6 perguntas que a ciência já respondeu sobre agricultura e desenvolvimento econômico

No Brasil, setor representa cerca de 4,4% do PIB. Entenda o que estudos dizem sobre seu papel para a redução da pobreza, o bem-estar da população e o crescimento do restante da economia

O setor agrícola desempenha papel estratégico no processo de desenvolvimento econômico. Contribuiu de forma significativa para a prosperidade econômica em países desenvolvidos, e seu papel nos países em desenvolvimento é de vital importância.

Atualmente, o setor é responsável por 4% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial e emprega cerca de 884 milhões de trabalhadores, o que corresponde a 27% da força global de trabalho. No Brasil, o setor representa cerca de 4,4% do PIB e emprega 20% da força de trabalho nacional. Isso mostra que o setor agrícola é importante por si só.

Mas quais as implicações do crescimento desse setor para o desenvolvimento econômico de maneira mais ampla? A literatura econômica tem uma longa tradição em tentar entender os impactos desse setor sobre a economia e o bem-estar.

1. Qual o papel do desenvolvimento agrícola sobre o crescimento econômico dos países?

O processo de desenvolvimento econômico é tipicamente caracterizado por um processo de mudança estrutural, em que a parcela da população empregada em atividades agrícolas diminui, ao passo que aumenta a parcela da população empregada em atividades não agrícolas. Estudos diversos indicam que ganhos de produtividade na agricultura foram fundamentais para promover essa transferência de trabalho entre esses setores, para promover a mudança estrutural.

Nunn & Qian (2011) mostram que os ganhos de produtividade advindos da introdução da batata na agricultura europeia foram responsáveis por um quarto do crescimento da população urbana entre 1500 e 1800. McArthur & McCord (2017) mostram que a disponibilidade de fertilizantes modernos promoveu mudança estrutural e aumentou consideravelmente o PIB per capita mundial no período pós-guerra. Já Gollin et al (2021) mostram que a introdução de sementes modernas durante a Revolução Verde em 1960 aumentou substancialmente o PIB per capita nos países em desenvolvimento, tanto por aumentar a renda agrícola quanto por promover atividades não agrícolas.

No Brasil, a produtividade agrícola cresceu 105,6% entre 2002 e 2013. Quando o PIB do Brasil se contrai, o setor agrícola geralmente cresce, e, quando o crescimento geral do PIB do Brasil é forte, o crescimento do PIB agrícola também é forte 1.

2. Como o crescimento da agricultura promove desenvolvimento econômico?

Existem inúmeros mecanismos que potencialmente conectam a agricultura com o desenvolvimento econômico mais amplo 2.

Em primeiro lugar, o crescimento da produtividade na agricultura aumenta diretamente a renda dos produtores rurais 3. Em segundo lugar, ele aumenta a oferta de alimentos, reduzindo seu preço e os custos de vida, especialmente da população mais pobre 4. Em terceiro lugar, o avanço da produtividade no campo permite suprir as necessidades alimentares da população com um menor número de trabalhadores, liberando-os para atividades não agrícolas fundamentais para promover o progresso econômico 5. Em quarto lugar, o crescimento da produtividade agrícola aumenta a renda e gera poupança, assim a oferta de capital aumenta e o setor intensivo em capital, manufatura, pode se expandir 6.

No Brasil, o setor agrícola vem crescendo a uma taxa impressionante. Os aumentos de produção resultaram em reduções nos preços domésticos reais dos alimentos, beneficiando não só a população rural, mas os grandes centros urbanos 7.

3. Qual o impacto de ganhos de produtividade na agricultura sobre o processo de industrialização?

Uma preocupação recorrente em economias exportadoras de bens agrícolas é que o crescimento da produtividade agrícola pode, na realidade, retardar o crescimento industrial, uma vez que o crescimento da produtividade no setor pode resultar em um aumento das exportações de produtos agrícolas, consequentemente, não estimulará os trabalhadores rurais a emigrar para outros setores econômicos 8.

No entanto, estudos empíricos recentes mostraram que em algumas situações aumentos de produtividade podem levar à industrialização, mesmo em economias abertas — desde que esses aumentos reduzam a necessidade de mão de obra empregada na agricultura.

Um estudo no Brasil analisou a expansão da soja no início dos anos 2000. A soja é uma das culturas agrícolas que menos demandam mão de obra, e a sua expansão se deu principalmente pelo avanço sobre outras culturas e pastagem. Sem a agricultura para competir na demanda por mão-de-obra, a indústria pôde contratar os trabalhadores que perderam espaço no cultivo de soja, o que levou a um processo de industrialização nesses municípios 9.

Em outro estudo, pesquisadores mostraram que a mecanização agrícola da cana-de-açúcar no Brasil reduziu a necessidade de trabalhadores empregados no setor. A mudança liberou mão de obra e levou a um processo de industrialização nas áreas rurais produtoras de cana-de-açúcar 10.

4. Qual tipo de industrialização decorre dos ganhos de produtividade na agricultura?

Tradicionalmente, espera-se que o crescimento da produtividade agrícola estimule a industrialização preponderantemente ao longo da cadeia de produção agrícola. Um estudo para o Brasil mostrou que o processo de industrialização do campo se deu dessa forma. Indústrias relacionadas a produtos agrícolas (alimentos e biocombustíveis, por exemplo) se beneficiaram dos ganhos de produtividade na agricultura, enquanto indústrias não relacionadas, como a de automóveis, não foram beneficiadas, embora também não tenham sido prejudicadas 10.

Como a maior parcela das pessoas empregadas na agricultura é de trabalhadores com baixo nível de escolaridade, o processo de realocação de mão de obra tende a favorecer indústrias menos intensivas em mão de obra especializada (calçadista e de vestuário, por exemplo). Como esses setores inovam menos e apresentam menor crescimento da produtividade, sua expansão acaba por desacelerar o crescimento da produtividade do setor industrial local 6.

Um estudo na Índia mostrou que choques de produtividade na agricultura impactam diretamente as indústrias que produzem bens consumidos nas áreas rurais. O estudo usou o impacto das variações climáticas (chuva, temperatura) sobre a produção agrícola e descobriu que a diminuição da produtividade reduziu a produção e o emprego nas empresas que produziam bens comercializados localmente. A redução na demanda local induzida por rendimentos mais baixos na agricultura desempenhou um papel fundamental 11.

5. Qual o papel da agricultura para a redução da pobreza?

A evidência acadêmica mostra que o crescimento na agricultura é em geral duas a três vezes mais eficaz na redução da pobreza do que uma quantidade equivalente de crescimento gerado fora da agricultura 12. Esse resultado é ainda mais acentuado nas economias mais pobres, onde o setor agrícola representa uma parcela maior do PIB 13.

A vantagem do desenvolvimento do setor agrícola sobre os setores não agrícolas na redução da pobreza é maior para a parcela da população mais pobre e com menor nível de escolaridade. O impacto se dá, em primeiro lugar, porque essa população acaba sendo mais empregada no setor agrícola e, em segundo lugar, porque, com o desenvolvimento do setor, há redução do preço dos alimentos 12.

Esses efeitos perdem força à medida que a renda dos países aumenta — o que tende a reduzir o número de pessoas em situação de extrema pobreza, assim como a parcela da população empregada no setor agrícola.

6. Quais as implicações do desenvolvimento da agricultura para a política pública?

A evidência empírica sugere que políticas que visam a desenvolver o setor agrícola podem afetar o tamanho do mercado local, portanto, podem afetar os outros setores da economia. Por isso, formuladores de políticas públicas deveriam incluir o aumento da produtividade como um dos objetivos centrais das políticas agrícolas. O aumento de produtividade abrange tanto melhorias tecnológicas quanto mudanças nos padrões de produção em direção a safras de maior valor ou a outros produtos.

Deve-se reconhecer que a agricultura é apenas uma parte da economia rural, e que um programa de desenvolvimento rural deve incluir a economia local em um sentido mais completo, incluindo a criação de oportunidades econômicas para os demais setores e para os trabalhadores dessas regiões. De qualquer forma, a evidência disponível indica que o crescimento da produtividade na agricultura tende a beneficiar o desenvolvimento econômico e a superação da pobreza.

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