9 perguntas que a ciência já respondeu sobre o uso de máscaras como proteção contra o coronavírus

FOTO: Unsplash/Ilustração: Sariana Fernández
Qual modelo oferece maior nível de proteção? Por quanto tempo elas podem ser reutilizadas? Já fui vacinado, posso parar de usar? Veja as respostas para dúvidas frequentes

As máscaras, antes restritas aos ambientes hospitalares e outras unidades de saúde, se tornaram objeto presente na vida de todas as pessoas, no Brasil e no mundo. Com o uso em grande escala, surgem também dúvidas sobre como usá-las corretamente. Confira as respostas que a ciência já tem com relação ao uso adequado e seguro de máscaras e equipamentos de proteção correlatos.

1. Que tipo de máscara oferece um maior nível de proteção contra o vírus? 

Um estudo publicado na revista Physics of Fluids, do Instituto Americano de Física, testou a efetividade de tipos de máscaras diferentes e outras medidas (como usar cotovelo para cobrir nariz e boca ao espirrar ou tossir, dentre outras) na redução de dispersão de partículas de saliva no ar. Os achados foram contundentes: qualquer máscara é melhor que nenhuma máscara e existe um gradiente de eficiência a depender das especificações do modelo. Por exemplo, o tipo N95 é o mais eficiente em impedir a propagação horizontal de partículas de saliva no ambiente, seguida do modelo cirúrgico e de pano, nesta ordem.

Com relação à capacidade de filtração, as máscaras N95 são capazes de filtrar cerca de 95% das partículas de até 0,3 micrômetros suspensas no ar e, mesmo com problemas de ajuste ao rosto, podem filtrar algo próximo de 90% de tais partículas, sendo ideais para ambientes fechados ou mal ventilados, onde existe grande risco de contágio. As máscaras cirúrgicas possuem efetividade um pouco menor, sobretudo (mas não somente) pelo seu ajuste mais frouxo ao rosto, sendo indicada para ambientes de baixo risco, como ao ar livre. As máscaras de pano têm efetividade variável, a depender do tecido e de seu ajuste ao rosto.

2. Utilizar duas máscaras sobrepostas aumenta o grau de proteção?

Em geral, sim. Um material publicado pelo CDC (Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos), recomenda o uso de mais de uma máscara para aumentar o grau de proteção. Quanto mais camadas de tecido, maior é a filtração de partículas suspensas no ar. Além disso, o uso de mais de uma máscara pode melhorar o ajuste ao rosto, evitando brechas que permitam a entrada ou escape de partículas de saliva. Um estudo demonstrou, por exemplo, que uma máscara cirúrgica e uma máscara de pano isoladas podem filtrar, respectivamente, 56,1% e 51,4% das partículas liberadas ao tossir, espirrar ou falar, enquanto o uso de uma máscara de pano sobreposta a uma cirúrgica aumenta a filtração para cerca de 85,4%.

3. Onde descartar máscaras usadas? 

As recomendações diferem para máscaras usadas por profissionais e trabalhadores da saúde em seus postos de trabalho e para a população em geral. Este material, da Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental), sumariza as instruções de descarte desses materiais, tais como:

  • Para profissionais de saúde, o ideal é realizar o descarte em sacos plásticos na cor vermelha (indicativa da classificação de risco do material), preferencialmente sacos duplos, para maior segurança. Esses sacos não devem ser cheios além de ⅔ de sua capacidade e devem ser devidamente lacrados ou fechados com nó duplo para o descarte final. Em situação de excepcionalidade, o descarte pode ser feito no saco plástico branco leitoso, com a indicação de resíduo infectante;
  • Para a população em geral, os objetos infectados devem ser descartados em saco descartável e resistente, em até ⅔ de sua capacidade, lacrados ou com nó para fechamento. Em seguida, esses resíduos devem ser colocados dentro de outro saco, também descartável e resistente – e identificados, para evitar problemas para os profissionais de coleta desses resíduos. Desse modo, os materiais infectados ficam duplamente protegidos. Em seguida, o material deve seguir o curso normal da coleta de resíduos urbanos.

É imprescindível dizer que o potencial de poluição das máscaras é enorme e se soma à uma crise global já existente de resíduos plásticos. Elas não devem ser jogadas no mar, rios, lagos e nem tampouco nas ruas. Além de ser uma questão de saúde pública, dada a possibilidade de contaminação e contágio pela covid-19, é preciso lembrar do impacto ambiental do aumento da produção de resíduos nesse momento de pandemia.

4. Por quanto tempo máscaras podem ser reutilizadas?

As máscaras do tipo N95, mais recomendadas para ambientes fechados ou mal ventilados e de maior risco de contágio, podem ser usadas mais de uma vez. Um artigo científico resumiu as estratégias cientificamente validadas de conservação e reutilização das mesmas, bem como aquilo que não deve ser feito:

  • As máscaras podem ser usadas novamente sem adoção de processos específicos de higienização caso sejam reutilizadas com intervalo de três a quatro dias. A isso se chama rodízio ou rotação das máscaras. Ao utilizá-la, guarde em um recipiente hermético pelo período indicado e será seguro seu reuso;
  • As máscaras N95 não devem ser lavadas com água e sabão, nem limpas com álcool. A perda de eficácia de filtração pode ultrapassar os 40% caso sejam usados esses materiais na sua higienização;
  • As máscaras N95 podem ser fervidas e aquecidas. Para fervura, recomenda-se fazê-lo pelo tempo de cinco minutos, mantendo as tiras elásticas sem contato com a água fervente. Em complemento, as máscaras devem ser secas com ar – utilizando, por exemplo, um secador de cabelo. É importante sempre avaliar o ajuste ao rosto após esses processos. Em caso de folgas ou mau ajuste, a máscara deve ser descartada e não reutilizada;
  • Para aquecimento das máscaras, recomenda-se a temperatura de 70ºC por 60 minutos. Pode ser usado, por exemplo, um forno. Neste caso, deve-se tomar cuidado para que a máscara se mantenha a, pelo menos, seis polegadas (ou 15,2 cm) da fonte de calor - caso contrário, existe risco de dano severo ao material da máscara e, consequentemente, sua eficácia.

Para as máscaras cirúrgicas e até mesmo as de tecido, existe uma necessidade de maiores estudos, realizados com mais rigor e padronização, conforme identificou uma revisão de literatura. As recomendações são diferentes mundo afora e não se pode afirmar o quanto de efetividade se perde com o reuso ou higienização das mesmas. Contudo, é importante ressaltar que essas máscaras devem ser trocadas com maior frequência, especialmente se estiverem úmidas. Recomenda-se que, ao sair de casa, se leve mais de uma máscara, para trocar ao longo do tempo e garantir, assim, menor risco de contaminação.

5. Já fui vacinado, posso parar de usar máscara? 

Não. Embora alguns países com a vacinação em ritmo acelerado tenham dispensado o uso de máscaras, o fato é que os diferentes imunizantes, a depender do seu grau de eficácia, diminuem as chances de se desenvolver a forma grave da doença, mas não impedem a contaminação e transmissão do vírus. De tal maneira, é importante não somente manter o uso de máscaras, mas o distanciamento social e outros métodos de prevenção como lavar as mãos com frequência.

6. O uso de proteção facial (face shield) substitui a máscara? 

Não. O debate sobre uso de face shields em substituição às máscaras se acirrou com a chegada do verão no hemisfério norte. Contudo, a evidência disponível até o momento mostra que esses artefatos não são suficientemente efetivos para serem usados isoladamente.

Embora sejam eficazes para evitar contato direto de gotículas de saliva e secreções nasais sobretudo com os olhos, eles não impedem a inalação dessas partículas em suspensão no ar, uma vez que não tem capacidade filtrante e não são de uso ajustado ao rosto, cobrindo totalmente boca e nariz. Ademais, os face shields também não impedem, de modo robusto, a dispersão das partículas emitidas por quem usa. Os face shields são, por outro lado, excelentes para uso complementar às máscaras.

7. Devo ficar sem máscara ao ar livre?

Estudos apontam que, desde que se mantenha a distância mínima entre pessoas recomendada, o risco de contrair coronavírus é menor ao ar livre do que o encontrado em ambientes fechados. Isso porque o vírus se dissipa quando exposto à luz solar e o vento ajuda a dispersar as gotículas de saliva responsáveis por transportar o vírus quando pessoas infectadas falam, tossem ou espirram.

Por outro lado, é preocupante a relativização no cálculo de risco ao interpretar essa evidência, tomando por exemplo as escolhas entre se permitir fazer passeios ao ar livre ou frequentar áreas externas de bares e restaurantes. Mesmo em ambientes abertos, desrespeitar o distanciamento pode levar a contaminação. Além disso, o vírus pode estar presente na superfície de objetos inevitavelmente compartilháveis tais como assentos, fechaduras e lixeiras, e neles sobrevivem por horas.

Nos EUA, as diretrizes do CDC (Centro de Controle e Prevenção) sugerem que apenas pessoas vacinadas estejam dispensadas do uso de máscaras quando ao ar livre. Mas ainda existe pouco consenso sobre isso entre as autoridades sanitárias de todo o mundo, uma vez que mesmo indivíduos vacinados podem se infectar e transmitir o vírus.

8. Crianças devem usar máscara? 

Não há um consenso entre as autoridades públicas ao redor do mundo relacionado ao uso de máscaras por crianças. No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda o uso de máscaras para crianças acima de 2 anos de idade, devido ao risco de asfixia, estrangulamento e morte por engasgo em crianças de idade inferior.

Já a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância, levando em conta a capacidade de usar uma máscara de maneira apropriada e com o mínimo de assistência, consideram que crianças até 5 anos de idade não devem ser obrigadas a usar máscaras e apenas as crianças acima de 12 anos devem usar máscaras da mesma forma que os adultos. A recomendação diz ainda que essa é uma decisão que deve ser baseada, entre outros fatores, nas condições de acesso a máscaras, bem como lavagem e substituição destas em determinados ambientes (como escolas e creches), e configurações e interações que a criança tem com outras pessoas que correm alto risco de desenvolver doenças graves, como idosos e pessoas imunodeprimidas.

9. Usar máscara pode resultar em problemas respiratórios a longo prazo?

Esse é um questionamento que surgiu a partir de publicações em redes sociais que afirmavam que o uso de máscaras pode causar hipoxemia, situação que ocorre quando há insuficiência de oxigênio no sangue, resultando em sintomas como dor de cabeça e sonolência, chegando a comprometer outras funções corporais.

Segundo a checagem feita pela Agência aos Fatos, essa é uma informação falsa, uma vez que a hipóxia é resultante de doenças como anemia, pneumonia e insuficiência cardíaca, não do uso de máscaras. Em complemento, um estudo realizado por pesquisadores ligados à Universidade de Miami, ao analisar se ocorriam anormalidades ligadas à troca de gases em pessoas com e sem disfunção pulmonar em uso de máscaras cirúrgicas, identificou que o uso de máscaras não afetou de forma relevante as trocas gasosas, mesmo nos pacientes portadores de disfunção pulmonar grave.

Veja também

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeGEMAADRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUTMacroAmb