Quais os efeitos de pequenas intervenções para reduzir o uso de água e energia

FOTO: Oswaldo Rivas/Reuters - 11.AGO.2017
Medidores de energia elétrica em Manágua, Nicarágua
Programas em que famílias receberam informações sobre seu consumo em comparação com seus vizinhos reduziram seus gastos em pequenas quantidades

O consumo residencial de energia constitui uma grande parte das emissões de carbono em muitos países. Esse não é o caso do Brasil, tendo em vista a grande oferta de fontes renováveis para a produção de energia elétrica no país. Ainda assim, instabilidades associadas à seca e a queda da oferta de energia hidráulica trazem à tona a necessidade de pensarmos em políticas que busquem reduzir o consumo de energia elétrica e água nos domicílios.

Recentemente, tem crescido o interesse em intervenções comportamentais de baixo custo que visam mudar os hábitos de consumo por meio da educação ou persuasão. Uma dessas intervenções vem das empresas distribuidoras de energia, que enviam relatórios para os domicílios comparando seus consumos com os de seus vizinhos e dando dicas para a redução do uso de energia.

Avaliações de impacto aleatorizadas em quatro países concluíram que esses tipos de programas podem reduzir o uso de água e de energia em pequenas quantidades, pois ajudam as pessoas a aprenderem sobre os seus níveis reais de consumo. Além disso, esses programas têm o poder de reforçar normas sociais em torno da conservação, o que motiva algumas pessoas a reduzir o consumo, principalmente aquelas que mais consomem.

Com um custo para o fornecedor de cerca de US$ 1 por domicílio, esses programas podem ser uma maneira econômica de incentivar a redução do consumo, particularmente em contextos de alto uso de energia 2 3. No entanto, os pequenos efeitos observados nos estudos sugerem que esses tipos de política não são suficientes para obter reduções no consumo de água e de energia em larga escala.

1. Qual é o impacto de compartilhar informações sobre o consumo de água e de energia elétrica de outras pessoas?

Estudos nos Estados Unidos 2 3 4 5 6, na Alemanha 7 e na Índia 8 mostraram que as pessoas reduziram seu consumo de energia depois de receberem informações regulares sobre o quanto consumiam em comparação aos seus vizinhos. O mesmo foi observado em relação ao consumo de água na Costa Rica e nos estados da Califórnia e da Geórgia nos EUA 9 10 11. Esses resultados estão de acordo com diversas evidências sobre a eficácia de pequenas intervenções que incentivam comportamentos específicos sem limitar as escolhas dos indivíduos. Um estudo que quis isolar os efeitos de compartilhar apenas comparações sociais (dos vizinhos, por exemplo) ou apenas dicas para a redução do consumo concluiu que as comparações sociais eram muito mais eficazes 10.

2. Qual é a escala desses efeitos?

Embora consistentes, os impactos dessas políticas foram pequenos. No caso dos Estados Unidos, onde foram conduzidos estudos com mais de 110 distribuidoras de energia, o consumo caiu de 1% a 3% ao longo de 7 a 24 meses em que as empresas enviaram relatórios regulares de energia residencial 2 4 6 8. Em um estudo na Alemanha, o consumo de energia diminuiu 0,7% ao longo de um ano 7. Na Índia, os relatórios das distribuidoras reduziram o consumo de energia em 7% durante quatro meses 8. Os relatórios de consumo de água reduziram o consumo entre 3,7% e 5,6% na Costa Rica e nos estados da Califórnia e da Geórgia nos EUA ao longo de 2 a 12 meses 9 10 11. Embora eficazes, esses programas por si só não são suficientes para reduzir substancialmente as emissões de carbono ou para lidar com a escassez de água.

3. O que acontece quando os consumidores param de receber essas informações?

Um estudo dos Estados Unidos mostra que as famílias que haviam obtido informações das distribuidoras continuaram a economizar energia até dois anos depois de deixarem de receber os relatórios. O efeito dos relatórios caiu apenas de 10% a 20% ao ano depois que eles deixaram de ser enviados 2. Estudos futuros devem priorizar a medição do impacto a longo prazo desse tipo de programa.

4. O que está por trás dos impactos dessas informações?

Nos Estados Unidos, os programas de compartilhamento de informações ajudaram a mudar os hábitos de consumo das pessoas e aumentaram seus investimentos em tecnologias energeticamente eficientes. No geral, os relatórios enviados pelas distribuidoras serviram como um lembrete para a necessidade de economizar o consumo a curto prazo. As famílias reduziram substancialmente seu consumo de energia por uma a duas semanas depois de terem recebido um relatório, mas, em seguida, retomaram o consumo normal de energia. Isso sugere que as mudanças de comportamento, como ajustar termostatos, desligar luzes e desligar os aparelhos da tomada, só persistiram no curto prazo 2. Um estudo experimental da empresa OPower com 21 distribuidoras dos EUA sugeriu que de 35% a 55% da redução no consumo de energia de seus clientes resultou de investimentos em tecnologias energeticamente eficientes 3.

5. Quais estratégias podem ajudar a aumentar o impacto desses programas?

Pode ser mais eficaz direcionar o envio desse tipo de informação para as pessoas mais propensas a reduzirem seu consumo após recebê-las, ou a pessoas que queiram recebê-las. Cinco estudos revelaram que as famílias com maior consumo de energia e água economizaram mais como resultado de receberem informações das distribuidoras 4 8 9 10 12.

Os maiores consumidores podem ser menos propensos a reduzir o consumo em resposta a aumentos de preços, porque eles tendem a ser mais ricos. Por isso, as comparações sociais podem ser uma forma eficiente de incentivar a redução do consumo nesse grupo.

Esses programas também podem ser mais eficientes em lugares com maior consumo geral. Por exemplo, pesquisadores que testaram o uso de relatórios na Alemanha sugerem que as informações sobre consumo foram menos eficazes ali porque, em média, as famílias alemãs usam menos energia do que as famílias nos EUA 7.

Há também o risco de que os menores consumidores de energia possam aumentar o consumo depois de saberem que consomem menos do que seus vizinhos, como revelado por pesquisadores que testaram uma intervenção por email semelhante aos relatórios de energia residencial na Austrália 12.

Um estudo realizado em Nova York também avaliou quanto as pessoas valorizam esse tipo de programa. Segundo a pesquisa, mais de um terço das famílias participantes preferiam não receber informações desse tipo de jeito nenhum 13.

Estudos futuros devem levar em consideração todos os custos e benefícios dos programas incluindo os custos para o consumidor — ao avaliá-los como uma opção de política pública. Os fornecedores podem também poupar custos e tornar alguns consumidores mais satisfeitos se apenas enviarem relatórios às pessoas que os queiram e os valorizem 13 14.

BIBLIOGRAFIA

1. U.S. Energy Information Association. 2017. U.S. Energy-Related Carbon Dioxide Emissions, 2016. Washington, DC: U.S. Department of Energy.

2. Allcott, Hunt and Todd Rogers. 2014. "The Short-Run and Long-Run Effects of Behavioral Interventions: Experimental Evidence from Energy Conservation." American Economic Review 104 (10): 3003-3037.

3. Brandon, Alec, Paul J. Ferraro, John A. List, Robert D. Metcalfe, Michael K. Price, and Florian Rundhammer. “Do the Effects of Social Nudges Persist? Theory and Evidence from 38 Natural Field Experiments.” NBER Working Paper No. 23277, March 2017.

4. Allcott, Hunt. 2011. "Social Norms and Energy Conservation." Journal of Public Economics 95: 1082-1095.

5. Allcott, Hunt. 2015. "Site selection bias in program evaluation." The Quarterly Journal of Economics 130 (3): 1117- 1165.

6. Ayres, Ian, Sophie Raseman, and Alice Shih. 2013. "Evidence from Two Large Field Experiments that Peer Comparison Feedback Can Reduce Residential Energy Usage." The Journal of Law, Economics, and Organization 29 (5): 992-1022.

7. Andor, Mark Andreas, Andreas Gerster, Jörg Peters, and Christoph M. Schmidt. "Social Norms and Energy Conservation Beyond the US." Ruhr Economic Papers #714, October 2017.

8. Sudarshan, Anant. 2017. “Nudges in the Marketplace: The Response of Household Electricity Consumption to Information and Monetary Incentives.” Journal of Economic Behavior and Organization 134: 320-335.

9. Datta, Saugato, Juan José Miranda, Laura De Castro Zoratto, Oscar Calvo‐González, Matthew Darling, and Karina Lorenzana. "A Behavioral Approach to Water Conservation: Evidence from Costa Rica." World Bank Policy Research Working Paper, June 2015.

10. Ferraro, Paul J., and Michael K. Price. 2013. "Using Nonpecuniary Strategies to Influence Behavior: Evidence from a Large-Scale Field Experiment." Review of Economics and Statistics 95 (1): 64-73.

11. Jessoe, Katrina, Gabriel E. Lade, Frank Loge, and Edward Spang. "Spillovers from Behavioral Interventions: Experimental Evidence from Water and Energy Use." E2e Project Working Paper Series #33, December 2017.

12. Byrne, David P., Andrea La Nauze, and Leslie A. Martin. "Tell Me Something I Don’t Already Know: Informedness and External Validity in Information Programs." Review of Economics and Statistics, (forthcoming).

13. Allcott, Hunt, and Judd B. Kessler. “The welfare effects of nudges: A case study of energy use social comparisons.” NBER Working Paper #21671, October 2015.

14. Costa, Dora L., and Matthew E. Kahn. 2013. "Energy Conservation “Nudges” and Environmentalist Ideology: Evidence from a Randomized Residential Electricity Field Experiment." Journal of the European Economic Association 11 (3): 680-702.

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Adaptado de: Reducing energy and water use through information and social comparisons

Tradução: Ariadna Coelho

Adaptação: Isabela Salgado

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