FOTO: Ricardo Moraes/REUTERS - 26.SET.2019
FOTO: Ricardo Moraes/REUTERS - 26.SET.2019

Desmatamento, queimada e ESG: velhos desafios, novas oportunidades

Luciane Simões e Pedro Burnier
Esforços para reduzir emissão de carbono em município do Pará dependem do apoio de atores do governo local e da iniciativa privada

São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, ocupou o topo do ranking de municípios que mais queimaram vegetação e emitiram carbono durante os últimos cinco anos (Inpe/SEEG/OC) 1. A abertura da rodovia PA-279, na década de 1970, que liga o município com a Belém-Brasília, deu início a um processo de ocupação ilegal e degradação ambiental, pelas atividades de extração de madeiras e pecuária.

São Félix do Xingu hospeda o maior rebanho bovino do Brasil com 2,4 milhões de cabeças de gado (IBGE, 2020) e dados publicados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) sobre focos de calor no mês de outubro de 2021 apontam que SFX apresentou 195 focos e um pouco mais atrás Altamira, com 131. Trata-se dos dois municípios que historicamente lideram esse índice. De 2017 a 2021, alguns eventos climáticos e antrópicos de grandes proporções podem ter contribuído para manter, principalmente, São Félix do Xingu como protagonista do fenômeno. O foco de queimada caracteriza qualquer presença de temperatura acima de 47°C detectada pelo satélite, independentemente do tamanho da área afetada e da natureza do fenômeno, podendo se tratar de queimada de pastagem, queimada de derrubada florestal ou incêndio.

Importante lembrar que o processo de desmatamento é a porta principal para o aumento das queimadas no país. Ele é gerado principalmente por exploração da madeira, abertura de áreas para uso da agropecuária e especulação imobiliária.

Nas análises dos focos a partir de dados publicados pelo Inpe ao longo de 17 meses para São Félix do Xingu , podemos verificar que houve redução expressiva (69%) nos focos detectados no mês de setembro de 2021 (período de pico no uso do fogo na região) em relação ao mesmo período do ano anterior.

gráfico de linha mostra Focos de Calor de Junho 2020 a Outubro 2021

Outro dado importante a se olhar é a média desses focos nos quatro meses acumulados de cada ano, em 2020 e em 2021 entre julho e outubro. Essa análise permite uma percepção melhor da redução ao longo do período (58%). Esse indicador é valioso e sugere que, se for dada continuidade às ações de manejo, prevenção e combate ao fogo aplicadas durante esse período – e detalhadas a seguir – o número de focos poderá reduzir progressivamente.

Normalmente quando o Inpe divulga os dados de queimadas atualizados, costuma-se analisar apenas o mês de referência para rankear os municípios. Consideramos que a melhor forma para entender o resultado do desempenho de uma cidade amazônica nas ações de combate a incêndios deve partir da dinâmica das ocorrências de um período mais longo que inclua, principalmente, a época de estiagem (julho a outubro). Isso significa que ao analisar os focos de queimadas, não necessariamente quem está na frente naquele mês é quem queimou mais.

O fato pode ser atribuído simplesmente porque o município não desempenhou efetivamente ações que pudessem reduzir esses índices em comparação a outro da lista. Por exemplo, em setembro de 2021, Altamira indicou 540 focos, enquanto São Félix apresentou 646. Já no mês seguinte, Altamira teve 131 focos (75,7% de redução) e SFX 195 (69,8% de redução). Não quer dizer que SFX queimou mais, mas em comparação ao mês anterior houve uma queda, assim como Altamira, porém não desempenhou um papel melhor nas ações de redução.

São Félix do Xingu, ao contrário de outras cidades vizinhas que foram palco de operações da Polícia Federal, destacando-se a última (Handroanthus, na qual resultou na apreensão de aproximadamente 200 mil metros cúbicos de toras nativas (IPL 2020.00121686) na região do rio Arapiuns no final de 2020, provenientes dos municípios de Aveiro, Itaituba, Juriti e Altamira, esta última em maior volume. -, e assim coíbem as práticas ilegais por um tempo, vem trabalhando em ações constantes e de longo prazo com a Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, através do projeto “Fogo: Ações para Diminuição de Queimadas”. Essas ações são feitas com apoio de diversos atores do município e solidificadas pela atuação efetiva do governo local, principalmente através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente que busca tecnologia, melhoria de processos, planejamento estratégicos e outras ferramentas de gestão aliadas às políticas de fiscalização, comando e controle.

Um ponto importante é que existe além da vontade política, a vontade real por um novo perfil atribuído a essas mudanças tanto das pessoas como da iniciativa privada, como é o caso da Frigol. Hoje o frigorífico utiliza sistemas de monitoramento robustos para rastrear toda sua cadeia produtiva e que permite controlar a origem de gado de seus fornecedores. O controle de origem animal tem sido uma das prioridades da Frigol dentro de sua política de ESG (do inglês, environmental, social and corporate governance ou governança ambiental, social e corporativa, em tradução livre ). A empresa, com planta em SFX, assinou o compromisso com o governo do estado do Pará e o Ministério Público Federal e vem ganhando avanços nos resultados da auditoria do TAC da Carne, – um instrumento que promove avanços nas práticas sustentáveis das empresas, em especial no aprimoramento do sistema de monitoramento dos animais, levando a um melhor controle do desmatamento causado pela pecuária no estado.

A exemplo da Frigol, que no ano passado teve o aumento da sua receita em quase 30%, apostando em processos e instrumentos que colocam em prática os conceitos de ESG colocando empresa no caminho de crescimento seguro e sustentável, outras empresas devem rever suas práticas de negócios utilizando os conceitos da geração de valor compartilhado, engajando os atores sociais que estão envolvidos não só com sua cadeia produtiva mas também, se envolver com eles, criando uma dinâmica de diálogo positivo com a sociedade local diretamente interessada, posicionando o setor como um grande colaborador para que os dados ambientais continuem em melhoria crescente.

Luciane Simões é coordenadora do projeto “Fogo: Ações para Diminuição de Queimadas” da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

Pedro Burnier é gerente do projeto “Pecuária”, da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira.

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