4 pontos sobre o ensino no nível de aprendizagem adequado

Existe uma grande variação nos níveis de aprendizagem dentro das salas de aula, mas os professores são incentivados a ensinar apenas para os melhores alunos. Entenda o que é ensino no nível de aprendizagem e por que formuladores de políticas públicas devem considerá-lo, em vez de se basearem em idade ou série

Apesar de um aumento significativo no número de crianças matriculadas nas escolas em todo o mundo, muitos alunos ainda têm pouco domínio de habilidades básicas de leitura e matemática. Essa é uma realidade de muitos países em desenvolvimento, como Malaui, Nicarágua e Zâmbia 2. A situação não é diferente no Brasil: quase 100% das crianças entre 7 e 14 anos estão matriculadas nas escolas, mas os indicadores educacionais nacionais continuam baixos em comparação aos de outros países.

As crianças estão indo à escola, mas muitas não estão aprendendo. Como resultado, há muitas vezes uma grande variação nos níveis de aprendizagem dentro das turmas. Por outro lado, os professores são muitas vezes pressionados pelas escolas e pelos pais para completar o currículo daquela série e não têm flexibilidade suficiente para ajudar os alunos que ficam para trás 2.

Resultados de 13 estudos aleatórios no Chile, Índia, Quênia e Estados Unidos mostram que adaptar o ensino aos níveis de aprendizagem dos alunos é uma forma eficaz de melhorar os resultados acadêmicos. Além disso, dados de 27 estudos mostram que programas que fazem esse tipo de adaptação estão entre os de melhor custo-benefício em termos de investimentos na melhoria da educação. Seja por reorganizar totalmente as salas, seja por treinar professores para implementar novas pedagogias e tecnologias, todos esses programas têm uma coisa em comum: adaptam o ensino aos níveis de aprendizagem dos alunos.

Formuladores de políticas públicas devem considerar a implementação de programas que usam uma parte do tempo das aulas para ensinar os alunos dentro dos níveis adequados de aprendizagem, em vez de se basearem somente na idade ou na série. Isso é especialmente relevante no contexto pós-pandemia do novo coronavírus, uma vez que se estima que milhões de crianças fiquem para trás na aprendizagem devido ao fechamento das escolas.

1. Quais são os impactos de programas que ensinam no nível dos alunos?

Estudos indicam que programas que “ensinam no nível certo” ajudam a melhorar as habilidades básicas de leitura e de matemática. Seis avaliações de impacto em sete estados da Índia mostraram que a abordagem chamada TaRL (Teaching at the Right Level), criada pela ONG indiana Pratham, melhorou significativamente os resultados acadêmicos das crianças 4 5. Enquanto todos os alunos tiveram ganhos na aprendizagem, os alunos de menor desempenho aprenderam mais.

Os programas TaRL nivelam as crianças numa escala de 3 a 5 e as separam em grupos de acordo com o nível de aprendizagem, em vez da idade ou da série. Durante uma parte do dia, professores treinados direcionam o ensino para o nível de aprendizagem de cada grupo usando atividades e materiais adaptados. Em todo o programa, os professores avaliam continuamente o progresso de seus alunos em leitura e em matemática e reagrupam as crianças de acordo com esses dados.

Pesquisadores testaram programas semelhantes no Chile, em outros estados da Índia e nos Estados Unidos, e identificaram impactos positivos consistentes na aprendizagem estudantil.

2. Os programas de ensino personalizado funcionam em diferentes contextos?

Uma série de modelos de implementação de ensino adaptado provou que essa abordagem é eficaz em diferentes contextos. No Chile, estudantes universitários voluntários lideraram pequenos grupos de alunos da 4ª série por meio de atividades de leitura por 90 minutos por dia durante 15 semanas, ajudando a melhorar essas habilidades em escolas que anteriormente tinham os piores desempenhos 6.

Na Índia, crianças da 2ª à 4ª série que tiveram duas horas de aulas de recuperação após a escola durante dois anos obtiveram melhores notas nos testes de matemática e de leitura 7. Em um programa de reforço escolar de um ano nos Estados Unidos, duplas de alunos do sexo masculino receberam um professor para ensiná-los no seu nível de aprendizagem por uma hora por dia, e a iniciativa levou ao aumento das notas de matemática para estudantes da 9ª e da 10ª séries 8.

Dois outros programas, desenhados a partir da metodologia do TaRL, tiveram impactos positivos e de baixo custo na aprendizagem de crianças na Índia. Em um modelo, os professores das escolas públicas usaram uma hora do currículo escolar para implementar a metodologia TaRL por um ano. Eles receberam orientação e monitoramento contínuo do governo indiano. Os resultados dos testes de leitura mostram uma melhora significativa entre os alunos que participaram do programa 4.

Em um segundo modelo, voluntários foram treinados pela ONG Pratham para guiar grupos de alunos separados por nível de aprendizagem por curtos períodos de tempo. Os programas duraram de 40 a 60 dias. Essa abordagem duplicou o número de crianças que podiam ler um parágrafo ou uma história. No grupo de comparação, 24% dos alunos podiam ler, enquanto, nos grupos de aprendizagem, 49% dos alunos podiam ler 5.

3. O que é preciso levar em consideração quando pensamos em implementar um programa desse tipo?

É importante levar em consideração quando e onde acontecerão as aulas e quem as dará.

Em avaliações que implementaram a abordagem TaRL fora do horário escolar, observou-se que tanto os membros da comunidade como os professores de escolas públicas eram capazes de conduzir o programa de forma efetiva 9 10 5.

Um programa em áreas urbanas liderado por membros da comunidade melhorou significativamente os indicadores de aprendizado a custo relativamente baixo 9. Nas zonas rurais, as crianças que, no início, sabiam ler apenas letras tinham 3,5% maior probabilidade de conseguir ler palavras ou parágrafos inteiros e 3,3% maior probabilidade de lerem histórias depois de participarem de grupos de leitura liderados por voluntários 10.

Os cursos de verão de um mês liderados por professores de escolas públicas também aumentaram as notas de matemática e de leitura dos alunos 4.

Mas um estudo da abordagem TaRL implementada durante o horário escolar mostrou que os professores de escolas públicas continuaram a ensinar o currículo regular em vez de implementarem o programa. Além disso, voluntários que trabalhavam durante as atividades regulares da escola (e não depois da escola) foram absorvidos como professores e não implementaram o ensino adaptado 5.

Por outro lado, em uma iteração subsequente, quando os professores receberam uma hora durante o dia escolar para implementar o programa e receberam mentoria e monitoramento contínuo, os alunos obtiveram resultados mais elevados em um teste de leitura do que os alunos que não receberam o programa TaRL 4.

Juntos, esses estudos destacam a importância de os programas fornecerem professores com tempo dedicado exclusivamente a eles para superarem a pressão de ensinar o currículo regular e serem capazes de reagrupar e ensinar os alunos por nível de aprendizagem.

4. Quais são as outras alternativas para ensinar no nível dos alunos?

Um estudo no Quênia mostrou que uma abordagem diferente, na qual as salas de aula foram divididas em dois grupos baseados no nível de aprendizagem inicial, também melhorou os resultados educacionais de todos os alunos, porque com ela os professores conseguiam adaptar o ensino aos níveis de aprendizagem de cada grupo.

Os alunos do primeiro grau foram divididos em duas classes, de forma aleatória ou pelo seu nível de aprendizagem inicial, o que reduziu o tamanho médio da turma de 89 para 42 alunos 11. Os estudantes selecionados aleatoriamente (e não pelo nível de aprendizagem) para classes menores não mostraram melhoras na performance, o que sugere que somente reduzir as classes não é uma solução eficiente. No entanto, todos os alunos selecionados para classes menores com base em seu nível de aprendizagem inicial melhoraram sua performance em matemática e em leitura. Os custos do programa foram baratos e incluíram avaliar e agrupar os alunos por nível de aprendizagem.

Tecnologias de educação que personalizam o conteúdo com base nos níveis de aprendizagem de cada aluno também melhoram a aprendizagem. Dois programas na Índia 3 10 usaram esse tipo de tecnologia para adaptar o ensino ao nível do aluno e tiveram ganhos. Em um dos casos, um software adaptativo chamado Mindspark personalizou o conteúdo baseado no nível e na escala de progressão de cada aluno. Os estudantes que receberam vouchers para frequentar centros do Mindspark após a escola por cerca de quatro meses obtiveram melhores resultados nos testes de matemática e leitura 3. No outro caso, um programa de computador que usava jogos para ensinar conteúdos na Índia também melhorou as pontuações dos alunos nos testes de matemática depois de dois anos 10.

Bibliografia

1. ASER Centre. 2016. Annual Status of Education Report (Rural) 2016. New Delhi, India.

2. World Bank. 2018. “World Development Report 2018: Learning to Realize Education's Promise.” Washington, DC.

3. Muralidharan, Karthik, Abhijeet Singh, and Alejandro J.Ganimian. Forthcoming. “Disrupting education? Experimental Evidence on Technology-Aided Instruction in India.” American Economic Review.

4. Banerjee, Abhijit, Rukmini Banerji, James Berry, Esther Duflo, Harini Kannan, Shobhini Mukerji, Marc Shotland, and Michael Walton. “Mainstreaming an Effective Intervention: Evidence from Randomized Evaluations of ‘Teaching at the Right Level’ in India.” NBER Working Paper No. 22746, October 2016.

5. Banerjee, Abhijit, Rukmini Banerji, James Berry, Esther Duflo, Harini Kannan, Shobhini Mukerji, Marc Shotland, and Michael Walton. 2017. “From Proof of Concept to Scalable Policies: Challenges and Solutions, with an Application.” Journal of Economic Perspectives 31 (4): 73–102.

6. Cabezas, Veronica, Jose Cuesta, and Francisco Gallego. “Effects of Short-Term Tutoring on Cognitive and Non-Cognitive Skills: Evidence from a Randomized Evaluation in Chile.” Working Paper, May 2011.

7. Lakshminarayana, Rashmi, Alex Eble, Preetha Bhakta, Chris Frost, Peter Boone, Diana Elbourne, and Vera Mann. 2013. “The Support to Rural India’s Public Education System (STRIPES) trial: a Cluster Randomised Controlled Trial of Supplementary Teaching, Learning Material and Material Support.” PLoS One, 8 (7).

8. Cook, Philip J., Kenneth Dodge, George Farkas, Roland G. Fryer, Jonathan Guryan, Jens Ludwig, Susan Mayer, Harold Pollack, and Laurence Steinberg. “The (Surprising) Efficacy of Academic and Behavioral Intervention with Disadvantaged Youth: Results from a Randomized Experiment in Chicago.” NBER Working Paper No. 19862, January 2014.

9. Cook, Philip J., Kenneth Dodge, George Farkas, Roland G. Fryer, Jr., Jonathan Guryan, Jens Ludwig, and Susan Mayer. “Not Too Late: Improving Academic Outcomes for Disadvantaged Youth.” Northwestern University Institute for Policy Research Working Paper, February 2015.

10. Banerjee, Abhijit, Shawn Cole, Esther Duflo, and Leigh Linden. 2007. “Remedying Education: Evidence From Randomized Experiments in India.” The Quarterly Journal of Economics 122(3): 1235-1264.

11. Banerjee, Abhijit, Rukmini Banerji, Esther Duflo, Rachel Glennerster, and Stuti Khemani. 2010. “Pitfalls of Participatory Programs: Evidence from a Randomized Evaluation in Education in India.” American Economic Journal: Economic Policy 2(1): 1-30.

12. Duflo, Esther, Pascaline Dupas, and Michael Kremer. 2011. “Peer Effects, Teacher Incentives, and the Impact of Tracking: Evidence from a Randomized Evaluation in Kenya.” American Economic Review 101 (5): 1739–74.

13. Duflo, Esther, Pascaline Dupas and Michael Kremer. 2015. “School Governance, Teacher Incentives, and Pupil-Teacher Experiemental Evidence from Kenyan Primary Schools.” Journal of Public Economics 123: 92–110.

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Adaptado de: Tailoring instruction to students’ learning levels to increase learning

Tradução: Ariadna Coelho e Isabela Salgado.

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