6 perguntas sobre liderança educativa

Gonzalo Muñoz
Líderes educativos são considerados ‘aqueles que influem em outros’ com o objetivo de melhorar a aprendizagem dos estudantes. Conheça evidências ligadas ao tema

Evidências reforçam cada vez mais a relevância de uma boa gestão escolar e seu impacto sobre a aprendizagem dos estudantes. O conceito de liderança educativa vem sendo mobilizado com frequência, e é especialmente importante em contextos desafiadores, aguçados pela crise da covid-19. Compreendê-lo é um passo fundamental na estruturação de políticas públicas que fortaleçam a atuação de gestores escolares. Entenda alguns conceitos ligados ao tema, as evidências que os embasam e sua aplicação no cenário latino-americano.

1. Por que a gestão educacional tem se tornado uma questão relevante para as pesquisas educacionais?

As evidências 1 já vêm mostrando há algumas décadas que a gestão educacional – entendida como o conjunto de processos que dão vida à organização escolar e que condicionam o trabalho dentro das salas de aula – é um fator-chave para a melhoria das aprendizagens dos estudantes e está diretamente associada a outras variáveis vinculadas à escola, sua cultura e condições de trabalho.

Nesse sentido, sabemos com certeza que, para alcançar os objetivos educacionais, são necessários distintos ingredientes, entre os quais, por exemplo, estão docentes com condições e capacidades suficientes, ou um financiamento justo. Entre esses ingredientes encontra-se também uma gestão educacional eficaz, com foco na aprendizagem e no desenvolvimento integral dos estudantes.

2. O que é ‘liderança educativa’? Qual a fecundidade desse termo?

A liderança em geral se define como a capacidade de exercer influência para alcançar determinado objetivo ou mover-se em certa direção. No mundo da educação, especialmente nos países de língua inglesa, esse conceito foi sendo usado com cada vez mais força para referir-se ao papel dos líderes escolares — sobretudo diretores, mas também outros profissionais em funções diretivas — na mobilização para a mudança educativa e a melhoria da aprendizagem.

Uma definição útil e acertada sobre líderes educativos é como: aqueles que influem em outros para fazerem coisas que se espera que melhorem a aprendizagem dos estudantes. O conceito de influência está relacionado à capacidade do líder de modificar o modo como outros atuam ou pensam e se articula com a ideia de “direção”, ao propor uma meta compartilhada para a qual apontem os esforços de todos os profissionais que integram a organização.

3. O que as pesquisas internacionais evidenciam sobre o papel da liderança educativa na melhoria da escola e da aprendizagem dos estudantes?

A pesquisa internacional vem destacando a liderança educativa como um dos elementos mais relevantes para a melhoria direta do desempenho organizacional e da aprendizagem dos estudantes. De fato, a literatura especializada indica recorrentemente que a liderança escolar “é o segundo fator intraescolar que mais influi na aprendizagem, depois da qualidade do ensino em sala de aula”.

A equipe do Programa de Liderazgo da Universidad Diego Portales, no Chile, fez nos últimos anos um esforço para sistematizar e traduzir para o espanhol as evidências recentes mais importantes sobre essa área de conhecimento.

4. No plano internacional, as evidências sobre liderança educacional têm fomentado a criação de políticas públicas? O que podemos aprender com essas experiências?

Em parte, graças a evidências acumuladas que confirmam a relevância do “fator liderança”, políticas educacionais de distintas partes do mundo têm colocado foco em potencializá-lo, entendendo que ele pode fazer uma diferença decisiva nas escolas, sobretudo naquelas em situação de desvantagem socioeducativa.

A aprendizagem mais importante a partir da experiência internacional é que o fortalecimento da liderança educativa requer políticas consistentes e coerentes em quatro áreas-chave: a) formação especializada, b) recrutamento e seleção, c) condições de trabalho e da carreira diretiva e d) funções e atribuições que se esperam dos líderes educativos.

5. Olhando para a América Latina, o que podemos dizer sobre a produção de conhecimento e as políticas públicas de fortalecimento de lideranças educativas?

Um diagnóstico recente produzido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) mostra que na América Latina vem se fazendo um esforço crescente para garantir à liderança educativa certas condições favoráveis, embora isso não tenha se traduzido ainda em um conjunto ordenado de políticas que abordem de maneira coerente esse âmbito da melhoria educativa. De fato, em nenhum dos países da região se traçou até agora uma estratégia de longo prazo nesse sentido.

A consequência disso é que a liderança escolar na América Latina não se tornou um dinamizador de mudança capaz, por sua vez, de desenvolver melhores processos e alcançar melhores resultados educacionais.

Para seguir avançando, precisamos gerar conhecimento especializado que permita chegarmos a um desenho de políticas pertinente e sensível às necessidades de cada contexto. A evidência disponível para a América Latina mostra que a produção acadêmica nesse campo é incipiente e com desníveis importantes entre países. Para evitar o risco da importação de soluções e políticas, a América Latina, com o protagonismo de suas universidades e o apoio público e privado, deve integrar-se à produção de conhecimento sobre liderança, que é hoje um fenômeno global.

6. A pandemia impulsionou a suspensão de atividades escolares presenciais e a implementação de diferentes modalidades de ensino remoto. Quais desafios essa conjuntura tem suscitado para o trabalho dos líderes educativos?

Os líderes escolares se viram duplamente exigidos no contexto provocado pela covid-19. A inescapável tarefa de buscar modos alternativos aos presenciais para levar a cabo o processo de ensino-aprendizagem somou-se à presença dolorosa da doença entre membros da comunidade educativa, assim como às danosas consequências materiais e subjetivas da crise econômica e social que golpeou muitas famílias. Os diretores escolares tiveram que sustentar o funcionamento de instituições educativas em condições excepcionais e ofereceram um apoio aos estudantes e a suas famílias que vai muito além do habitual.

A experiência prévia e também a acumulada nestes últimos meses permitiram aprender muito sobre o que implica liderar em contexto de crise e sobre quais são as capacidades fundamentais que se põem em jogo neste cenário.

Gonzalo Muñoz é sociólogo e mestre em sociologia pela Universidade Católica do Chile. Atualmente, é pesquisador da Faculdade de Educação da Universidad Diego Portales. Foi chefe da Divisão de Educação Geral do Ministério de Educação de Chile entre 2014 e 2016 e conselheiro da Agencia de Calidad de la Educación entre 2012 e 2014. É pesquisador convidado do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco.

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