8 perguntas que a ciência respondeu sobre o desaparecimento das abelhas

FOTO: Arquivo do Laboratório de Ecologia e Conservação de Abelhas (UNESP/Rio Claro).
Insetos são considerados chave nos serviços ecossistêmicos de polinização. Entenda qual o seu papel e como as ações antrópicas ameaçam sua conservação

Apesar de o reconhecimento sobre a importância das abelhas para a manutenção da biodiversidade e a produção de alimentos ser antigo, a partir dos anos 1990 a questão ganhou destaque devido ao aumento na divulgação de dados sobre o declínio de colmeias 1 e com os casos da chamada desordem do colapso das colmeias (termo conhecido pela sigla CCD, do inglês colony collapse disorder) 2 publicados a partir de 2006.

Muitos estudos vêm apontando que o problema das abelhas vai muito além da espécie Apis mellifera (representada pelo híbrido africanizado aqui no Brasil), impactando as abelhas sociais sem ferrão e também as abelhas solitárias. O Brasil vem registrando alarmantes casos de mortalidade de abelhas nos últimos 10 anos, que vêm sendo apontados como CCD. Porém, a situação é complexa e envolve uma série de fatores, que precisam ser analisados de forma conjunta.

1. As abelhas estão realmente desaparecendo?

Desde o início dos registros dos casos de declínios das colmeias, mas principalmente após 2006, muitos países e regiões criaram sistemas de registro e monitoramento das colmeias de Apis mellifera, como Estados Unidos, Alemanha e União Europeia. Além disso, organizações não governamentais têm se dedicado ao tema dos polinizadores com o objetivo de monitorar seu declínio e promover ações de conservação, como Pollinator Partnership, Coloss, Promote Pollinators, entre outras.

Infelizmente, o Brasil não tem um sistema oficial e sistemático de registro e monitoramento de colmeias de Apis mellifera ou de abelhas sem ferrão. Algumas organizações não governamentais, como Colmeia Viva e Bee or not to Bee, fazem o registro dos casos de mortalidade das espécies, porém de forma voluntária, o que não representa a real situação das colmeias no Brasil.

Todos, no entanto, vêm mostrando uma diminuição no número de abelhas manejadas. O declínio está relacionado a vários fatores, que incluem a chamada desordem do colapso das colmeias ou colônias, mas também outros. Não existem sistemas de monitoramento de longo prazo e de grandes extensões territoriais (como um país inteiro, por exemplo) sobre o desaparecimento e mortalidade de abelhas em ambientes naturais.

2. O que é a desordem do colapso das colmeias ou colônias?

A desordem do colapso das colmeias ou colônias é um fenômeno multifatorial, descrito oficialmente pela primeira vez em 2007 nos Estados Unidos, a partir de relatos de perda de colmeias por apicultores em 2006.

A desordem tem por principal característica a morte de uma colmeia. Ela acontece quando há, simultaneamente, a abelha-rainha em postura (ou seja, ativa, pondo ovos normalmente), estoques de alimentos imaturos nos favos e ausência das operárias forrageiras, mas sem sinais de abelhas mortas no entorno da colmeia (daí vem a associação a “desaparecimento das abelhas”).

As principais causas apontadas para o fenômeno são a existência de patógenos nas colmeias, manejo inadequado, diminuição das áreas de mata nativa, padronização da paisagem no entorno das colmeias por extensas áreas de monocultura, desnutrição e o uso de agrotóxicos. É pouco provável, porém, que um único fator seja o responsável pelo colapso de uma colmeia. Atualmente ele é tratado como uma síndrome: o resultado da interação de vários desses fatores.

3. Existe desordem do colapso das colmeias no Brasil?

Os registros de desordem do colapso das colmeias no Brasil são muito escassos, o que não significa que o fenômeno não aconteça. Por outro lado, o país apresenta outras situações que estão bem registradas e que têm tido grande impacto sobre as abelhas: o enfraquecimento das colmeias e a mortalidade massiva de abelhas 3.

O enfraquecimento das colmeias está relacionado à baixa nutrição das abelhas, principalmente em áreas de monocultura, que restringem sua alimentação a um único tipo de pólen e néctar. Outro fator é a exposição das abelhas a doses subletais de agrotóxicos de forma crônica, o que afeta seu sistema imune e as torna mais suscetíveis a doenças. A mortalidade em massa tem sido bastante registrada no Brasil, principalmente devido à exposição direta aos agrotóxicos.

4. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo?

Depende da abordagem utilizada para avaliar os números. Os dados disponíveis na base de dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) trazem três diferentes abordagens: números absolutos, números por área cultivada e números por volume de produção agrícola.

Se levarmos em conta o total gasto com agrotóxicos no mundo em 2017, por exemplo, o Brasil encontra-se em primeiro lugar. Mas, se avaliarmos o total gasto em agrotóxicos por hectare plantado, o Brasil fica em 7º lugar. Se for considerado o volume de agrotóxicos gasto em relação ao montante produzido, a classificação brasileira cai para 13º.

De qualquer forma, a diminuição no uso de agrotóxicos e a busca por uma agricultura mais sustentável e amigável aos polinizadores e à conservação da biodiversidade é de extrema importância. Métodos de controle de pragas menos tóxicos, o retorno ao chamado manejo integrado de pragas e um novo modelo de agricultura e de ocupação da terra devem estar no foco das discussões para que possamos alcançar os ODS (objetivos do desenvolvimento sustentável) das Nações Unidas.

5. Os agrotóxicos são seguros para as abelhas?

Os agrotóxicos são substâncias químicas não naturais ao ambiente desenvolvidas com o objetivo de controlar a ocorrência e o desenvolvimento de outros seres vivos, como microrganismos, plantas, e insetos. Como todo produto químico, eles têm um grau inerente de toxicidade, que pode variar de uma molécula para outra.

Se considerarmos os inseticidas, fica claro que as abelhas, sendo insetos, podem ser afetadas por agrotóxicos de forma direta — quando elas se encontram na cultura no momento da aplicação desses produtos – ou de forma indireta, pelo consumo de pólen e néctar contendo resíduos desses químicos.

Atualmente, estudos têm demonstrado que herbicidas 4 e fungicidas 5 também podem afetar a longevidade das abelhas, sendo responsáveis por vários efeitos subletais que podem comprometer sua sobrevivência e os serviços ecossistêmicos de polinização.

Apesar de esses insetos não serem o organismo-alvo dessas substâncias, a exposição a elas pode alterar processos metabólicos que levam ao comprometimento de sua alimentação, excreção e imunocompetência, tornando-os mais suscetíveis aos efeitos de outros agrotóxicos e a doenças. Por isso a avaliação desses produtos por um órgão ambiental é tão importante: ela permite considerar o nível de risco a que os organismos que não são alvo desses químicos serão submetidos.

6. Como é o processo de registro e liberação dos agrotóxicos no Brasil?

Atualmente, o registro de agrotóxicos no Brasil é regido pela lei n. 7.802, de 1989. O registro é avaliado em três âmbitos:

1. ambiental, de responsabilidade do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis);

2. saúde humana, de responsabilidade da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); e

3. agrícola, de responsabilidade do Mapa (Ministério da Agricultura e Abastecimento).

Para que um produto seja registrado e liberado, é necessária a apresentação de uma série de dados exigidos por cada um desses órgãos.

Desde 2017, o Ibama realiza a avaliação de risco de novos agrotóxicos para abelhas Apis mellifera, que leva em consideração o chamado PPA (potencial de periculosidade ambiental) e a ARA (avaliação de risco ambiental). A ARA permite uma avaliação mais abrangente, que leva em consideração, além da toxicidade do produto, o contexto em que as abelhas podem estar expostas a ele, em uma abordagem mais realística da situação no campo 6.

7. Por que a análise de risco para abelhas utiliza uma espécie que não é brasileira, a Apis mellifera?

A avaliação dos diversos dados que são requeridos para a avaliação de risco do uso de novos agrotóxicos é bastante complexa e precisa, assim ela pode ter uma base metodológica confiável e garantir idoneidade e reprodutibilidade das análises.

Apesar de o país ter uma enorme e importante biodiversidade de abelhas, não existem métodos padronizados e reconhecidos pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia) para a realização de testes de agrotóxicos com abelhas sem ferrão ou solitárias brasileiras.

Os métodos utilizados pelo Ibama são realizados com a espécie Apis mellifera, considerada uma espécie-modelo. Os métodos da avaliação foram desenvolvidos e padronizados por diferentes países e reconhecidos pela OCDE (Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Econômica), órgão com o qual o Brasil tem acordo.

Para o desenvolvimento e a padronização de testes com abelhas brasileiras, o primeiro passo é responder às lacunas de conhecimento sobre as espécies nativas do Brasil 7.

8. É possível produção agrícola com conservação da biodiversidade de polinizadores?

Para garantirmos a segurança alimentar das futuras gerações, a resposta tem que ser: sim! Nós temos uma população crescente, que exerce forte pressão sobre os sistemas de produção. Ao mesmo tempo, o declínio da biodiversidade impacta a produção por meio da perda dos serviços ecossistêmicos.

Muitos movimentos têm reunido tomadores de decisão, cientistas, setor privado, sociedade civil e terceiro setor para discutir e propor ações que nos permitam produzir bem, garantindo conservação da biodiversidade e dignidade para todos.

Os relatórios da IPBES e da BPBES (plataformas internacional e brasileira sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) trazem uma coletânea de dados e propostas que podem dar suporte às ações necessárias para efetivar as relações de complementariedade entre agricultura e polinizadores.

E não precisamos apenas de técnicas novas e modernas para transformarmos a agricultura em uma prática mais sustentável. A utilização de práticas amigáveis simples na agricultura pode rapidamente aumentar o número de polinizadores em uma área de cultivo 8.

Bibliografia

1. Buchmann, Stephen L., and Gary Paul Nabhan. "The pollination crisis: the plight of the honey bee and the decline of other pollinators imperils future harvests." The Sciences, vol. 36, no. 4, 1996, p. 22+. Gale Academic OneFile. Accessed 9 Mar. 2021.

2. Underwood, R. M., & Vanengelsdorp, D. (2007). Colony Collapse Disorder: Have We Seen This Before?. Disponível aqui.

3. PIRES, Carmen Sílvia Soares et al. Enfraquecimento e perda de colônias de abelhas no Brasil: há casos de CCD?. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 51, n. 5, p. 422-442, 2016. Disponível aqui.

4. BATTISTI, Lucas et al. Is glyphosate toxic to bees? A meta-analytical review. Science of The Total Environment, v. 767, p. 145397, 2021. Disponível aqui.

5. BELSKY, Joseph; JOSHI, Neelendra K. Effects of fungicide and herbicide chemical exposure on Apis and non-Apis bees in agricultural landscape. Frontiers in Environmental Science, 2020. Disponível aqui.

6. IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis. 2017. MANUAL DE AVALIAÇÃO DE RISCO AMBIENTAL DE AGROTÓXICOS PARA ABELHAS. Disponível aqui.

7. CHAM, Karina O. et al. Pesticide exposure assessment paradigm for stingless bees. Environmental entomology, v. 48, n. 1, p. 36-48, 2019. Disponível aqui.

8. O’BRIEN, Colton; ARATHI, H. S. If You Build It, They Will Come—Agroecosystem-Based Management Practices Support Pollinators. Annals of the Entomological Society of America, 2020. Disponível aqui.

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