Esqueça o ano de net zero: o que importa é o orçamento remanescente de carbono

FOTO: Getty Images/Sukanya Sitthinkongsak
muda de árvore plantada
Recém-publicado Relatório do IPCC enfatiza que a redução imediata e persistente das emissões é mais importante do que uma data simbólica para alcançar a neutralidade de carbono global

Nos últimos anos, a pressão social por ações de mitigação da mudança global do clima atingiu um patamar inédito. Cada vez mais, países, cidades e até mesmo empresas têm se comprometido a incorporar a questão climática em seu planejamento. Frequentemente, tais compromissos se baseiam em metas de atingimento da condição de net zero (ou emissões líquidas iguais a zero) em 2040, 2050, 2060 ou 2070.

Apesar de amplamente difundido, o termo net zero ainda gera confusão. É possível pensar em net zero CO2 ou net zero GEE (gases de efeito estufa), sem falar no controverso uso do termo neutralidade de carbono. A métrica net zero aponta para a direção correta, mas tem se mostrado insuficiente para embasar políticas públicas ou estratégias corporativas efetivas de redução de emissões.

Conforme veremos a seguir, a ciência atual não se preocupa preponderantemente com a data em que o mundo atingirá a condição de net zero, mas sim com o valor do orçamento remanescente de carbono. Vejamos o porquê.

1. O que são emissões líquidas de carbono? E net zero CO2?

Apesar da contribuição relevante de outros gases, o acúmulo de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera é a principal causa do aquecimento do planeta. Diante disso, evitar maiores níveis de aquecimento significa, grosso modo, estabilizar a concentração desse gás na atmosfera. Conforme ilustra a figura 1, o motivo de essa concentração vir continuamente aumentando é o desequilíbrio que as atividades humanas causam no ciclo do carbono, ao retornar uma quantidade atípica de CO2 à atmosfera, a qual estava armazenada por centenas de milhões de anos em reservatórios geológicos na forma de carvão, petróleo ou gás natural.

Assim, seria razoável assumir que resolver esse problema seria sinônimo de zerar, em absoluto, as emissões antrópicas de CO2. Esse raciocínio está correto, mas ignora um dado importante: potenciais atividades humanas que, em sentido inverso, retirem carbono da atmosfera.

O exemplo mais palpável de remoção de CO2 da atmosfera é o florestamento: ao se plantar árvores onde não havia historicamente florestas, forma-se um estoque vegetal de carbono devido à fotossíntese, diminuindo a concentração do gás na atmosfera. Analogamente, algumas tecnologias têm sido propostas para proporcionar essas emissões negativas, como a polêmica DAC (do inglês Direct Air Capture), que se presta a retirar CO2 diretamente do ar. A figura 2 mostra que, hoje, é praticamente indiferente se falar em emissões totais ou líquidas de CO2, pois a ordem de grandeza do sequestro de carbono é irrelevante frente à das emissões de atividades humanas. Contudo, a partir do momento em que se começa a ter sequestro (ou seja, emissões negativas), tal distinção torna-se importante: na segunda barra, por exemplo, vemos emissões brutas de 30 GtCO2/ano que se traduzem em emissões líquidas de 25 GtCO2/ano devido à presença de um sequestro de 5 GtCO2/ano.

A condição de net zero CO2 nada mais é do que o momento em que as emissões negativas se igualam às positivas, gerando emissões líquidas de carbono iguais a zero (terceira barra). Em outras palavras, o mundo pode alcançar o net zero mesmo com emissões anuais positivas de CO2, desde que haja um montante anual equivalente de carbono sequestrado.

Já o net zero GEE requer ainda mais emissões negativas de CO2 com o intuito de zerar as emissões de GEE, compensando as emissões residuais de gases não-CO2, como metano (CH4), óxido nitroso (N2O) e gases fluorados. Assim, inevitavelmente, o net zero CO2 ocorre antes do net zero GEE e tanto a quantidade de emissões negativas de CO2 quanto o intervalo de tempo para atingir net zero GEE dependem da escolha de uma métrica de equivalência.

2. Um parêntese: neutralidade de carbono e net zero CO2 são sinônimos?

Quando se fala de uma região, setor ou empresa específica, há uma diferença entre net zero CO2 e neutralidade de carbono. Um objetivo net zero significa tentar chegar a uma condição em que um dado negócio, setor da economia ou país remova da atmosfera uma quantidade de CO2 equivalente àquela das emissões de suas atividades produtivas. Já o conceito de neutralidade é mais flexível: quando se fala em algo, alguém ou algum lugar neutro em carbono, não se espera necessariamente a condição de emissões líquidas iguais a zero, mas frequentemente uma compensação de emissões.

Como exemplo, considere-se a aviação, um dos setores de mais difícil descarbonização. Devido a uma série de especificidades, o transporte aéreo não se transformará facilmente em uma atividade inteiramente baseada em energia renovável. Combustíveis renováveis podem desempenhar um papel relevante, mas esbarram em questões técnico-econômicas. Assim, uma das estratégias do setor para lidar com sua parcela de responsabilidade na crise climática tem sido propor compensações (offsets, em inglês), instrumentos por meio dos quais se financia a redução de emissões fora do escopo da aviação (por exemplo, reflorestamento e captura de carbono diretamente do ar), numa lógica similar à dos créditos de carbono. Em resumo, pode-se dizer que ser neutro em carbono representa menos ambição do que se atingir net zero CO2.

Contudo, isso não é verdade em escala global: enquanto um país pode atingir a neutralidade por meio de créditos de carbono, não faz sentido falar em compensação para o mundo como um todo. É impossível mitigar emissões de GEE fora da Terra (afinal, por definição, ela é a última fronteira do problema). Assim, um mundo neutro em carbono é rigorosamente o mesmo que um mundo net zero CO2.

3. De onde vem a necessidade de net zero CO2?

A adoção do conceito de net zero é relativamente recente. Tradicionalmente, políticas e estudos associados à mitigação das mudanças do clima basearam-se em outras métricas. Por exemplo, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (na sigla em inglês, UNFCCC), estabelecida em 1992 durante a Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, traduziu a necessidade de mitigação do aquecimento global como o objetivo de estabilizar concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa (GEEs). Já o Protocolo de Quioto, de 1997, foi construído em torno de metas percentuais de redução de emissões em relação a anos de referência.

Desde o Acordo de Paris (2015), que colocou o objetivo específico de limitar o aumento da temperatura média global a bem menos do que 2,0°C (idealmente 1,5°C), isso tem mudado. Embora as partes definam seus próprios caminhos por meio de suas contribuições nacionalmente determinadas (NDCs, em inglês), o sucesso do acordo depende do processo de convergência das ações individuais dos países para níveis de emissões globais consistentes com as metas de temperatura. Assim, cada vez mais, ambições de mitigação climática têm sido expressas pela ciência por meio dos chamados orçamentos de carbono, que consistem em limites máximos de emissões líquidas de CO2 acumuladas ao longo do tempo.

A lógica de um orçamento de carbono é simples: em primeiro lugar, deve-se lembrar que a relação entre a concentração atmosférica de CO2 e o aquecimento global médio é praticamente linear. Isso significa que uma tonelada de CO2 emitida provoca aumento no aquecimento na mesma proporção da tonelada anterior emitida. Assim, tendo em mente que a molécula de CO2 dura séculos na atmosfera, se o objetivo é estabilizar o aquecimento em um determinado patamar, existe uma quantidade total máxima de CO2 que pode ser emitida para a atmosfera ao longo do tempo.

Entre 1850 e 2021, as emissões líquidas acumuladas de CO2 foram de aproximadamente 2.500 bilhões de toneladas. Para se ter uma chance razoável de se limitar o aquecimento a 1,5°C, tem-se um orçamento de carbono de aproximadamente 2.900 bilhões de toneladas. Isso significa que, a partir de 2022, e para sempre, o mundo só poderá emitir mais 400 bilhões de toneladas de CO2. Essa quantidade é o que se chama de orçamento remanescente de carbono.

Assim, o net zero CO2 nada mais é do que uma consequência natural do conceito de orçamento de carbono: se só podemos emitir uma certa quantidade finita de CO2, isso significa que, em algum momento ao longo do século, o mundo deverá tornar-se neutro em carbono, ou seja, as emissões líquidas de CO2 zeram (alcança-se o net zero), o aquecimento induzido pelo CO2 para de aumentar e o nível de aquecimento passa a ser determinado apenas pelas emissões líquidas acumuladas na atmosfera até este ponto.

4. Então, o que importa é o ano de net zero?

Não exatamente. É preciso lembrar que o ano de net zero é apenas um ponto no tempo. Esse ponto em si nada diz sobre a trajetória de emissões entre hoje e a neutralidade de carbono global. Conforme ilustra a figura 3, existe uma infinidade de caminhos para se sair do atual patamar de emissões (cerca de 40 GtCO2/ano) para a condição de net zero CO2 (0 GtCO2/ano).

A figura traz dois exemplos extremos para retratar essa realidade: no primeiro cenário (linha amarela), há uma forte redução das emissões já antes de 2030. A partir de então, a redução é mais lenta, mas continua em curso, levando à neutralidade em 2055. Ao longo dessa trajetória, no total, 350 bilhões de toneladas de CO2 são emitidas. O segundo cenário (linha roxa) segue o caminho inverso: nas duas primeiras décadas, há uma grande inércia para reduzir emissões, mas, por volta de 2040, as emissões anuais caem abruptamente, atingindo o net zero CO2 também em 2055. Nesse caso, o CO2 acumulado na atmosfera ao longo do período 2020-2055 totaliza 1 trilhão de toneladas, quase o triplo do montante da primeira trajetória.

Os orçamentos de carbono calculados por cientistas do clima se aplicam às emissões globais, e não às emissões de entidades individuais. Muitos dos que anunciaram metas net zero para uma data específica no futuro ainda não definiram como vão cumprir suas promessas e, quando apresentam algum plano, têm dado mais foco ao papel das compensações de carbono do que à redução de suas próprias emissões. A ambição de longo prazo muitas vezes não é apoiada por ações imediatas, o que tem gerado reações públicas, como acusações de greenwashing.

Em suma, o conceito de net zero surgiu da compreensão do que seria necessário para se atingir uma meta ambiciosa de limite de temperatura, e não o contrário. Por isso, em termos de políticas de mitigação climática, a fixação pura e simples de um ano de net zero é importante, mas não suficiente para se promover trajetórias efetivas de descarbonização.

5. Como tornar metas net zero úteis para se limitar o aquecimento global?

Para transformar o net zero em uma narrativa de referência útil para tomadores de decisão, o orçamento global de carbono precisa ser traduzido em caminhos individuais de descarbonização para países, entidades subnacionais, empresas e outras organizações. Vejamos alguns atributos para o sucesso de compromissos net zero:

- Ações climáticas imediatas: existem sólidas razões científicas e econômicas para se reduzir as emissões ao máximo e no mais curto intervalo de tempo possível. Ações imediatas ajudam (ou teriam ajudado) a superar a inércia do sistema econômico. Para incentivar a redução imediata das emissões, recomenda-se a combinação de compromissos net zero de longo prazo com metas provisórias de curto prazo, de modo que ambos definam as trajetórias de emissões em horizontes de tempo relevantes para a tomada de decisão. Além disso, tanto no nível corporativo quanto no de país os planos devem estar ancorados em estruturas legais robustas e aplicáveis.

- Reduzir emissões em todos os setores: net zero significa combater todas as emissões, sem exceção. O foco tradicional das estratégias tem sido no setor de energia. A queda dos custos de energias renováveis tem sido acentuada e parece difícil parar a transição no setor elétrico. O mesmo pode estar sendo observado no setor automobilístico com a ascensão de veículos elétricos. Contudo, na maioria dos outros setores, como indústria, agropecuária e transporte marítimo e aéreo, não está tão claro como se atingir o net zero devido ainda aos altos custos das soluções existentes. Lidar com todas as emissões requer um amplo apoio social, a partir do envolvimento de grupos comunitários, prefeituras, agências reguladoras, bancos centrais, instituições financeiras, tribunais etc., de forma que a narrativa net zero adquira legitimidade pública.

- Cautela sobre o papel da remoção de carbono: a disseminação da captura, transporte, armazenamento e uso de CO2, provavelmente, será limitada por questões de custo e fatores geopolíticos, bem como por restrições biológicas, geológicas, tecnológicas e institucionais em nossa capacidade de remover carbono da atmosfera e de armazená-lo de forma durável e segura. Além disso, há também preocupações sobre o risco moral de uma dependência excessiva nesta estratégia, o que pode atrasar ainda mais a necessária redução do uso de combustíveis fósseis. Priorizar as reduções de emissões não significa atrasar o potencial da remoção de carbono. Contudo, ainda são necessárias estruturas legais e de governança claras sobre responsabilidades, transparência e gestão de riscos para garantir uma licença social e política para o equilíbrio adequado entre emissões residuais e remoções.

- Regulação efetiva de compensações de carbono: a integridade social e ambiental da remoção de carbono está ligada à integridade e à regulamentação adequada das compensações de carbono. O uso de compensações de carbono terá que ser acompanhado por uma radical melhora de sua qualidade e por um amplo escrutínio regulatório, de modo a evitar preocupações sobre credibilidade, mau monitoramento e a longevidade do armazenamento (o geológico deve ser possível por centenas de anos; já o biológico, via reflorestamento, varia de menos de uma década a mais de um século).

- Transição justa para o net zero: a justiça depende de como o ônus de cumprir a meta global é compartilhado entre países e até mesmo dentro de países. Isso significa que alguns podem precisar atingir o net zero mais rapidamente para criar espaço para outros que podem levar mais tempo. Países em desenvolvimento precisam ser apoiados - em termos de financiamento, tecnologia e capacitação - para atingir o net zero, de modo que prioridades como empregos, segurança energética, proteção de populações vulneráveis e combate à poluição do ar sejam garantidas.

- Alinhamento com objetivos socioecológicos mais amplos: a mudança climática é talvez o maior dos desafios socioecológicos do nosso tempo, mas há outros também. Portanto, em vez de se perseguir estritamente um objetivo, os planos net-zero devem reconhecer uma gama completa de serviços ecossistêmicos e ser incorporados a estratégias mais amplas de sustentabilidade socioecológica.

- Busca de novas oportunidades econômicas: à medida que soluções viáveis para o alcance do net zero comecem a surgir, ficará cada vez mais claro que o net zero também pode ser uma oportunidade econômica. No curto prazo, a busca de oportunidades econômicas pode ser prejudicada pela rigidez estrutural da economia. Por isso, a transição para o net zero requer mudanças em grande escala na forma como as economias são administradas. Perceber essas oportunidades e lidar com os riscos de transição é a chave para o sucesso do net zero.

BIBLIOGRAFIA

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