7 pontos sobre a Mata Atlântica e a mudança climática

Flávio Jota de Paula
Área de Mata Atlântica no pico do Jaraguá, no Parque Estadual do Jaraguá, em São Paulo
Floresta tropical é a segunda maior do país, atrás da Amazônia, e está fortemente relacionada com a economia e a história brasileira. Ao mesmo tempo, bioma está ameaçado pela fragmentação e por alterações do clima. Conheça evidências sobre o tema

O Brasil tem duas grandes áreas de floresta tropical: a Amazônia, a maior delas, e a Mata Atlântica, que antes de 1850 cobria a maior parte dos 17 estados da costa brasileira, ocupando 1,3 milhão de km². A Mata Atlântica brasileira é uma das florestas tropicais mais ameaçadas, e atualmente abrange não mais que 28% de sua área original.

Devido à sua localização, ocupando uma vasta gama de latitude (entre 2º e 33º Sul) e altitude, a Mata Atlântica é um mosaico de vegetações que diferem quanto a sua estrutura, composição florística e, possivelmente, quanto a seu funcionamento.

A história do Brasil e sua economia sempre estiveram fortemente relacionadas com a Mata Atlântica. Atualmente 70% da população brasileira vive no bioma, e ele é responsável por 80% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional 1. Tanto as atividades econômicas como a população em geral dependem direta ou indiretamente dos recursos naturais que são produzidos ou regulados pela Mata Atlântica. A floresta, porém, está fortemente ameaçada pela fragmentação e, mais recentemente, também pela mudança do clima.

1. Mata Atlântica: uma ou várias florestas?

De norte a sul e de leste a oeste, as florestas da Mata Atlântica experimentam uma variedade de combinações de climas, altitudes e solos. Uma floresta situada no Recôncavo baiano, por exemplo, enfrenta condições ambientais distintas de uma floresta localizada no topo das serras catarinenses.

O que então aparenta ser uma imensa e única floresta contínua se revela um mosaico de florestas que coexistem lado a lado e têm espécies adaptadas às peculiaridades locais. Por esse motivo, justifica-se que os projetos de compensação de danos ambientais — por desmatamento, por exemplo — ocorram dentro da mesma microbacia hidrográfica onde os danos foram causados, ou o mais próximo possível, a fim de se garantir que seja recuperada uma floresta com composição de espécies similares.

Tamanha diversidade de habitats traz desafios para a conservação da biodiversidade. Atualmente, boa parte dos remanescentes de Mata Atlântica e as unidades de conservação que nela se encontram se concentram nas porções montanhosas da região Sudeste — estando as demais localidades sub-representadas. São urgentes planos de conservação e restauração que priorizem as diferentes florestas, especialmente aquelas localizadas na região Nordeste e no interior do país.

2. Como solos tão pobres conseguem manter florestas tão exuberantes?

Boa parte das florestas tropicais ocorre sobre solos antigos e pobres em nutrientes. Nos trópicos, as altas temperaturas e volumes de chuva sucedidos ao longo de milhares de anos aceleraram o processo de intemperização (alteração física e química das rochas e seus minerais) dos solos e o carreamento dos nutrientes para os cursos d’água em um processo chamado lixiviação.

Na Mata Atlântica não é diferente. Os solos da Serra do Mar, no litoral de São Paulo, por exemplo, são ácidos (com pH 3,6), com poucos nutrientes e ricos em alumínio, um elemento químico tóxico quando em altas concentrações.

Para minimizar as perdas de nutrientes pela lixiviação, as florestas tropicais desenvolveram estratégias bastante interessantes. Nesses ecossistemas, praticamente todos os nutrientes ficam estocados nos seres vivos e não no solo. Uma floresta madura, por exemplo, pode armazenar em suas árvores até 1,6 tonelada de nitrogênio por hectare.

Associado a esse estoque, há um sistema de ciclagem altamente eficiente. Assim que um organismo morre, rapidamente se iniciam os processos de decomposição, que são executados por invertebrados, fungos e microorganismos e acelerados pelas altas temperaturas e umidade dos ambientes tropicais. Estima-se que, em uma floresta madura, até 10 toneladas de folhas mortas sejam produzidas por hectare por ano.

Os nutrientes disponibilizados pela decomposição são prontamente interceptados e reabsorvidos por uma profusa rede de raízes finas que dominam os primeiros centímetros da superfície do solo. Nas florestas montanas, estima-se que haja em torno de 6 toneladas de raízes finas nos primeiros 10 cm de profundidade do solo por hectare.

Confirmando a eficiência da ciclagem de nutrientes, observa-se que apenas 500 gramas de nitrogênio por hectare de floresta são perdidos anualmente para os rios. Quando a floresta é derrubada, os nutrientes que estavam retidos nos seres vivos são perdidos, restando apenas um solo pobre de baixa produtividade.

3. Quem estoca mais carbono: a Amazônia ou a Mata Atlântica?

Se levarmos em conta apenas sua extensão, a Amazônia, com seus 5,1 milhões de km2, estoca mais carbono que a Mata Atlântica — que originalmente cobria não mais que 1,3 milhão de km2.

Assim como a Mata Atlântica, a Amazônia é constituída por um mosaico de diferentes florestas adaptadas aos vários tipos de solos, climas e regimes de inundação encontrados na região. Enquanto as florestas na Amazônia Central armazenam até 200 toneladas de carbono por hectare, as florestas das bordas ocidental e sul armazenam menos da metade desse valor. Nesses ambientes, as árvores consideradas grandes, com mais de 70 cm de diâmetro, representam apenas 1,5% do número total de árvores, mas acumulam 25% do carbono total.

Na Mata Atlântica, as árvores são, em média, mais baixas que as da Amazônia, com altura média entre 20 e 25 metros, e árvores gigantes tendem a ser raras. As florestas de Mata Atlântica acumulam em torno de 100 a 120 toneladas de carbono por hectare, embora valores de até 170 toneladas por hectare tenham sido registrados nos estados do Espírito Santo e São Paulo. Entretanto, vale ressaltar que boa parte dos atuais remanescentes de Mata Atlântica já sofreu algum tipo de exploração humana, e hoje eles estocam menos carbono do que as florestas originais.

4. O aquecimento global pode afetar a capacidade da Mata Atlântica de estocar carbono?

As florestas são sistemas dinâmicos, e seu funcionamento é controlado direta e indiretamente pelo clima. A temperatura e a disponibilidade de água governam as taxas de muitas reações biológicas e químicas que controlam a produção de matéria orgânica pelas plantas, assim como sua decomposição.

Estudos mais recentes apontam que o aumento da temperatura e das concentrações de CO2 (gás carbônico) na atmosfera aumentam as taxas de crescimento e mortalidade das árvores. Ou seja, os ciclos de vida desses organismos têm se tornado mais curtos e acelerados. Na Mata Atlântica ainda não sabemos como as florestas responderão a essas mudanças, mas podemos fazer predições comparando habitats que enfrentam condições climáticas naturalmente diferentes.

Na Serra do Mar, no litoral de São Paulo, por exemplo, as florestas que ocorrem em baixas altitudes, próximas ao mar, onde as temperaturas são mais altas, estocam nas árvores cerca de 100 toneladas de carbono por hectare. Já em maiores altitudes, onde a temperatura média anual chega a ser até 7ºC mais baixa, as florestas estocam pelo menos 35% a mais, chegando a 140 toneladas de carbono por hectare.

Em um cenário de aumento de temperatura, espera-se que as florestas nos topos de morros passem a funcionar como as florestas das regiões mais baixas, o que significa que elas diminuirão sua capacidade de retenção de carbono e, consequentemente, emitirão para a atmosfera de parte do carbono que está estocado.

5. Áreas de floresta são menos quentes? Mesmo se forem pequenas?

O clima e a vegetação estão intimamente ligados. Essa dependência é tão forte que, nas classificações climáticas, alguns dos limites entre os diferentes tipos de clima são definidos a partir de limites da vegetação, o que nos leva a supor que mudanças em um podem levar a mudanças em outro.

Existem fortes evidências de que, em áreas de floresta contínua, como é o caso da Amazônia, a retirada da floresta tropical para implantação de pastagens, por exemplo, leva ao aquecimento da superfície da terra em escalas locais e regionais.

A Mata Atlântica encontra-se fortemente fragmentada. Mesmo com a queda nas taxas de desmatamento observada na última década, a fragmentação continua ameaçando a conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos prestados pela floresta, como os ligados à regulação do clima.

Mas trabalhos recentes mostram que, mesmo fragmentada, a Mata Atlântica pode desempenhar um importante papel regulatório na atenuação da temperatura. Se um fragmento de Mata Atlântica de um hectare tiver 25% de sua área desmatada, a temperatura local pode aumentar 1ºC; se for totalmente desmatado, o impacto na temperatura máxima local pode chegar a 4ºC.

A conservação e a restauração da Mata Atlântica podem ter efeitos mitigadores locais sobre o aquecimento global, mostrando-se uma oportunidade única.

6. O que são epífitas? E qual a sua função na floresta?

Epífitas são plantas que crescem sobre outras sem causar maiores prejuízos à planta que lhes dá suporte. Diferentemente do caso das espécies parasitas, suas raízes não penetram a casca da planta suporte e absorvem os nutrientes exclusivamente do ambiente externo. Orquídeas, bromélias, antúrios e samambaias são os exemplos mais recorrentes de epífitas. Muitas delas têm folhas e flores vistosas com potencial ornamental valioso.

Entre as florestas tropicais, a Mata Atlântica se destaca pela diversidade e abundância de epífitas. Até o momento, foram registradas 2.256 espécies desse tipo na floresta, o que corresponde a 15,4% do total de plantas vasculares encontradas ali. Boa parte delas são exclusivas do bioma. Surpreendentemente, essas pequenas notáveis podem totalizar até 2,5 toneladas de carbono por hectare de floresta, o que representa apenas 2,5% da biomassa viva total da área, mas quase 20% da biomassa fotossintetizante (tecido onde ocorre a fotossíntese). Além disso, elas são fonte de recursos e abrigo para a fauna na copa das árvores e fertilizam os solos abaixo delas.

Mas esse grupo de plantas é bastante vulnerável. Em geral, os remanescentes de florestas que sofreram algum tipo de perturbação abrigam somente 10% das espécies epífitas encontradas nas florestas conservadas. Além disso, como essas plantas não estão em contato com o solo, elas dependem exclusivamente da água e de nutrientes presentes na copa das árvores. Um cenário de mudanças climáticas e escassez de chuvas pode comprometer a sobrevivência dessas plantas tão lindas e importantes para a Mata Atlântica.

7. As plantas de florestas costeiras da Mata Atlântica, conhecidas como floresta de restinga, mudam as suas fontes de água quando em condições mais secas?

Nas florestas tropicais costeiras, estabelecidas em dunas e inundadas sazonalmente, como as florestas de restinga da Mata Atlântica, as plantas têm de conseguir lidar com variações rápidas no conteúdo de água no solo, uma vez que o solo é constituído por mais de 90% de areia. Uma das respostas possíveis das florestas para essas variações é a alteração no uso da água em períodos de maior seca. Em geral, em períodos mais úmidos, essas plantas usam majoritariamente a água da chuva presente nas camadas superficiais do solo, e, durante períodos mais secos, dependem de camadas mais profundas.

Estudos recentes revelam que as plantas dominantes da floresta de restinga apresentam uma variação sazonal nas fontes de água que utilizam , reajustando a profundidade de onde vão tomá-la, influenciadas pelo efeito combinado da umidade nas camadas superficiais do solo e das mudanças na profundidade do lençol freático.

Essas mudanças são comuns entre várias espécies, e a comunidade lenhosa da floresta de restinga mostra ter uma estratégia comum na aquisição de água. Uma redução mais extrema da disponibilidade de recursos hídricos — causada, por exemplo, pelo rebaixamento do lençol freático, ou por precipitação reduzida, provocada tanto por alterações climáticas como por pressão humana — pode, assim, ter um impacto significativo nesse ecossistema.

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