Nacho Doce/Reuters - 25.JUL2017
Nacho Doce/Reuters - 25.JUL2017

Julho das Pretas: tempo de esperançar nas lutas das mulheres negras brasileiras

Ana Luísa Machado de Castro
O Julho das Pretas apresenta anualmente uma agenda conjunta e propositiva em torno de temas que envolvem a superação das desigualdades de gênero e raça, colocando as pautas das mulheres negras no centro do debate político

Este ensaio faz parte da série de textos que serão publicados ao longo de 2021, no Nexo Políticas Públicas, pelos vencedores da primeira edição do Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política.

As mulheres negras brasileiras têm um histórico amplo de lutas por direitos, projetando intervenções no debate político e propondo projetos de emancipação a partir das suas experiências interseccionais. O 1º Encontro Nacional de Mulheres Negras, por exemplo, ocorrido em Valença, no Rio de Janeiro, em 1988, contou com a participação de centenas de mulheres negras de vários estados do país, inaugurando uma forma inédita de construção e organização de agendas de lutas centralizadas nas perspectivas e nas vivências das mulheres negras. O encontro aconteceu no mesmo ano em que se celebrava o centenário da abolição da escravatura no país, comemorações rechaçadas por diversos setores do movimento negro que denunciavam a farsa da abolição e a continuidade da exclusão dos negros e negras na sociedade brasileira (Castro, 2018). Passados mais de 30 anos deste primeiro encontro, os movimentos de mulheres negras têm se fortalecido como sujeitas políticas para exigir, coletivamente, direitos no âmbito estatal e se consolidado como um dos movimentos sociais mais potentes e criativos dos últimos anos.

No plano internacional, a partir da década de 1990, os movimentos de mulheres negras brasileiras intensificaram sua atuação para vocalizar as suas demandas e construir redes de ativismo em parceria com grupos de mulheres negras de outros países, especialmente da América Latina. Assim, em 1992 é realizado o 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, na República Dominicana e formada a RMAAD (Rede de Mulheres Afro-latino americanas, Afro-caribenhas e da Diáspora), espaços centrais para o fortalecimento dos laços de solidariedade entre as mulheres negras das região. A partir disso, desde de 1992, as resistências das mulheres negras são visibilizadas no dia 25 de julho, considerado o Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latina-americana e Caribenha, no qual as mesmas se voltam para a realização de atividades que colocam em evidência as demandas e as lutas das mulheres negras da região (Castro, Santos e Silva, 2020). No Brasil, o dia 25 de julho foi instituído como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra pela lei n. 12.987/2014 sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, em homenagem a líder quilombola Tereza de Benguela, conhecida por comandar o Quilombo de Quariterê (Castro, 2018).

No plano internacional, a partir da década de 1990, os movimentos de mulheres negras brasileiras intensificaram sua atuação para vocalizar as suas demandas e construir redes de ativismo em parceria com grupos de mulheres negras de outros países, especialmente da América Latina

No contexto brasileiro, a importância da data não se restringe ao dia 25. Desde de 2013, o Julho das Pretas, tem ampliado esta celebração e se tornado uma ação estratégica de mobilização para os movimentos de mulheres negras. Criado pelo Odara - Instituto da Mulher Negra, da Bahia e expandido para outros Estados do país, o Julho das Pretas apresenta anualmente uma agenda conjunta e propositiva em torno de temas que envolvem a superação das desigualdades de gênero e raça, colocando as pautas das mulheres negras no centro do debate político. Ao longo dos anos, o Julho das Pretas já abordou temas como a autonomia financeira das mulheres negras; a participação e a representação política; o direito à comunicação e a representação midiática das mulheres negras; as estratégias construídas pelas negras jovens feministas para enfrentar o racismo, machismo, lgbtfobia e todas as formas de opressão; entre outros.

Em 2020, no contexto de agravamento da pandemia, as mulheres negras realizaram a primeira edição do evento na modalidade virtual com o slogan “Em Defesa das Vidas Negras, pelo Bem Viver”, com debates voltados para a denúncia das políticas de morte em curso. A defesa das Vidas Negras foi colocada como pauta prioritária considerando o acirramento do genocídio contra a população negra, as maiores vítimas da covid-19; das violentas ações policiais nas periferias do Brasil; dos feminicídios e os mais afetados pelas desigualdades sociorraciais que prejudicam o acesso à direitos fundamentais para a manutenção da vida.

A edição de 2021 do Julho das Pretas tem como slogan “Para o Brasil genocida, Mulheres Negras apontam a solução” e pretende apontar caminhos para se enfrentar o momento atual a partir das mulheres negras e das lutas antirracistas, antipatriarcais e anticapitalistas. São mais de 300 atividades realizadas por grupos, coletivos, instituições religiosas e acadêmicas, que partem da experiência das mulheres negras para denunciar o projeto genocida em curso e fornecer alternativas para a construção de projetos emancipatórios.

O Julho das Pretas é apenas um dos exemplos de como os movimentos de mulheres negras brasileiras permanecem atuando em resposta aos desafios de uma conjuntura política cada vez mais letal e elaborando gramáticas políticas próprias. Outro processo fortalecedor e potente que ainda reverbera nas práticas políticas das mulheres negras é a Marcha das Mulheres Negras, realizada em 2015, que indicou a centralidade da ocupação das ruas como ferramenta de confronto político das mulheres negras, tendo como objetivos centrais denunciar a falência do projeto civilizatório implementado pelo Estado brasileiro; valorizar as lutas históricas das mulheres negras e fornecer estratégias alternativas para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária (Lemos, 2016). Considerada como a maior manifestação contra o racismo das últimas décadas, em termos numéricos e organizativos, também representou uma ampliação e diversificação das “bases” do movimento, incorporando mulheres negras jovens que trouxeram a internet como um novo elemento para a performance política (Rodrigues, 2020).

O tema “Marcha das Mulheres Negras contra o racismo e a violência e pelo Bem Viver” evidencia os eixos que nortearam as discussões políticas ao longo da preparação para o evento, focados na denúncia do racismo e da violência, ressaltando o genocídio do povo negro, em especial dos jovens negros vítimas da violência policial e do feminicídio que atinge majoritariamente mulheres negras. O “bem viver”, conceito oriundo dos povos originários dos Andes, reflete a urgência da solidariedade entre os povos subalternizados presente no projeto das mulheres negras brasileiras. Para Nilma Bentes (2016), uma das idealizadoras da Marcha, o conceito de “bem viver” indica “a necessidade de mudança do chamado ‘modelo de desenvolvimento’, combatendo, portanto, a mercantilização-financeirização dos recursos naturais/bens comuns, o consumismo exacerbado, o lucro insano, o capitalismo neoliberal” (Bentes, 2016, p. 8) e aponta para a proposta de construção de um novo pacto civilizatório, ancorado na utopia da construção de um mundo de todos(as) e para todos(as) (Carta das Mulheres Negras, 2015).

Neste momento de angústias sem precedentes, recuperar os marcos das lutas das mulheres negras brasileiras, que não apenas resistem como também apontam caminhos para transformações sociais, pode ser um respiro para continuarmos. Em um país fundado pelas lutas das mulheres negras, como Esperança Garcia, Lélia Gonzalez, Marielle Franco, Benedita da Silva, Vilma Reis, Nilma Bentes, Jurema Werneck e tantas outras; que possamos olhar para este legado reconhecendo a sua potência na construção de novos futuros.

BIBLIOGRAFIA

BENTES, Nilma. E-book Marcha das Mulheres Negras. Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, 2016. Disponível aqui.

CASTRO, Ana Luísa Machado. Ecoando dos Cinco Cantos: Feminismo Negro Brasileiro e questões de Direitos Humanos. Dissertação (Mestrado Interdisciplinar em Direitos Humanos) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2018.

CASTRO, Ana Luísa Machado; SANTOS; Carla. SILVA, Grécia. Mulheres negras movimentando as estruturas sociais e políticas: análise dos repertórios de interação entre Estado e movimento de mulheres negras. Anais do 12º Encontro da ABCP. João Pessoa, PB.2020.

LEMOS, Rosália de O. Do Estatuto da Igualdade Racial à Marcha das Mulheres Negras: uma análise das feministas negras brasileiras sobre políticas públicas. 398. Tese (Doutorado em Política Social) – Universidade Federal Fluminense, Escola de Serviço Social, 2016.

RODRIGUES, Cristiano. Afro-latinos em movimento: protesto negro e ativismo institucional no Brasil e na Colômbia. 1ª ed. – Curitiba: Appris Editora, 2020.

Carta das Mulheres Negras 2015. Disponível aqui.

Programação Julho das Pretas 2021. Disponível aqui.

Site Julho das Pretas

Ana Luísa Machado de Castro é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Mestra em direitos humanos pelo Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos da UFG (Universidade Federal de Goiás). Possui graduação em relações internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (2015). Faz parte do Coletivo Rosa Parks: Estudos e Pesquisas sobre Raça, Etnia, Gênero, Sexualidade e Interseccionalidades (UFG) e do Nepem (Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher). Recebeu, em 2021, o Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política na categoria “doutoranda”.

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