronavírus já ceifou muitos conhecidos e lideranças importantes no auge da vida, e a epidemia de ignorância e desinformação continua a mostrar seus efeitos na superlotação dos leitos do SUS e no enfraquecimento da economia. Não podemos deixar a doença do egoísmo privar a todos de viver um ano melhor. É hora de nos unirmos para formar uma sólida corrente de promoção de saúde pública e democrática, em honra aos nossos queridos amigos e parentes que se foram por não termos vacinas até então, e na defesa do Brasil justo e solidário que queremos para o futuro. Precisamos de vacinas já e para todos.

Hilton P. Silva é médico, biólogo, mestre em saúde pública, doutor em antropologia e docente da UFPA (Universidade Federal do Pará). Membro do Grupo Temático Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e do Grupo de Trabalho Interinstitucional em Defesa das Garantias e dos Direitos dos Povos Quilombolas e Contra o Racismo no Estado do Pará da Defensoria Pública do Pará.

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