5 pontos sobre os benefícios para a primeira infância do controle emocional dos pais

Elisa Rachel P. Altafim, Dana C. McCoy e Maria Beatriz M. Linhares

FOTO: Guillaume de Germain/Unsplash
Adultos devem desenvolver habilidade de regular emoções e ações para educar crianças de forma saudável. Entenda estudos sobre o tema

Cuidar e educar as crianças é uma tarefa difícil, especialmente para pais que estão passando por altos níveis de estresse. Para promover o desenvolvimento adequado e saudável das crianças, os adultos precisam desenvolver a habilidade de regular seus comportamentos e emoções, incluindo o uso de práticas parentais positivas, afetuosas e não violentas ou abusivas nas situações desafiadoras do dia a dia.

Nas práticas parentais, um aspecto extremamente relevante é a capacidade dos pais para regular suas emoções 1. A desregulação emocional pode fazer com que os adultos utilizem práticas parentais severas, como o abuso físico, ou externem emoções negativas durante as interações com as crianças 2.

Felizmente, as pesquisas nos mostram que os pais podem melhorar suas habilidades de regulação emocional e comportamental. O que nos diz a ciência sobre o tema? Como os chamados programas de parentalidade podem apoiar as famílias nesses aspectos?

1. Como a regulação emocional e comportamental se relaciona com as práticas de comunicação e disciplina positiva?

A prática vinculada à regulação emocional ou comportamental caracteriza-se pelos comportamentos das mães de controle das emoções — principalmente a raiva — e de regulação comportamental, a fim de não utilizar práticas negativas de abuso físico e psicológico contra as crianças 3. Na pesquisa de Altafim, McCoy e Linhares (2018) verificou-se que há uma correlação entre práticas de regulação emocional e comportamental, disciplina positiva (como elogiar as crianças quando se comportam bem, ajudá-las a expressar seus sentimentos, ensiná-las a resolver conflitos sem violência) e comunicação (como falar com as crianças em linguagem direta e evitar linguagem negativa e insultos).

Em média, as mães que adotam mais práticas de disciplina e comunicação positiva têm também maior regulação emocional e comportamental. O inverso também ocorre: quanto menor o uso dessas práticas, menor a regulação emocional e comportamental das mães.

2. Existem relações entre nível socioeconômico, regulação emocional e comportamental materna e problemas de comportamento nas crianças?

Uma pesquisa recente 3 verificou que independentemente do nível socioeconômico, as mães relatam dificuldades em regular suas emoções e comportamentos para lidar com as crianças.

As mães que relataram maior regulação emocional e comportamental também registraram que seus filhos tinham menos problemas de comportamento internalizantes (como muitas preocupações, tristeza, medo e preferência por brincar de forma isolada) e externalizantes (como birra, dificuldade de concentração, agitação e brigas com outras crianças).

Em média, quanto menor o nível socioeconômico das famílias, mais problemas de comportamento internalizantes as crianças apresentavam, segundo a pesquisa. Mas, embora essas sejam tendências médias, essas relações não foram observadas em algumas famílias com baixo nível socioeconômico. Além disso, algumas famílias com nível socioeconômico mais alto também relataram que seus filhos apresentavam problemas de comportamento.

3. Como programas de parentalidade podem melhorar as práticas parentais e a regulação emocional e comportamental materna?

Os resultados de outro estudo atual 4 indicam que mães que participaram de um programa de parentalidade em grupo, o Programa ACT (Para Educar Crianças em Ambientes Seguros), melhoraram suas práticas parentais de comunicação, disciplina positiva e regulação emocional e comportamental.

Por outro lado, a participação no Programa ACT auxiliou as mães a regularem as suas emoções e a reduzirem respostas inadequadas — como o abuso físico e psicológico — nos momentos de educar seus filhos.

Os achados de melhora da regulação emocional ou comportamental relacionam-se aos conteúdos abordados nas sessões do Programa ACT, que tratam de temas como o manejo da raiva e buscam mostrar como as mães podem ajudar os filhos quando eles estão com raiva. O programa também aborda o quanto gritos e bater são comportamentos de violência contra as crianças.

4. Como a melhora na regulação emocional e comportamental materna pode diminuir os problemas de comportamento das crianças?

Nossa pesquisa demonstrou também que, ao melhorarem a prática de regulação emocional e comportamental, as mães verificaram uma diminuição nos problemas de comportamento das crianças.

Entre as três práticas parentais analisadas na pesquisa (comunicação, disciplina positiva e regulação), percebemos que a regulação emocional e comportamental teve um impacto maior na diminuição dos problemas de comportamentos infantis.

Os resultados mostram a relevância dos programas de parentalidade na primeira infância para melhorar as práticas parentais, incluindo a regulação emocional e comportamental materna — que por sua vez, tem impacto no comportamento das crianças.

5. Quais práticas podem auxiliar os pais a melhorarem a regulação emocional e comportamental?

Uma prática abordada no Programa ACT refere-se à utilização de uma resposta em vez de uma reação diante de um comportamento desafiador da criança.

A reação ocorre quando, diante de um comportamento inadequado, difícil ou inesperado da criança, os pais agem sem pensar, utilizam-se da primeira palavra ou ação, baseados apenas na reatividade das emoções. Por outro lado, a resposta acontece quando os pais se acalmam, pensam sobre a situação, entendem as razões para o que aconteceu e, a partir dessa reflexão, decidem qual a melhor estratégia a ser utilizada 5. Esses conceitos estão relacionados à regulação emocional e comportamental, pois, para utilizarem práticas positivas, os pais precisam regular suas emoções e resistir à adoção de práticas violentas — que, muitas vezes, são utilizadas devido ao sentimento de raiva.

O Programa ACT também inclui uma sessão específica sobre o controle da raiva em que apresenta aos pais conteúdos referentes às expressões físicas, cognitivas e comportamentais dessa emoção e estratégias para lidar com as emoções negativas. Ao se prevenir a desregulação emocional e comportamental parental, pode-se prevenir o comportamento violento dos pais e o comportamento agressivo das crianças. Quebra-se, dessa forma, o ciclo intergeracional da violência.

BIBLIOGRAFIA

Altafim, E. R. P., McCoy, D. C., & Linhares, M. B. M. (2018). Relations between parenting practices, socioeconomic status, and child behavior in Brazil. Children and Youth Services Review, 89, 93-102. Disponível aqui.

Altafim, E. R. P., McCoy, D. C., & Linhares, M. B. M. (2021). Unpacking the impacts of a universal parenting program on child behavior. Child Development, 92 (2) 626-637. Disponível aqui.

Barros, L., Goes, A. R., & Pereira, A. I. (2015). Parental self-regulation, emotional regulation and temperament: Implications for intervention. Estudos de Psicologia (Campinas), 32(2), 295-306.

McCoy, D. C. (2013). Early violence exposure and self-regulatory development: A bioecological systems perspective. Human Development, 56(4), 254-273.

Silva, J. (2011). Programa ACT para Educar Crianças em Ambientes Seguros, Manual do Facilitador e Guia de Avaliação. Washington, DC: American Psychological Association.

Elisa Rachel Pisani Altafim é psicóloga com doutorado e pós-doutorado em ciências (saúde mental) pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Em 2016, foi pesquisadora visitante na Harvard Graduate School of Education e tem formação em Harvard nos cursos Principles and Practice of Clinical Research e Executive Leadership Program in Early Childhood Development. Atualmente é professora colaboradora e pesquisadora na Pós-Graduação em Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Atua como líder de portfólio das iniciativas de parentalidade da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Membro do Ivepesp (Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo).

Dana C. McCoy é professora associada na Harvard Graduate School of Education. Seu trabalho se concentra na compreensão de como os fatores de risco relacionados à pobreza na casa das crianças, na escola e nos ambientes da vizinhança afetam o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas e socioemocionais na primeira infância.

Maria Beatriz M. Linhares é psicóloga, professora associada sênior no Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Coordenadora do Lapredes (Laboratório de Pesquisa em Prevenção de Problemas de Desenvolvimento e Comportamento da Criança). Membro do NCPI (Comitê Científico Núcleo de Ciência pela Infância). Pesquisadora do CPAPI (Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância) (Fapesp/FMCSV). Membro do Ivepesp (Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo).

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