O que há de inédito no 6º relatório do IPCC sobre as causas e efeitos das mudanças climáticas

Lucas Jackson
Pedaços de gelo flutuam perto de geleira na Groenlândia
Que impactos o aquecimento global já causou? Com que velocidade e intensidade a mudança vai ocorrer? Quais preocupações o fenômeno traz para o Brasil? Conheça evidências recentes sobre o assunto

Em 1990, a primeira avaliação realizada pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) 1 disse ao mundo que deveríamos nos preocupar com a crescente probabilidade de emissões de GEE (gases de efeito estufa) causarem impactos no clima do planeta. Foi apenas em seu segundo relatório, em 1995, que o IPCC concluiu que essa mudança já estava em curso, com influência perceptível da atividade humana. Essa mensagem foi corroborada no terceiro ciclo de avaliação, concluído em 2001. Nos relatórios seguintes (2007 e 2013), avanços metodológicos importantes e mensagens mais precisas tornaram claro o impacto do ser humano sobre o clima. Em 2021, em seu sexto relatório, o que o IPCC tem a dizer sobre o estado atual e o futuro do clima global?

1. Afinal, o que está aquecendo o planeta?

A mensagem mais proeminente do relatório, que conta com a aprovação de 195 países-membros, é a de que é indiscutível ou inequívoco que atividades humanas estão aquecendo o planeta.

Nos últimos anos, a ciência que liga a ocorrência de eventos extremos ao aquecimento induzido pelo ser humano tornou-se mais sofisticada e robusta. Dados observacionais, reconstruções paleoclimáticas, modelos de alta resolução e novas técnicas analíticas tornaram possível estabelecer, definitivamente, um vínculo causal entre as emissões antrópicas de GEE e a anomalia observada na temperatura média global.

Desde o período convencionado pelo IPCC como pré-industrial (1850-1900) 2, o aumento da temperatura foi de cerca de 1,1°C. Calcula-se que uma pequena parte (menos de 10%) desse aquecimento se deva a causas naturais, como vulcões e variações da atividade solar. A maior parte do crescimento da temperatura se deve a um forçamento radiativo de origem humana. Conforme ilustra o gráfico, cada uma das últimas quatro décadas foi mais quente do que a anterior, com um distanciamento significativo do patamar de referência do século 19. A figura ilustra ainda a forte adesão dos dados observacionais (linha roxa) aos resultados de modelos computacionais que levam em consideração a influência antrópica (linha amarela). Ao desconsiderar as emissões de origem humana (linha verde), há uma incongruência flagrante entre a realidade e a modelagem.

gráfico de linhas mostra anomalia da temperatura médio global. eixo horizontal mostra (de 20 em 20) anos entre 1850 e 2010, enquanto eixo vertical mostra números entre -0,4 e 1,4, incrementando a cada 0,2.

2. Que impactos a mudança do clima já causou?

A mudança do clima vem impactando a atmosfera, os oceanos, a criosfera e a biosfera.

No que se refere à atmosfera, origem física do aquecimento global, os achados científicos são bastante contundentes: desde 1850, o crescimento das concentrações de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) ocorreu de maneira sem precedentes em comparação com os últimos 800 mil anos. Especificamente no caso do CO2, a concentração atmosférica atual (410 ppm) é a maior em ao menos 2 milhões de anos.

O aquecimento associado a essas altas concentrações provocou uma expansão térmica considerável dos oceanos, bem como o derretimento de geleiras e mantos de gelo (a influência humana é muito provavelmente a principal causa do recuo síncrono de quase todas as geleiras do mundo, o que não ocorre há pelo menos 2.000 anos). Isso provocou um aumento do nível médio do mar de 0,20 metro desde o início do século 20 até hoje. A velocidade dessa subida já é a maior em pelo menos três milênios e continua em tendência de alta. Além disso, por absorverem uma fração do excesso de carbono atmosférico, os oceanos vêm passando por um processo de acidificação, o que provoca desequilíbrios graves em ecossistemas marinhos, notadamente em recifes de corais.

gráfico de colunas mostra aumento médio do nível do mar. são exibidas três colunas diferentes, referentes aos períodos de 1901 a 1971; 1971 a 2006, e 2006 a 2018.

Além disso, também foi observada uma maior ocorrência de ciclones tropicais, os quais, inclusive, têm alterado seus picos de intensidade mais para o norte. A frequência e a intensidade de chuvas fortes aumentaram desde 1950 na maioria das regiões para as quais os dados observacionais são suficientes para a análise de tendências. Por outro lado, o aquecimento global tem contribuído também para o aumento de secas agrícolas, afetando a segurança alimentar, e ecológica, afetando a fauna e flora terrestre em algumas regiões. Verificou-se ainda que diversas ondas de calor nos últimos anos dificilmente teriam ocorrido sem a influência humana no sistema climático.

3. Ainda é possível evitar um aquecimento médio de 1,5ºC?

Desde o Acordo de Paris (2015), considera-se que o melhor cenário climático possível para o século 21 seja a limitação do aumento da temperatura média global a 1,5°C. Hoje, essa realização ainda é factível?

Considerando as incertezas relativas à sensibilidade climática e aos processos de feedback do planeta, é impossível dar uma resposta totalmente segura a essa questão. No entanto, considerando as melhores estimativas disponíveis atualmente (conforme mostra a figura abaixo), o aquecimento global de 1,5°C já é inevitável.

Mesmo em um cenário de forte redução de emissões a partir de 2021, o patamar de 1,5°C seria alcançado e ultrapassado ao longo das próximas décadas. Contudo, calcula-se que, caso esse declínio de emissões persista de forma consistente, a temperatura média do planeta possa retornar a um nível inferior a 1,5°C em longo prazo (essa extrapolação provisória do limite de 1,5°C recebe o nome “overshoot de temperatura). Assim, a redução imediata das emissões de GEE é crucial para evitar níveis ainda piores de mudança do clima.

A atual tendência nos levaria com mais rapidez à extrapolação do limite de 1,5°C. Além disso, haveria alta probabilidade de um aquecimento global de 2,0°C até o meio do século. A literatura científica aponta que essa diferença de meio grau representa uma enorme diferença em termos de impactos sobre a vida na Terra.

Em um cenário de forte aumento das emissões, o aquecimento do planeta atingiria níveis críticos no meio do século (melhor estimativa: 2,4°C) e, especialmente, no final do século (melhor estimativa: 4,4°C). Tal patamar de anomalia de temperatura seria catastrófico, com impactos de larga escala altamente imprevisíveis.

gráfico de colunas mostra anomalia da temperatura média global. colunas estão divididas em 3 grupos: forte redução de emissões, manutenção da tendência histórica e forte aumento de emissões. cada grupo conta com 3 colunas indicadas em cores diferentes, que se referem a estimativas de curto, médio e longo prazo.

4. A velocidade e a intensidade da mudança do clima vão se manter constantes?

Muito provavelmente não. Segundo os achados compilados pelo IPCC, existe uma tendência de intensificação e aceleração dos impactos sobre o sistema climático. Isso significa que cada 0,5°C adicional de temperatura provocará danos consideravelmente mais severos do que o 0,5°C anterior.

Em termos de variação geográfica, por exemplo, um aumento médio de temperatura pode significar números muito maiores para determinadas regiões. Por exemplo, em um mundo 1,5°C mais quente, as temperaturas no Ártico ficariam por volta de 3,5°C acima do período de referência. Em um mundo com aquecimento médio de 2,0°C, essa anomalia regional poderia superar o patamar de 5,0°C.

A mesma lógica se aplica a diversos outros tipos de impactos (por exemplo, frequência e intensidade de ondas de calor, probabilidade de eventos de precipitação intensa, variação da umidade do solo).

5. O quão bem conhecemos a sensibilidade climática do planeta?

A ECS (sensibilidade climática de equilíbrio) é um parâmetro central na ciência do clima. Basicamente, esse número reflete o quanto varia a temperatura média da Terra ao se adicionar um determinado fluxo de calor ao sistema climático. Em termos práticos, estimar a sensibilidade climática significa responder à seguinte pergunta: “Qual será a variação da temperatura média do planeta caso a concentração atmosférica de dióxido de carbono dobre em relação ao período de referência (1850-1900)?”

A resposta a essa questão é objeto de estudo há mais de duas décadas. No passado, o consenso a respeito do valor da sensibilidade climática era relativamente precário. No AR5 (2013), por exemplo, a faixa muito provável para o parâmetro ia de 1,0 até 6,0°C. Por muito tempo, essa incerteza deu margem a discursos de relativização da severidade do aquecimento global, baseados essencialmente na possibilidade de o valor real da ECS ser baixo.

Nos últimos anos, houve um esforço de aprimoramento dos métodos de estimação desse parâmetro. Assim, as evidências científicas compiladas pelo AR6 estreitaram significativamente a faixa altamente provável de sensibilidade climática, que hoje vai de 2,0 até 5,0°C (com a faixa mais provável indo de 2,5 a 4,0°C). Ou seja, atualmente, considera-se extremamente improvável que a sensibilidade climática do planeta seja baixa. Além disso, pela primeira vez, o relatório do IPCC traz uma “melhor estimativa” da ECS, no valor de 3°C.

gráfico mostra sensibilidade climática em duas colunas referentes ao AR5 e ao AR6

6. Que preocupações a intensificação das mudanças climáticas traz para o Brasil?

Um aspecto inédito do relatório é um foco maior nas informações regionais, o que representa um conhecimento mais integrado do que em relatórios anteriores. Seus capítulos sobre mudanças climáticas a nível regional não olham apenas para eventos extremos, mas também outros fatores relevantes para avaliações de risco climático no médio e longo prazo. Diferentes regiões não serão afetadas pelas mudanças climáticas da mesma forma: em várias regiões do continente africano e asiático, por exemplo, há maior probabilidade de chuvas intensas que podem levar, inclusive, a inundações, enquanto isso na Austrália, Nova Zelândia e América do Norte, climas extremamente secos e queimadas se tornaram cada vez mais frequentes.

Berço da Amazônia, o continente sul-americano apresenta alto risco de seca no próximo século e a floresta amazônica pode sofrer com elevados índices de queimadas, independentemente do aquecimento futuro. Uma das possíveis causas são alterações nas correntes marítimas, o que leva a um efeito dominó de eventos negativos sobre o Brasil. O relatório observa que as mudanças futuras nas chuvas irão variar em todo o continente, em especial, no Brasil, com a possível redução da ocorrência de chuvas mais ao sul, originárias da Amazônia (rios voadores), o que deve reduzir a produtividade agropecuária, principal atividade econômica do país. Além disso, a falta de chuva pode afetar o setor energético, tendo em vista que mais de 60% da geração elétrica no Brasil vem de usinas hidrelétricas, as quais estão, atualmente, com níveis muito baixos nos reservatórios. Tais conclusões indicam, mais do que nunca, a necessidade de combater desmatamentos e queimadas na Amazônia, além da necessidade de diversificação e expansão da matriz elétrica nacional, não via termelétricas a carvão, mas sim por usinas eólicas e solares.

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