Dean Moriarty/Pixabay
Dean Moriarty/Pixabay

O desafio das fake news para os gestores de políticas públicas

Leonardo Prudente e Mariella Oliveira-Costa

Mais do que informar, os gestores de políticas públicas precisam combater a desinformação. Mas, afinal, quem diz o que é a verdade?

Em um momento de pós-verdade, os fatos objetivos têm influência menor do que a emoção, a crença de cada pessoa e o círculo social. Espalham-se as chamadas fake news, e as redes sociais acentuam o fenômeno ao propagar rapidamente mentiras e boatos.

O descrédito nas instituições públicas parece favorecer que as pessoas privilegiem conteúdos recebidos de amigos, os quais são considerados fontes confiáveis, em detrimento de informações checadas e provenientes de pesquisa científica referendada. Em se tratando do Brasil, que amarga baixa escolaridade e mais de 11 milhões de analfabetos segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os efeitos das informações falsas são preocupantes, sobretudo, no campo das políticas públicas.

As notícias falsas são informações completamente erradas, parcialmente verdadeiras ou corretas, porém descontextualizadas, e não se confundem com apuração jornalística ruim. Elas distorcem fatos, destroem reputações e negócios, reforçam pensamentos radicais, disseminam o ódio e a violência, levam as pessoas ao erro e modificam os rumos da sociedade.

No campo das políticas públicas, as fake news impõem aos gestores públicos o desafio de combatê-las, zelando pela eficiência e pelas evidências científicas nas decisões públicas, mesmo que isso desagrade a determinados atores sociais.

Como as fake news afetam as políticas públicas?

A saúde está entre os principais alvos das fake news no campo das políticas públicas. A desinformação produzida por movimentos antivacina, por exemplo, argumenta que as imunizações ocasionam problemas de saúde, alteração de DNA ou mesmo autismo. Interessa notar que a falsa correlação entre vacinação e autismo continua no imaginário popular mesmo após o próprio autor do estudo que a havia sugerido, o médico Andrew Wakefield, ter admitido que fraudou dados em seu artigo publicado pela prestigiada revista The Lancet em 1998.

No Brasil, em 2019, bem antes da pandemia do novo coronavírus, o Ministério da Saúde, lamentavelmente, já registrava que um dos temas em saúde com maior frequência de informações falsas era a vacinação. Com a corrida por uma nova vacina que possibilite a imunização contra a covid-19, a cada dia mais desinformação ganha status de verdade e é compartilhada em velocidade inversamente proporcional à da pesquisa científica, que tem seus tempos, prazos e procedimentos metodológicos específicos. Incontáveis teorias da conspiração em torno de um novo imunizante pairam pelas redes sociais questionando sua origem e efeitos colaterais elaborados pelas mentes mais criativas e criminosas. Resta saber como se comportarão esses que disseminam tais boatos diante da chegada de lotes de vacinas, como as que chegaram a São Paulo no último dia 19 de novembro.

No campo das políticas públicas, as fake news impõem aos gestores públicos o desafio de combatê-las, zelando pela eficiência e pelas evidências científicas nas decisões públicas

De fato, a realidade da pandemia escalonou o problema das fake news. Na Europa, sobretudo no Reino Unido, conspirações responsabilizavam redes 5G pela disseminação do novo coronavírus, o que levou à queimada de dezenas de torres de telefonia celular. No Brasil, circulam receitas caseiras para se combater a covid-19: banhos de sol, lavagem das narinas, ingestão de bebidas quentes, chá de alho, café, enxaguante bucal, água a cada 15 minutos, álcool e até mesmo cocaína.

Esse cenário leva gestores de políticas a um novo desafio: não basta informar corretamente — é preciso combater a desinformação. Longe de demonizar as redes sociais e o maior acesso das pessoas à produção e ao compartilhamento de informações, os profissionais da gestão pública devem entender que há um inegável potencial de mobilização e de conscientização por meio das redes sociais. Com isso, podem pensar em como trabalhar com esses espaços a favor das pessoas, captando anseios, dúvidas, queixas e suas diferentes percepções sobre as políticas públicas.

Como as fake news têm sido enfrentadas?

Bons exemplos de enfrentamento do problema têm surgido no governo e fora dele.

A Fiocruz, por exemplo, lançou o aplicativo para celular “Eu fiscalizo”, no qual as pessoas podem denunciar conteúdos falsos em emissoras de TV, streaming, cinema, jogos eletrônicos, espetáculos, publicidades e mídias sociais. A Fiocruz Brasília, em março deste ano, fez uma campanha nas redes sociais com uma série de posts educativos que ensinavam as pessoas a identificar e checar as notícias que chegavam até elas e desmentiam informações falsas que traziam o nome da fundação.

O Ministério da Saúde abriu, em 2018, uma conta de WhatsApp para receber da população informações suspeitas que circulam pelo aplicativo. O órgão então checava o conteúdo e produzia alertas de fake news, bem como material com informação correta. Em seu primeiro ano de funcionamento, a conta recebeu mais de 10 mil mensagens para verificação. A iniciativa, porém, parece ter sido descontinuada, já que a apuração mais recente disponível no site voltado ao tema data de 17 de julho de 2020.

Ao mesmo tempo, a iniciativa privada tem tomado atitudes. Os principais veículos de comunicação têm investido na abertura de agências de verificação de fatos, dados e declarações. No Brasil, o site Boatos.org, mantido por iniciativa cidadã individual, bem como a agência de notícias Aos Fatos e jornais tradicionais, tais como O Globo e Zero Hora, mantêm serviços de checagem. O Projeto Comprova reúne jornalistas de 28 veículos de comunicação para investigar informações enganosas sobre políticas públicas e a pandemia de covid-19.

O Facebook anunciou que passará a emitir alertas e notificações a usuários que tenham interagido com conteúdo marcado como falso. O WhatsApp, quando identifica um conteúdo suspeito, substitui o botão de encaminhar a mensagem (símbolo de seta) pelo botão de realizar uma busca sobre o conteúdo na internet (símbolo de lupa), que contém a propagação e permite o esclarecimento.

Afinal, sobre políticas públicas, quem diz o que é fake ou fato? O critério para se definir o que é verdade em políticas públicas não está dado em todas as situações e passa pela subjetividade e pela referência de quem emite a informação.

Por mais que existam instituições sólidas, elas são conduzidas por pessoas e seus interesses, que, em alguma medida, podem reforçar a desinformação ou produzir falsa informação, revestida de chancela institucional e do aplauso dos grupos que se identificam com o que é dito. Em outras palavras, qualquer frase, defesa ou afirmação categórica, mesmo que falsa, quando dita por alguém com maior prestígio, poder político ou midiático, pode ganhar status de verdade simplesmente pela autoridade investida naquele que a propaga.

Nesta disputa de informações, cabe aos gestores de políticas públicas a tarefa de zelar pela impessoalidade e pelas evidências científicas nas decisões públicas, agindo com imparcialidade na defesa do interesse público — mesmo que isso desagrade a determinados atores sociais, públicos ou não. Em uma época em que os fatos objetivos parecem importar menos do que o gosto pessoal das pessoas (aí incluídos os gestores públicos), o desafio está em buscar e defender a verdade a despeito dos desafios da impopularidade.

Leonardo Prudente pertence à carreira de especialista em políticas públicas e gestão governamental. É mestre em administração e atua como gerente de projetos no Ministério da Economia. Também é diretor da Anesp (Associação Nacional de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental).

Mariella de Oliveira-Costa é jornalista, especialista em jornalismo científico, mestre em tocoginecologia e doutora em saúde coletiva. Atua como professora, pesquisadora e jornalista na Fiocruz Brasília.

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