Os 9 maiores fatores de risco à saúde no Brasil

FOTO: Nacho Doce/Reuters
Quais elementos mais ameaçam a saúde dos brasileiros? Enquanto alguns afetam a população em geral, muitos variam significativamente com o nível socioeconômico

Em um país continental como o Brasil, com uma população tão desigual, os fatores de risco que afetam as pessoas variam segundo o contexto socioeconômico, a geografia e a idade.

Contudo, doenças como a obesidade e problemas de saúde ligados ao uso de agrotóxicos vêm crescendo não só em alguns grupos, mas em toda a população brasileira. Além disso, mudanças no perfil demográfico causadas por fatores como o envelhecimento da população e a violência apresentam novos desafios para a saúde pública. Conheça os principais fatores de risco à saúde no país.

1. Quais são os efeitos a longo prazo do consumo de agrotóxicos?

A literatura mostra uma ligação clara entre uso de agrotóxicos e efeitos adversos de saúde, incluindo: distúrbios neurológicos, endócrinos, desfechos adversos da gravidez, ototoxicidade (potencial nocivo para o aparelho auditivo) e desordens psicológicas e psiquiátricas.

Cerca de um terço de todos os alimentos de consumo diário no país apresentam contaminação por agrotóxicos, e amostras desses produtos registram níveis de agentes químicos acima do permitido, de 27,9%. Não menos importante, o Brasil compra agrotóxicos que foram proibidos em outras partes do mundo justamente em virtude dos efeitos adversos.

Mas o que há de mais preocupante sobre o tema é a associação desse tipo de produto com o desenvolvimento de câncer. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que 80% dos casos de câncer sejam causados por exposição a agentes químicos. A maioria dos estudos sobre o assunto foca nas exposições ocupacionais, ou seja, na exposição de trabalhadores rurais a esse tipo de produto. Os efeitos de curto, médio e longo prazo dos agrotóxicos para câncer na população geral ainda são pouco conhecidos.

2. Qual o impacto da falta de saneamento básico para a transmissão de doenças?

Segundo o Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento, 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada, 50% da população não tem coleta de esgoto e apenas 45% do total de esgoto produzido no país é tratado. O Brasil também tem, hoje, 6% de sua população vivendo em áreas irregulares, onde a condição precária de saneamento é mais crítica. Essas áreas costumam estar em grandes regiões metropolitanas com mais de 1 milhão de habitantes 1.

A falta de saneamento básico, ou a existência de dispositivos precários de saneamento, como canais de esgoto a céu aberto, pode causar doenças gastrointestinais infecciosas, febre amarela, dengue, leptospirose, malária e esquistossomose. No ano de 2017, as hospitalizações causadas por essas doenças foram de 12,46 por 10 mil habitantes 2 e culminaram em 2.340 óbitos no país.

Desde 2010, o número de óbitos por condições precárias de saneamento no país não vê melhoria significativa, a despeito da redução do total de internações observada nesse tempo. Estima-se que a cada R$ 1 investido em saneamento, são economizados R$ 4 em gastos de saúde 2.

3. Como a poluição do ar agrava doenças respiratórias?

Existe uma relação bem estabelecida entre a poluição do ar e a saúde. Com a poluição, uma fração grande da população tende a apresentar sintomas como disfunção cognitiva e irritabilidade, enquanto uma fração menor desenvolve inflamações subclínicas (com os marcadores sanguíneos de inflamação aumentados, mas sem sintoma específico) e outra parte pode sofrer alterações funcionais graves, como a queda da função pulmonar e alterações no controle cardíaco, exercido pelo sistema nervoso.

Estudos mostram que a exposição à poluição é capaz de aumentar a taxa de mortalidade mesmo quando não ultrapassa os parâmetros de aceitabilidade atualmente vigentes. Além de todo o prejuízo para a saúde, a poluição prejudica a produtividade da agricultura. Segundo o estudo Air Pollution Health Report, o problema causa 5 milhões de mortes prematuras por ano no mundo 3.

4. Qual o impacto do envelhecimento para a saúde da população?

O envelhecimento da população é uma realidade no Brasil. Até 2100, estima-se que haja 72,4 milhões de idosos (60 anos ou mais) vivendo no país. Segundo o levantamento Sabe (Saúde, Bem-estar e Envelhecimento) da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) com a USP (Universidade de São Paulo), 53,8% dos idosos entrevistados consideram sua saúde atual regular ou ruim. Entre eles, existe alta carga de diabetes, hipertensão, osteoartrite e doenças crônicas com exigências de monitoramento. Além disso, vem crescendo o número de idosos no país que moram sozinhos, especialmente na faixa etária acima dos 80 anos, o que se relaciona com uma menor taxa de sobrevida 4.

Enquanto aspectos sociais ruins (condições precárias de moradia, falta de saneamento básico, alimentação não adequada) são fatores de risco para a população de idosos, a atividade física é um preditor do envelhecimento saudável. Entre os mais velhos, as mulheres tendem a recair mais nas instâncias de cuidado formal e institucional do que os homens, além de buscarem mais os serviços de saúde.

5. Qual o impacto da violência para os indicadores de saúde?

A partir da década de 80, violência e acidentes chegaram a ser a segunda causa geral de morbimortalidade no Brasil. Ela incide, sobretudo, sobre a população jovem. As mortes violentas estão em franca ascensão no país e os homicídios, somados aos acidentes de trânsito, respondem por dois terços de todas as mortes por causas externas.

O Brasil concentra 14% de todas as ocorrências de homicídio do mundo, embora concentre apenas 3% da população mundial. O investimento público direto em segurança pública se mostrou uma estratégia limitada no enfrentamento desse problema, sendo necessário pensar a questão como central também para a saúde pública. Some-se a isso o fato de que os custos da criminalidade recaem de modo desigual entre os municípios, resultando em maior impacto negativo sobre os mais pobres.

6. Como políticas de prevenção do uso de álcool e outras drogas afetam a saúde pública?

A política voltada para a prevenção do uso de álcool e outras drogas talvez tenha sido uma das que mais sofreram mudanças de direção recentemente. Antes direcionada pela estratégia de redução de danos, ela agora vem sendo substituída por programas de abstinência, comunidades terapêuticas, endurecimento de pena para uso e tráfico de drogas e ampliação da solicitação de internação compulsória.

Essas mudanças vão contra o acúmulo de evidências que se tem até o momento, que apontam para a necessidade de pensar o contexto de uso de drogas e não o uso em si.

Em 2017, o 3º Levantamento Nacional sobre Uso de Álcool e outras Drogas mostrou que 3,2% dos entrevistados haviam consumido drogas ilícitas nos últimos 12 meses, o que equivale a 4,9 milhões de pessoas. Além disso, 46 milhões haviam ingerido bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias e 2,3 milhões fecham critérios diagnósticos de dependência química dessa substância 5.

De acordo com a OMS, o álcool é a droga mais associada, direta e indiretamente, a danos à saúde e à morte. Contudo, na percepção da população brasileira, o crack é considerado a droga mais perigosa.

7. Como a dengue volta a afetar a saúde pública?

A dengue é a principal doença reemergente no mundo. Entre todas as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes, ela foi a que registrou o aumento mais substancial — de quase 600% — em 2019, em relação ao mesmo período de 2018. A alta se deve à circulação de um subtipo do vírus da dengue que era, até então, raro, para o qual não há imunidade populacional.

O controle do vetor da doença, o Aedes, deve ser prioritário, uma vez que essa é a etapa do ciclo da dengue passível de intervenção. Medidas de proteção individual, como telas, repelente e roupas longas, são ineficazes na prevenção e no controle epidemiológico da doença. Os cuidados devem se levar principalmente por duas vias: o combate direto ao mosquito ou a interrupção do seu ciclo de reprodução, reduzindo depósitos de água parada.

8. Qual o impacto da queda da vacinação?

O Brasil é tido como referência mundial em programas de imunização, que são fundamentais para o controle de doenças infecciosas. Desde o ano de 2013, no entanto, o país vem observando queda na cobertura vacinal. Daquele ano até 2017, a redução havia sido de 20% 6.

A queda da cobertura chama a atenção principalmente nos estratos mais rico e mais pobre. No primeiro, questões ideológicas e religiosas envolvem a rejeição à vacinação, enquanto,no segundo, a diminuição da imunização se dá por dificuldades de acesso a doses, exacerbadas pela defasagem entre a demanda por vacinas e a capacidade de produção interna.

9. Qual o tamanho do problema da obesidade no país?

A epidemia de obesidade verificada no mundo também é uma realidade no Brasil. A doença tem 18,9% de prevalência no país, principalmente na população mais pobre e menos escolarizada. Entre as mulheres, a incidência é maior que na população geral: 20,7% delas são obesas. No Brasil, 33 milhões de pessoas sofrem com agravos de saúde adicionais ligados à obesidade 7.

O Brasil vem passando por uma transição: enquanto a prevalência de desnutrição cai, a prevalência de sobrepeso e obesidade aumentam consideravelmente. Em 2019, um em cada quatro brasileiros adultos estava obeso. Isso se explica porque o aumento do acesso a alimentos veio desacompanhado de uma melhora do padrão de alimentação: passamos da desnutrição à malnutrição. Em levantamento de 2003, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que houve aumento do teor geral de gordura e gordura saturada na dieta brasileira, além de uma média elevadíssima de consumo de açúcar per capita 8.

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) mostra o contundente volume de evidências que confirmam o consumo de alimentos ultraprocessados como um fator preponderante no desenvolvimento da obesidade e de outros agravos de saúde 9. A agência também aponta que o padrão alimentar parece mais relevante para determinar a obesidade do que a inatividade física.

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